Bertha Maakaroun
Bertha Maakaroun
Jornalista, pesquisadora e doutora em Ciência Política
ENTREVISTA

Brasil está no centro do combate mundial à extrema direita

Reeleição de Lula e vitória dos democratas nos EUA enfraquecem a presença de Donald Trump na América Latina, diz João Carlos Amoroso Botelho, professor da UFMG

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Apontado como uma espécie de “sonho”, o Paraguai ocupou o centro da narrativa de lideranças brasileiras do campo da direita bolsonarista. Houve, inclusive, aumento significativo de brasileiros se mudando para lá: em 2025 foram 23.526 pedidos de residência de brasileiros, quase o dobro de 2020. O escândalo do Ueno Bank, que levou ao impeachment de Santiago Peña, desmistifica esse discurso?

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João Carlos Botelho – O caso do Ueno Bank pode ser associado às fraudes do Banco Master no Brasil. Mostra que a corrupção, quando atinge o campo da direita, como ocorreu no Paraguai, salienta uma característica: a grande abertura para que o interesse privado penetre no Estado, dando contrapartidas aos políticos que a promoveram. Temos, então, a penetração muito grande de interesses privados na gestão do Estado, colocando em xeque certa aura de enfrentamento ao establishment, discurso muito empregado por pessoas desse campo político que nunca foram antissistema, mas se promovem como tal.

O que representa para o trumpismo na América Latina a reeleição de Lula neste 2026?

A reeleição de Lula combinada com a vitória dos democratas nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos pode significar uma virada, no sentido de enfraquecimento da presença de Donald Trump na América Latina. Os democratas questionavam a política estadunidense para a região, por exemplo os ataques aos supostos navios de traficantes e o governo à distância da Venezuela, entre outras políticas. Agora, com a maioria do Congresso, os democratas terão mais poder para fiscalizar. Soma-se a esse contexto a queda de Santiago Peña, que era aliado de Trump na região. Por outro lado, como política externa é prerrogativa do presidente da República, ao se ver limitado pelo Congresso, Trump poderá radicalizar.

Também vejo na vitória de Lula a demonstração de que é possível contrariar a política ostensiva de Trump para a região e vencer a eleição apostando na soberania nacional e na defesa dos recursos naturais. Ao mesmo tempo, essa virada no Brasil, com toda a mobilização popular, engajamento de partidários da esquerda, de movimentos sociais e de pessoas que defendem as instituições democráticas, pode servir como modelo para o enfrentamento da extrema direita em outras regiões do planeta. André Janones, que organizou o “Exército do Lula”, está sendo assediado por lideranças de outros países, interessadas em espelhar o modelo. Não é fácil, pois o Brasil tem, em relação ao mundo, uma presença muito grande em redes sociais, além da característica do uso intenso das redes para fazer política. Então, o modo não pode ser exportado inteiramente, mas não deixa de servir como exemplo de como a mobilização em redes em convergência com a mobilização nas ruas é uma forma de enfrentar a extrema direita, que até então tinha o monopólio das redes sociais.

A América Latina tem se caracterizado ao longo das últimas décadas por um movimento ideológico pendular. A reeleição de Lula interrompe a onda de governos eleitos alinhados a Donald Trump?

O início da década de 2010 presenciou na América Latina governos de esquerda e centro-esquerda, consolidados nos anos 2000: Dilma Rousseff no Brasil (2010 e 2014), José Mujica (2010) e Tabaré Vázquez (2014) no Uruguai, Cristina Kirchner na Argentina, Evo Morales na Bolívia (2014) e Rafael Correa no Equador (2013). Depois veio a guinada à direita ou “onda azul”, com Mauricio Macri na Argentina (2015), Pedro Pablo Kuczynski no Peru (2016), Sebastián Piñera no Chile (2017), Iván Duque na Colômbia (2018), Jair Bolsonaro no Brasil (2018) e Luis Lacalle Pou no Uruguai (2019).

Entre 2020 e 2024, houve na América Latina uma nova “onda rosa” de governos de esquerda: Luis Arce na Bolívia (2020), Pedro Castillo no Peru (2021), Gabriel Boric no Chile (2021), Xiomara Castro em Honduras (2021), Gustavo Petro na Colômbia (2022), Lula no Brasil, Claudia Sheinbaum no México (2024) e Yamandú Orsi no Uruguai (2024). E agora, na metade seguinte desta década, houve a “onda azul” de governos de direita ou extrema direita alinhados a Trump no Paraguai, Argentina, Equador, Bolívia, Chile, Honduras, Costa Rica, Peru e Colômbia.

O que ressalto em minha análise é que, a partir de 2015, temos tido na América Latina o que chamo de ciclo de oposições. De 40 eleições presidenciais realizadas nesse período, 30 foram vitórias da oposição. A eleição presidencial do Brasil deste ano foi a décima entre as vitórias da situação. As exceções em que a situação venceu foram Costa Rica (2018 e 2026), Equador (2017 e 2025), México (2024), El Salvador (2024), Paraguai (2018 e 2023), Honduras (2017) e agora o Brasil com a reeleição de Lula. Vale lembrar que em 2027 teremos eleição para presidente na Argentina. De certa forma, Javier Milei e Trump vão enfrentar o julgamento nas urnas. Vamos acompanhar se esse ciclo das oposições vai se confirmar.

O que explica a dificuldade dos incumbentes para se reeleger ou para eleger os seus candidatos?

Estou trabalhando em algumas hipóteses. O debate político hoje é muito volátil e a dificuldade em manter a aprovação presidencial alta é uma demonstração disso. O presidente que acabou de tomar posse, em geral, carrega após seis meses maior desaprovação do que aprovação. Antes se falava em lua de mel pós-eleitoral, ciclo em que os governantes promoviam suas agendas embalados pela popularidade. Hoje, ela é cada vez mais curta, se é que ainda existe.

Tornou-se muito difícil governar em decorrência do debate volátil que as redes fomentam, além da polarização afetiva, que dificulta a negociação de propostas que possam ser abraçadas por diferentes campos. Governar um país como o Brasil, com grande fragmentação partidária, é ainda mais difícil. Lula teve experiência em seus dois primeiros mandatos, em que geria uma coalizão partidária sem grandes problemas. Mas, neste terceiro mandato, a aprovação de propostas do governo dependeu, em alguns casos, de mobilização popular, como foi o caso do fim da escala 6x1 e da isenção do Imposto de Renda até a faixa de quem ganha R$ 5 mil.

Agora, nós também exploramos os fatores tradicionais para explicar a aprovação de incumbentes, como o desempenho econômico. Mas, isoladamente, ele já não explica tudo: Lula obteve resultados econômicos positivos no terceiro mandato que não tiveram a expressão na aprovação do governo dele que poderiam ter em outros momentos. A percepção da violência e a sensação de insegurança, com índices de criminalidade que justificam mais ou menos tais percepções, sendo um tema muito presente no debate público, é também outra variável importante que afeta a aprovação de governos.


As big techs saem desta eleição sob acusação de favorecimento ao campo político da direita e extrema direita. Esse será, em sua avaliação, um debate que terá força para promover a regulamentação no Congresso Nacional?

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Até nesse aspecto é possível identificar mais um desdobramento da virada de Lula no segundo turno: a percepção por parte significativa da população de que o algoritmo não é neutro, não é transparente e a mobilização popular é uma forma de enfrentá-lo. Está em curso no país a coleta de assinaturas para que o Congresso abra a CPI das Big Techs. Há segmentos de uma população engajada que estão mobilizados para combater esse cenário e expor a atuação das big techs na promoção de certas candidaturas.
Houve, nesta eleição, o despertar do campo progressista sobre essa interferência nas dinâmicas políticas dos países. E, agora, o campo progressista se organizou para disputar também o enquadramento dos fatos. A extrema direita antes afastava qualquer tentativa de debater a regulamentação sob o argumento do cerceamento da liberdade de expressão. Vejo agora uma avenida de possibilidades para que a mobilização social enfrente isso.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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