"Democratas têm muita curiosidade em relação ao Exército do Lula"
"A vitória do Lula provou que, no contexto da América Latina, a extrema direita não vai, necessariamente, vencer por WO: tem de jogar e pode perder"
Mais lidas
compartilhe
SIGA NO
Quais os possíveis desdobramentos da vitória democrata nas eleições de meio do mandato para a Câmara e um pouco mais de um terço do Senado?
Fique por dentro das notícias que importam para você!
Não podemos esperar mudança imediata da política externa americana do governo Trump para a América Latina. Inclusive uma das razões pelas quais os Estados Unidos não agiram de forma mais contundente em relação ao resultado das eleições presidenciais no Brasil foi em decorrência da proximidade com as midterms: Trump sentiu que, quanto mais se envolvesse nas eleições brasileiras, menos energia teria para se dedicar às eleições americanas. Embora o Brasil nunca tenha sido prioridade para os democratas, há, neste momento, um crescente interesse do Partido Democrata, fruto de contato entre parlamentares brasileiros e americanos, uma construção que vem do governo Biden, a partir da eleição de Lula em 2022. Essa aproximação traz certa tensão para o tema Brasil nos Estados Unidos, pois os democratas querem usar a questão do Bolsonaro contra governo Trump, pretendem cobrá-lo em relação às acusações de que teriam ocorrido irregularidades na concessão do visto e em todo o processo de saída de Flávio Bolsonaro do Brasil. Com o controle do Congresso, há perspectiva de abertura de comissões de fiscalização, de colocar muita pressão sobre Trump e, no limite, abrir processo de impeachment. O Brasil não vai ser o centro desse movimento de maior escrutínio, mas poderá participar, pois, ao mesmo tempo que o governo Lula não quer romper com os Estados Unidos se envolvendo diretamente nesses processos, nada impede que parlamentares brasileiros da esquerda tragam elementos que vão embasar investigações sobre Trump. Além disso, há entre democratas muita curiosidade em relação ao chamado Exército do Lula, esse fenômeno digital. Estão interessados em compreender como o Brasil conseguiu empreender virada entre os dois turnos e o que isso poderia ensinar para os democratas em seu enfrentamento ao trumpismo.
Qual a chance de o tarifaço imposto por Trump aos produtos brasileiros ser revisto com a nova composição do Congresso?
O tarifaço foi, num primeiro momento, instrumento de coerção econômica, para tentar disciplinar aliados e aumentar margem de barganha dos Estados Unidos. Tudo vai depender dos impactos econômicos dessas tarifas sobre os preços nos Estados Unidos. Trump tirou o pé do acelerador quando se deu conta do dano econômico que causava, principalmente para produtos básicos como o café. A esta altura, com quase dois anos de mandato, o que não colou não vai voltar a acontecer. No médio prazo, passada a espuma das eleições do Brasil e dos Estados Unidos, não há razão para acreditar que Trump não queira retomar relações com o governo brasileiro, porque é estratégico para várias coisas que lhes interessam, como as terras raras. O governo Lula poderá negociar em termos mais soberanos do que Flávio negociaria. O mesmo vale para data centers, pois o governo Lula nunca negou essa possibilidade, que interessa para aliados de primeira hora de Trump.
O que a reeleição de Lula, interrompendo o ciclo de vitórias de candidaturas da direita e extrema direita apoiadas pelos Estados Unidos, sinaliza neste momento?
Muitos se entusiasmaram com a vitória do Lula porque o Brasil se tornou um muro de contenção para a expansão da extrema direita na América Latina. Ela provou que, no contexto da América Latina, a extrema direita não vai, necessariamente, vencer por WO: tem de jogar e pode perder. A reeleição do Lula também interrompeu o que autores têm chamado de maldição de incumbente: os novos governos têm tido grande dificuldade de se reeleger. Lula fez a virada em três semanas dando um horizonte de futuro e esperança para as pessoas. Coisa que a esquerda tem tido dificuldade em fazer.
O presidente Donald Trump ainda não reconheceu a vitória de Lula. Isso pode mudar com o novo Congresso?
Os impactos do não reconhecimento são no plano diplomático: pode dificultar o diálogo de alto nível entre os dois países. Politicamente, protelar o reconhecimento é colocar água no moinho do bolsonarismo, incentivando a narrativa de que teria havido fraude eleitoral, embora a maioria dos partidos, inclusive o PL, já abandonaram essa tese. Agora o comércio bilateral se mantém protocolar, pelo contato consular. Os Estados Unidos tenderão a usar o reconhecimento como moeda de barganha para acelerar alguma agenda de seu interesse. Isso é muito característico da política externa do Trump. Para fazer algo que seria prosaico, do tipo reconhecer a vitória, coloca alguma condição, um melindre, para aumentar a capacidade de barganha.
Como Donald Trump, que com a derrota republicana se torna um “pato manco”, deverá atuar nos dois últimos anos de seu mandato?
Quando o presidente perde o controle do Congresso no meio de seu mandato, na falta das condições políticas para articular agenda interna mais robusta, ele tende a focar o seu esforço maior na política externa. A política econômica, ações nas dimensões da saúde, educação e infraestrutura são campos do controle mais estrito do presidente da República. Além disso, a política externa está sob o comando presidencial. De todas essas áreas, a política externa é aquela que tem o menor controle legislativo. O legislativo não pode impor que o governo estabeleça relações mais ou menos intensas com o país “A” ou “B”. O Congresso pode tentar aprovar o cancelamento de auxílio militar a Israel ou pode tentar colocar freio na guerra que iniciou com o Irã de forma unilateral. Mas, de forma geral, a capacidade do Congresso impedir determinada trajetória externa para o governo é pequena. Como o presidente precisa seguir entregando, porque quer fazer o sucessor, é provável que Trump concentre os esforços em política externa como resposta à paralisia que potencialmente ocorrerá com os temas da política interna.
Qual tema da política externa tem promovido maior polarização nos Estados Unidos?
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
O tema de Israel. Depois do 7 de outubro de 2023 e o início da guerra em Gaza, muitos americanos, sobretudo jovens, têm protestado em defesa do povo palestino, criticando Israel e denunciando um genocídio. E esse é tema surpreendente, pois, se olharmos para a política americana por décadas, o apoio a Israel sempre foi suprapartidário. O 7 de outubro criou fissuras dentro da comunidade judaica. Diante do aumento do antissemitismo, alguns culpam os defensores da pauta palestina e outros, a política de Benjamin Netanyahu. Isso também gera pressão aos democratas, porque os republicanos não vão mudar a retórica: a base eleitoral republicana é evangélica e tem relação existencial com Israel, é o que tem sido chamado de sionismo cristão, ou seja, o apoio incondicional de evangélicos a Israel no Brasil e nos Estados Unidos. Ficam, então, os democratas sob pressão: a juventude mais posicionada passa a pressionar em tensão interna com a ala democrata associada a Israel. Essa cisão vai ser ponto de inflexão importante no posicionamento de maioria democrata a partir do ano que vem, que deve ter posição muito mais crítica. E também deverá ser ponto de tensão com Trump, pois não há indícios de que ele vá fazer alguma coisa para diminuir o relacionamento com Israel.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.