Bertha Maakaroun
Bertha Maakaroun
Jornalista, pesquisadora e doutora em Ciência Política
Em Minas

Supervotações de Nikolas e Pavanato ressuscitam proposta do distrital misto

Entre os 13 deputados federais reeleitos do PL em 2026, dez perderam votos em relação ao pleito de 2022, apesar de todo o aparato das emendas parlamentares.

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A votação recorde do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e do seu aliado paulista Lucas Pavanato (PL-SP), respectivamente 3,12 milhões e 3,03 milhões, sacudiu a poeira de uma proposta que foi amplamente debatida em 2017 no Senado: o voto distrital misto, adotado na Alemanha. De autoria de José Serra (PSDB-SP) e, em outra iniciativa, de Eunício de Oliveira (MDB-CE), o Senado aprovou naquele ano dois projetos de lei que instituem o voto distrital misto nas eleições proporcionais de vereadores, deputados estaduais, distritais e federais: o PLS 86/2017 e o PLS 345/2017 tramitaram em conjunto e seguiram para a Câmara dos Deputados. De lá para cá, tramitaram outras propostas sobre o mesmo tema na Casa, com outras variações bem piores, como o Distritão, adotado no Afeganistão.

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Após esvaziar o balaio de votos sobretudo de parlamentares do próprio PL e da direita tradicional espalhados pelo PP, União, Republicanos, PSD, MDB, entre outros, Nikolas Ferreira arrastou com a sua votação quase 15 dos 21 deputados eleitos pelo PL. Entre os 13 deputados federais reeleitos do PL em 2026, dez perderam votos em relação ao pleito de 2022, apesar de todo o aparato das emendas parlamentares.


A deputada federal Greyce Elias, originária do Avante, caiu de 110.346 para 66.395 votos. Dr. Frederico, que era do PRD e se filiou ao PL, decresceu entre os dois pleitos de 84.771 para 60.625 votos. O deputado federal Cabo Junio Amaral (PL), que teve, em 2022, 59.277 votos conquistou em 2026 apenas 33.762. Lincoln Portela (PL) saiu de 42.238 para 37.162 votos. Em todos esses casos, parlamentares se queixam pelos cantos de terem sido sugados em suas bases, mas, conformam-se: Nikolas puxou para si os seus votos – e ganhou poder – mas, proporcionou-lhes uma eleição com o menor número de votos já registrado pela bancada: o último a se eleger, Sargento Mello-Casal obteve 25.090 votos.


Os parlamentares do PL se contentam em ter perdido votos para ganhar a cadeira. Fabinho Ramalho, por exemplo, que em 2022 concorreu pelo MDB, obteve 77.604 votos e não se elegeu; em 2026 migrou para o PL e foi bem-sucedido com 43.908 votos, pouco mais da metade dos votos que obteve no pleito anterior. Mas muitos deputados de outras legendas que tiveram a base eleitoral subtraída pela metade por Nikolas Ferreira só se reelegeram porque incorporaram ao longo do mandato novas cidades à sua área de atuação. Prefeitos reclamam que a “invasão” de Nikolas prejudicou parlamentares que destinavam emendas às cidades.


Em São Paulo, o fenômeno foi parecido: Lucas Pavanato, sozinho, puxou outros oito parlamentares de sua bancada. Na esquerda, Erika Hilton (Psol-SP), com 1,5 milhão de votos, contribuiu para eleger mais quatro. Entre 513 deputados federais eleitos em 2026, 33 tiveram votação maior do que os respectivos quocientes eleitorais de seus estados: além de se eleger, contribuíram para que outros candidatos de seu partido conquistassem cadeiras. Entre eles estão André Fernandes (PL-CE), Sâmia Bomfim (Psol-SP), Júlia Zanatta (PL-SC) e Ana Elisa (PT-MG).


Pelo atual sistema eleitoral, o proporcional de lista aberta, adotado no Brasil, o eleitor escolhe qualquer candidato que concorre em seu estado. A partir do conjunto dos votos válidos, calcula-se o quociente eleitoral – mínimo necessário para que um partido conquiste uma cadeira na Câmara dos Deputados. A votação nominal e de legenda de cada chapa partidária é dividida pelo quociente partidário para o cálculo do número de cadeiras que cada partido terá. A distribuição das sobras adota um sistema de médias.


Já o modelo defendido por Hugo Motta e pelo Centrão – o distrital misto proporcional – divide cada estado em distritos. O eleitor vota duas vezes: parte dos deputados é eleita pelo distrito e parte em um segundo voto, que é feito no partido. Dirigentes favoráveis a esse modelo avaliam que ele tende a reduzir a sobrerrepresentação de chapas com “puxadores” como Nikolas. A esquerda tende a rejeitar essa proposta, porque ressalta a representação da diversidade da sociedade, característica do sistema proporcional brasileiro. No voto distrital, essa característica se perde: apenas o mais votado daquele distrito entra. Já o segundo voto é conferido ao partido, responsável por elaborar a lista de candidatos. E aí está um problema, em um sistema partidário viciado por caciques que controlam as legendas e operam sem controle externo.

Bancada do PL


O senador e governador eleito Cleitinho (Republicanos) vai se reunir nesta quinta-feira, 5, na Associação Médica, com as bancadas estadual e federal do PL, além do senador eleito Domingos Sávio (PL) e primeiro suplente de Cleitinho, Alex Diniz (PL). Segundo o presidente do PL, deputado federal Zé Vítor, será um encontro cordial que irá abordar os desafios de sua futura gestão, entre os quais o déficit fiscal previsto para 2027, a dívida de Minas e os desafios de sua gestão. Cleitinho pretende ter num segundo momento reunião exclusiva com os deputados estaduais para discutir o seu relacionamento com o Legislativo e a formação de sua base de sustentação na Assembleia.


Raio X

Em consulta pública realizada junto à população mineira entre 14 de abril e 13 de setembro de 2026, para elaboração de diagnóstico de problemas e prioridades de investimento, o Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG) alcançou 4.376 participações em 515 cidades mineiras. O resultado supera em frequência de participações iniciativa similar do Tribunal de Contas da União (TCU), realizada em 2025, que obteve cerca de 1.300 participações. A escuta é uma das fases do projeto “Você no Controle”, idealizado para ampliar a participação da população ao planejamento das fiscalizações em Minas Gerais. Para realizar o diagnóstico, o TCE-MG combinou estratégias para coleta de dados presencial e online.

Prioridades e problemas

Cada um dos 4.376 participantes forneceu respostas binárias para as prioridades e investimentos. A saúde pública lidera o ranking de prioridades com frequência de 2.345 (53,6%) entre participantes de todo o estado. Em seguida, aparecem obras e infraestrutura, apontadas por 1.417 (32,4%) dos participantes. A educação foi mencionada 1.384 (31,6%) vezes e a gestão fiscal e governança teve 1.361 (31,1%) menções. Ao indicarem os principais problemas que afetam o seu cotidiano, a violência urbana e criminalidade foram apontadas por 2.551 (58,3%). Também alcançaram alta frequência de reconhecimento como problemas: as obras paralisadas e/ou atrasadas indicadas por 2.528 (57,8%) participantes, o combate à corrupção, por 2.488 (56,9%) e o acolhimento de pessoas em situação de rua por 2.472 (56,5%).


Brigadas florestais

A vereadora Luiza Dulci é a autora do projeto de Lei que institui a Política Municipal de Manejo Integrado do Fogo (MIF), já aprovado por unanimidade na Câmara Municipal de Belo Horizonte e sancionado na Lei 12.154/2026. A nova política permite que o Executivo crie brigadas florestais constituídas por servidores municipais, pessoas contratadas ou voluntárias que poderão receber capacitação do Corpo de Bombeiros para atuar na prevenção e combate a incêndios florestais. A corporação também poderá, mediante convênio com o poder público, ajudar na construção de Planos de Manejo Integrado do Fogo de áreas protegidas da cidade, documento de planejamento e gestão com objetivo de reduzir a severidade de incêndios florestais.

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Queimas restritas


O texto também prevê a realização de queimas prescritas, que são o uso planejado e monitorado do fogo para preservar a mata de incêndios maiores. Nessa técnica, o fogo controlado consome a “vegetação combustível”, como folhas secas caídas e galhos baixos, para que, diante de um incêndio no local, o fogo descontrolado não consiga ganhar grandes proporções nem destruir toda a floresta

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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