Bertha Maakaroun
Bertha Maakaroun
Jornalista, pesquisadora e doutora em Ciência Política
EM MINAS

Da fuga ao isolamento

Seja lá quais tenham sido as motivações de Flávio Bolsonaro para a mudança da expressão na carta ao Brasil, o impacto político de toda a ação foi desastroso

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Tão surpreendente quanto o enredo folhetinesco da fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para os Estados Unidos – uma repetição dos passos do pai, Jair Bolsonaro (PL) quando foi derrotado em 2022 – é o anúncio de que será o líder da oposição fora do Brasil. No vai e vem das “cartas à nação”, em que primeiro se autoproclama presidente eleito do Brasil, para, em seguida, se contentar com a classificação de verdadeiro “líder” do Brasil, teve digitais de IA e do próprio governo norte-americano.

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Pelo X, o jornalista Paulo Figueiredo, um dos mentores intelectuais do bolsonarismo e aliado de primeira hora de Flávio e do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, responsabilizou o ChatGPT. Segundo Figueiredo, seria intenção divulgar a carta se colocando como líder, mas a IA teria incluído no texto final uma versão anterior. Se assim foi, o senador teria divulgado uma carta de tal gravidade sem nem sequer reler o texto em revisão. Não parece factível. Acusar a IA é um “não argumento”, desprovido de qualquer razoabilidade. Mas os delírios parecem à solta.

Mais provável é a apuração da colunista Mariana Sanches, do Uol. Segundo Sanches, assessores do Departamento de Estado dos Estados Unidos solicitaram que a expressão fosse modificada, porque poderia dar a entender que o governo americano havia acolhido o senador nessa condição, de “presidente eleito”, o que criaria problemas para as relações diplomáticas oficiais entre Brasil e Estados Unidos. A Embaixada dos Estados Unidos em Brasília encaminhou, em 26 de outubro, aos órgãos dos Estados Unidos, relatório diplomático, no qual, segundo divulgou a Folha de S. Paulo, a vitória do presidente Lula (PT) foi descrita como "definitiva" e "surpreendente".

Seja lá quais tenham sido as motivações de Flávio Bolsonaro para a mudança da expressão na carta ao Brasil, o impacto político de toda a ação foi desastroso. O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, afirmou nesta quinta-feira, 29, que ninguém aprova a forma como Flávio saiu do Brasil nem a carta em que reitera não aceitar o resultado das urnas, mente sobre fraude e se declara eleito. O presidente do PL, foi além. Depois de visitar Jair Bolsonaro, que cumpre pena por tentativa de golpe de estado, declarou que o ex-presidente tampouco sabia que o filho deixaria o país depois da derrota eleitoral. Com o controle do maior quinhão do fundo partidário do país – estimado em R$ 1,5 bilhão para 2027, do qual, com 121 parlamentares –, o PL terá cerca de R$ 351 milhões. Valdemar não quer problemas, quer seguir em frente.

Não apenas Valdemar da Costa Neto, mas também o Centrão é pragmático. Partidos que apoiaram Flávio no segundo turno iniciam articulação com Lula: União Brasil e PP esperam conversas com o Planalto e o PSD liberou filiados para integrar o governo, enquanto Republicanos tem nomes próximos ao presidente reeleito.

Diplomação

Com a cassação dos vereadores de Belo Horizonte Lucas Ganem, eleito pelo Podemos, agora no MDB, e Leonardo Ângelo (Cidadania), o Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE) concluiu nesta quinta, 29, a retotalização dos votos das eleições municipais de 2024 para a Câmara Municipal de Belo Horizonte (CMBH). Foram diplomados os primeiros suplentes da federação PSDB-Cidadania e do Podemos, respectivamente Rubem de Oliveira Rodrigues, o Rubão, e Reinaldo Oliveira Batista, o Reinaldinho.

Cassações

Lucas Ganem teve o mandato cassado por fraude na declaração de residência para o registro de candidatura em 2024. Leonardo Ângelo foi cassado pela comprovação da prática de abuso de poder econômico, uso de verbas de fonte vedada, caixa dois e corrupção eleitoral: a Justiça Eleitoral identificou uma estrutura paralela da campanha dele, financiada pela chapa majoritária de Mauro Tramonte (Republicanos), então candidato a prefeito de Belo Horizonte.

Área econômica

Ex-presidente da Codemge e da Codemig, o economista Thiago Toscano vai integrar o governo Cleitinho Azevedo a partir de 2027. Toscano, que é presidente da Itaminas, deixará a função para assumir a área econômica, de gestão, de novos negócios e de atrações de investimentos do estado.

MDB, 60 anos

Ao completar 60 anos, o MDB sai das urnas em 2026 com a eleição de um governador, sete senadores, 36 deputados federais e 112 deputados estaduais ou distritais. Se, por um lado, na Câmara dos Deputados o partido perdeu cinco cadeiras em relação ao pleito de 2022, a legenda mantém expressiva presença municipal: em 2024, elegeu 858 prefeitos e 8.051 vereadores, 702 a mais em relação a 2020. A Fundação Ulysses Guimarães promoveu uma semana de reuniões em Brasília para discutir o futuro do partido.

Capilaridade

Gabriel Azevedo, presidente estadual da Fundação Ulysses Guimarães, que foi candidato ao governo de Minas, considerou a estrutura e capilaridade nos municípios a força da legenda. “Foram 858 prefeitos e 8.051 vereadores eleitos em 2024. Houve crescimento em relação a 2020. Mas, ao mesmo tempo, a participação de pessoas com até 35 anos nas candidaturas a vereador caiu de 20,8%, em 2016, para 13,5%, em 2024”, disse. “A presença de jovens nas chapas encolheu em 2024, mas a taxa de sucesso eleitoral proporcional daqueles que disputaram foi de 20,1% superior ao dos demais partidos, de 13,3%”, disse.

Escola

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Para abrir espaço às novas lideranças, Gabriel Azevedo defende a criação de uma escola de formação, que também prepare os quadros para se comunicar com a sociedade no atual cenário da tecnopolítica. “Uma organização que pretende explicar propostas à sociedade precisa cultivar espaços em que elas sejam formuladas, debatidas e revistas. A continuidade depende também dessa capacidade de aprender a ter relevância digital”, afirmou.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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