Bertha Maakaroun
Bertha Maakaroun
Jornalista, pesquisadora e doutora em Ciência Política
EM MINAS

Entre o botão de pânico e a sub-representação na política

As mulheres seguem lutando e cavando espaços de participação e autonomia numa estrutura patriarcal resiliente

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Entre as eleições gerais de 2026 e de 2022, pela primeira vez em duas décadas registra-se a redução do número de candidaturas de 29.262 para 20.912, uma variação negativa de 28,5%. O número de candidaturas femininas caiu 25,6%, de 9.890 candidaturas apresentadas em 2022 para os cargos proporcionais e majoritários em disputa para 7.330 neste pleito. Proporcionalmente, a queda de mulheres concorrendo foi um pouco menor do que a redução de 29,8% das candidaturas masculinas no período, de 19.343 para 13.578. Nos dois pleitos, 32 candidaturas não divulgaram gênero.

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Em 2026, mulheres candidatas a todos os cargos representam 35%; eram 33,8% em 2022. O discreto aumento de 1,2 ponto percentual da fatia de candidaturas femininas no bolo em disputa não reflete, contudo, avanço na qualidade da participação política feminina. Enquanto a presença das candidatas mulheres para cargos proporcionais alcança média de 35%, para cargos majoritários de governos, Senado e Presidência da República as candidaturas de homens representam, nessa ordem, 82,5%; 84,6%; e 78%.

A política segue espaço hostil para as mulheres. O aumento das candidaturas femininas para a Câmara dos Deputados, que em 1994 representavam apenas 6,2%, se registra sobretudo nas eleições legislativas por graça e obra da chamada “cota de gênero”, criada há 30 anos para ampliar a participação feminina na política. Foi apenas a partir de 2009, quando a legislação passou a exigir que as candidaturas femininas efetivamente preenchessem pelo menos 30% das chapas partidárias, que de fato se registra o primeiro grande salto da presença das mulheres nas urnas: entre as eleições gerais de 2006 e de 2010, as candidaturas femininas mais que dobraram, foram de 666 para 1.335. No conjunto das candidaturas para a Câmara dos Deputados, a participação feminina subiu de 12,6% para 22,2%. Foi apenas em 2014 que as candidaturas femininas para a Câmara dos Deputados superaram, pela primeira vez, o percentual de 30%: 2.270 mulheres disputaram o cargo, 31,8% do total de candidaturas.

As mulheres seguem lutando e cavando espaços de participação e autonomia numa estrutura patriarcal resiliente, que segue em guerra cultural contra a conquista feminina de ter o direito de escolha. Na política, o aumento da representação feminina nos parlamentos não se moveu na mesma proporção das candidaturas femininas: em 2022 elegeram-se 91 mulheres – 17,7% de um plenário de 513 cadeiras –, um recorde histórico para a Câmara dos Deputados. Ainda assim, o Brasil segue ocupando a vergonhosa 133ª posição no ranking global da representação parlamentar feminina, segundo dados da União Interparlamentar (UIP), organização global dos parlamentos nacionais, e da ONU Mulheres, organização das Nações Unidas dedicada à igualdade de gênero. O Brasil está abaixo de países como Arábia Saudita (125º), Egito (86º), e Iraque (76º), que têm costumes e legislações mais conservadores em relação às mulheres. Dificuldades de financiamento e um histórico documentado de utilização das mulheres como “laranjas” em chapas proporcionais para alcançar a cota e desviar os recursos para candidaturas masculinas são algumas das humilhações que enfrentam aquelas que escolhem concorrer à representação política.

Num Brasil cada vez mais brutalizado, os últimos dias têm sido de novas violências contra mulheres que disputam as eleições. Estreando na política como candidata a deputada federal, Ana Elisa (PT), 21 anos, estudante de Direito e um fenômeno nas redes sociais – tem 1,8 milhão de seguidores –, recebeu ameaças de morte e de estupro na sexta-feira. Três dias depois foi a vez da deputada estadual Bella Gonçalves (PT) sofrer similar violência. Não foi a primeira vez. Há três anos, Bella Gonçalves e as deputadas estaduais Lohanna França (PV) e Beatriz Cerqueira (PT) foram alvos das mesmas ameaças. Em 2024, o autor, que utilizava fóruns na internet conhecidos como "chans" voltados à incitação à violência, foi preso preventivamente em Olinda (PE) por uma força-tarefa envolvendo a Polícia Civil, a Polícia Militar e o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG). Como o condenado progrediu, em junho passado, para o regime semiaberto com o uso de tornozeleira, Lohanna adotou, desde julho, o chamado botão do pânico, dispositivo de segurança que pode ser acionado quando o agressor se aproximar. Bella não teve oferta do equipamento e Ana Elisa se queixa da insegurança que vive, sem recursos para contratar proteção particular. Do Rio Grande do Norte, a deputada federal Natalia Bonavides (PT) denunciou, no sábado, ter recebido ameaças de esquartejamento e estupro. O mesmo ocorreu com a vereadora de Natal Brisa Bracchi (PT). Em todos os casos, depois de anunciar a intenção de brutalizar e exterminar as parlamentares e candidatas, os maníacos encaminham os dados pessoais e informações sobre familiares, demonstrando ter acesso à rotina e modo de vida das vítimas. Assim seguem as mulheres no Brasil.


Falsos médicos

O Ministério da Saúde identificou 97 perfis que divulgavam informações falsas, incluindo promessas de cura e tratamentos sem comprovação científica. A Advocacia-Geral da União (AGU) cobrou do Google providências contra vídeos no YouTube que usam inteligência artificial em simulação a médicos e outros profissionais de saúde. Em notificação enviada na sexta-feira, 4, a AGU deu prazo de 72 horas para que o YouTube torne indisponíveis os conteúdos especificamente apontados pelo Ministério da Saúde ou, conforme o caso, adote mecanismos de sinalização e contextualização que deixassem clara a natureza artificial dos personagens.

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Rodeio e moto

Um edital de 2022 da Prefeitura de Cruzília, no Sul de Minas, determinava entre as premiações para a "Festa do Peão de Boiadeiro" uma motocicleta Suzuki Yes, ano 2010, vermelha e identificada pela placa NVP-0233. Com essas condições tão específicas, somente uma empresa participou do pregão. Em sessão na terça-feira, 8, o Tribunal de Contas do Estado entendeu que a indicação detalhada do veículo restringiu a competitividade do pregão. Além disso, constatou outras irregularidades como falta de ampla publicidade dos procedimentos licitatórios. O ex-prefeito José Carlos Maciel de Alckmin e a pregoeira da época, Ângela Aparecida Carvalho Santos, foram multados em R$ 10 mil e
R$ 5 mil, respectivamente.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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