Bertha Maakaroun
Bertha Maakaroun
Jornalista, pesquisadora e doutora em Ciência Política
EM MINAS

A notícia é ruim? Matar ou não matar o mensageiro

Ao receber a notícia da Atlas/Bloomberg que já era esperada pelos cientistas sociais e especialistas em análise, a campanha de Flávio Bolsonaro acionou o TSE

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Conta o historiador grego Plutarco (46–120 d.C.), em sua obra “Vidas Paralelas”, que quando o general romano Lúcio Licínio Lúculo (118 a.C.–56 a.C.) marchou em direção à Armênia, o primeiro mensageiro que se apressou a alertar o rei Tigrânis, o Grande, teve a cabeça cortada, como punição por “espalhar o pânico”. Depois disso, ninguém mais ousou informar o rei. Em sua ignorância, Tigrânis só aceitou que a guerra aniquilaria o seu reino quando o cerco romano já estava montado. Foi derrotado na Batalha de Tigranocerta (69 a.C.), na qual possuía vantagem numérica e teria dito ao ver as forças romanas: "Se são embaixadores, são muitos. Se são soldados, são poucos”.

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Séculos antes, o dramaturgo Sófocles, em “Antígona” (441 a.C.) já explorava a clássica metáfora de punição àqueles que transportam a má notícia. O mensageiro que leva ao rei Creonte a notícia de que Antígona o desobedecera e enterrara o corpo de seu irmão, Polinices, recebe o veredito: “Ninguém ama o mensageiro que traz más notícias". São inúmeros os exemplos registrados na história de mensageiros amaldiçoados.

Em “Antônio e Cleópatra” (1606), Shakespeare descreve a reação da rainha do Egito quando o mensageiro viaja de Roma para lhe informar que Marco Antônio havia se casado com Otávia. Cleópatra puxa o mensageiro pelos cabelos e ameaça despejar ouro derretido em sua garganta. Ele respondeu: "I that do bring the news am not the match." (Eu apenas trago a notícia, não fiz a união).

Na primeira pesquisa de intenções de voto para a sucessão presidencial após os áudios do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) encaminhados ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, a Atlas/Bloomberg identificou a análise que esta coluna antecipou neste sábado, 16 de maio: a notícia teria impacto na trajetória de crescimento da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro, principalmente entre eleitores independentes. Flávio segue, mas enfraquecido. E assim foi.

Segundo a Atlas/Bloomberg, o senador perdeu 5,4 pontos percentuais em relação ao levantamento de abril. Enquanto Lula oscilou de 46,6% para 47% das preferências em primeiro turno, Flávio Bolsonaro caiu de 39,7% para 34,3%. Em simulação de segundo turno, o petista, que antes estava em situação de empate técnico, hoje venceria o filho de Jair Bolsonaro por 48,9% a 41,8%.

O pedido de dinheiro de Flávio a Daniel Vorcaro para promover o filme sobre uma passagem da biografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) – estimado em R$ 134 milhões – ativou no fundo da mente do grupo de eleitores, – possivelmente nem lulistas, nem bolsonaristas – memórias não tão positivas dos anos Bolsonaro, até então obliteradas pela promessa de um “Bolsonaro moderado”. O áudio acena com o despertar de uma promessa não cumprida. Algo como um desencanto.

Ao mesmo tempo em que os primeiros dados sugerem, perspectivas de maior limitação no teto de crescimento de Flávio Bolsonaro também demonstram a sua contraface: a solidez do apoio de um nicho de eleitores que segue com Flávio Bolsonaro – seja porque odeiam Lula ou seja porque são adoradores da família – e assimila as narrativas que naturalizam o robusto pedido de recursos ao maior fraudador do sistema bancário da história, com o propósito de promover um filme com ares de peça de campanha. É precisamente essa característica do grupo de eleitores que sustentam Flávio Bolsonaro que mantém a família no controle da direita brasileira.

Ao receber a notícia da Atlas/Bloomberg que já era esperada pelos cientistas sociais e especialistas em análise de cenários, a campanha de Flávio Bolsonaro acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com o pedido de suspensão da divulgação. Os dados, são o mensageiro em questão. Mate-se um; outros virão. A campanha de Flávio Bolsonaro ainda está dando voltas para lidar com o escândalo que se abateu sobre a imagem em construção do senador.

Agora já se sabe que Flávio Bolsonaro, que em princípio negou qualquer relacionamento com Daniel Vorcaro, também esteve com ele em novembro do ano passado, logo após o ex-banqueiro passar a utilizar tornozeleira eletrônica. Novos áudios divulgados também apresentam o deputado Mário Frias (PL-SP) agradecendo a Daniel Vorcaro pelo apoio financeiro ao filme, segundo ele, destinado a “mexer com o coração de muita gente”. E para “sensibilizar” as lideranças do PL, Flávio Bolsonaro apresentou-lhes nesta terça-feira o trailer, acenando com a promessa que chegará ao eleitorado brasileiro para reafirmar amores e até mesmo converter os mais céticos. Façam as suas apostas.

Bola que rola

O ex-ministro dos Direitos Humanos, Nilmário Miranda (PT) considera que a decisão do senador Rodrigo Pacheco (PSB) de não concorrer ao governo de Minas só será definitiva após o encontro com o presidente Lula (PT) e o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB). “O jogo ainda não foi jogado”, diz ele. Só após essa definição, Lula irá considerar outros caminhos, acredita Nilmário. Para ele, estão postas duas possibilidades principais: o apoio ao ex-prefeito Alexandre Kalil (PDT) ou a candidatura do empresário Josué Gomes da Silva (PSB), filho do ex-vice-presidente José Alencar Gomes da Silva.

Mais um

No âmbito do PT e dos partidos federados, em particular o PV, está colocado um terceiro caminho. João Batista Mares Guia, quadro histórico do PT que se filiou novamente a convite de Lula defende, na ausência de Pacheco, uma aliança com Gabriel Azevedo (MDB), ex-presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte. Na mesma direção, o presidente estadual do PV, Osvander Valadão e a deputada estadual Lohanna (PV) sustentaram o apoio a Gabriel Azevedo, diante da notícia de que o senador não pretende concorrer.

Sem consenso

A presidente da Federação PT-PV-PcdoB e vice-presidente da Assembleia, Leninha (PT), afirma que o partido espera em Minas uma posição de Lula, a quem caberá a palavra final dos possíveis caminhos da legenda na sucessão mineira. Leninha informa que está conversando com todos os pré-candidatos e que nesta quarta-feira, 20, em Brasília, haverá uma reunião entre deputados federais e lideranças da legenda que estarão na capital para a posse de Odair Cunha no Tribunal de Contas da União (TCU).

Veto

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), quer convocar uma sessão conjunta do Congresso Nacional para esta quinta-feira, 21 de maio, para analisar os vetos parciais do Executivo à Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2026. Os dispositivos vetados impedem que municípios inadimplentes de até 65 mil habitantes firmem convênios e recebam recursos federais. Ao justificar a decisão, Lula apontou inconstitucionalidade e “contrariedade ao interesse público”.

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Na China

O presidente da Câmara Municipal, vereador Juliano Lopes (Podemos), estará até o dia 26 na China. O objetivo é, segundo ele, conhecer o modelo de apoio a motoristas de aplicativo adotado no país asiático, além da instalação de pontos de descanso e banheiros para os prestadores do serviço. Além de Beijing, vai visitar Shanghai.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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