Da conquista das estrelas à velha Pérsia
De tempos em tempos, a civilização ocidental flerta com surtos expansionistas. Com o contemporâneo advento do feudalismo digital, os senhores tecnofeudais estão
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Após as revoluções de 1848 que assombraram a Europa, as potências – especialmente França e Inglaterra – foram muito além de simplesmente se lançar em diversas aventuras coloniais pela África e Ásia. Cecil Rhodes, um “empresário” – leia-se colonizador e escravocrata –, foi a maior expressão do período: batizou um país com um derivado de seu nome, a Rodésia do Sul.
Rhodes era tão entusiasta da colonização que certo dia, ao mirar o cosmos na beleza de seus infinitos planetas, refletiu melancólico: “Entristece-me vê-los tão claramente e ao mesmo tempo tão distantes (...) Eu os anexaria se pudesse”.
Rhodes era filho de pai militar e religioso. Exatamente como certas personagens religiosas que atualmente circulam com desenvoltura pela política: em nome de Deus tudo fazem, menos aquilo que as suas religiões pregam. Na França, quem se destacou foi um imperador de sobrenome e pedigree: Napoleão III era sobrinho e herdeiro de Napoleão Bonaparte.
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Com ele, o Segundo Império francês dobrou a sua área territorial: ganhou a Savoia e Nice, expandiu-se na Indochina, estabeleceu-se no Camboja, consolidou-se na Argélia e Senegal, além de ter iniciado a conquista de Madagascar. Quis incorporar até o México, mas não conseguiu.
De tempos em tempos, a civilização ocidental flerta com surtos expansionistas. Com o contemporâneo advento do feudalismo digital, os senhores tecnofeudais estão certos de que não existem barreiras aos seus desejos. Alimentam e proliferam uma alcateia de predadores na esfera pública digital.
Assistimos àquilo que Yanis Varoufakis denuncia pela ação das Big Techs como possibilidades infinitas de conquista de um novo “Oeste digital”, à semelhança do “velho oeste norte-americano”. Desta vez, os indígenas somos todos nós. Quando as donas de bigtechs como BlackRocks, Vanguard e Fidelitys contratam os seus políticos de ocasião e quando impulsionam as suas eleições para cargos no topo do poder, a temporada de caça se explicita.
Com os seus algoritmos, as bigtechs disseminam as suas verdades parciais, mirando a cooptação de corações e mentes predispostos a certas “escolhas” eleitorais. Alguns “pensadores” tecnológicos que servem aos senhores tecnofeudais têm inclusive considerado um tanto antiquada essa forma de escolha chamada “democracia”. Pleiteiam a construção de novas formas de governar, como monarquias digitais ou repúblicas tecnológicas. Eis a questão.
O mundo assiste, desde sábado, 28 de fevereiro, a mais um capítulo de um novo momento, em sistemática repetição. Depois dos horrores de Gaza, a humanidade se prepara para assistir à conquista da terra persa. Essa civilização de mais de 5 mil anos é a presa da vez. Não é a primeira tentativa. Em 1953 os americanos e britânicos derrubaram uma democracia – a Operação Ajax, orquestrada pela CIA (EUA) e pelo MI6 (Reino Unido) – que tinha tomado o petróleo das mãos do Reino Unido para entregar ao seu próprio povo. Agora tentam insuflar uma nova Revolução Colorida. Não tem dado certo.
Os motivos da nova guerra contra o Irã não estão bem claros. Ora dizem que é para levar a democracia de volta; ora se preocupam com a liberdade das mulheres iranianas; ora alegam que se trata de deter as ameaças terroristas. Etc., etc. Donald Trump e Marco Rubio nem disfarçam mais. O motivo pouco importa. Todo mundo sabe por que querem aquelas terras tão cobiçadas desde Alexandre, o Grande.
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Show de horrores
Esta guerra, contudo, começou impopular no seio dos seres humanos da América do Norte, que ainda insistem em pensar. Trump se deu ao luxo de iniciá-la sem nem sequer uma consulta ao Congresso. Os parlamentares tampouco parecem se importar. E pior: mataram naquelas terras iranianas o equivalente ao Papa da Igreja Católica Apostólica Romana.
Acharam que dessa forma o governo ficaria acuado, como aconteceu com a pobre Venezuela. Também pensaram que a “vítima” da vez estaria despreparada, quase desarmada, além de isolada. Quem já esteve no Irã sabe que os iranianos são extremamente gentis, se vai visitá-los em paz. Em guerra é desaconselhável.
O show de horrores se iniciou com o assassinato em massa de 180 garotinhas de uma escola primária, ao estilo da dupla Israel e EUA, algo batizado de choque e terror. Assim iniciaram a “libertação das mulheres” naquelas terras. Levaram dois porta-aviões para a zona de guerra. Um apresentou problemas de vasos sanitários e encanamento de esgoto. O outro, quando se lembrarem que porta-aviões nas guerras modernas são alvos fáceis, foi recuado para posições defensivas.
Esqueceram também que o povo atacado enfrentou em condições igualmente adversas em uma guerra de oito anos, sem ceder um milímetro de sua terra, contra um vizinho que hoje provavelmente será seu aliado, o Iraque. Porta-vozes e analistas do lado do Irã afirmam que o país se prepara há 25 anos para esta guerra. Tem em sua retaguarda a China, o maior PIB, considerando a paridade de poder de compra do mundo. Tem ao seu lado uma potência nuclear, a Rússia, com mísseis que voam a velocidades hipersônicas.
A China construiu e modernizou recentemente, em junho de 2025, uma ferrovia que liga a cidade de Xian ao porto seco de Aprin, no Irã, vizinho a Teerã. Já nos primeiros quatro dias de guerra, os guerreiros de Trump e Netanyahu ficaram assustados. Os mísseis iranianos furaram o já desmoralizado “escudo de ferro” de proteção a Israel.
Entretanto, esse nem foi o prejuízo maior. As bases norte-americanas dos protetorados árabes da Arabia Saudita, do Catar, da Jordânia, do Iraque, dos Emirados Árabes Unidos e, ainda, a base da Quinta Frota Norte Americana, no Bahrein, foram duramente atingidas. Agora, para se reabastecer, se quiserem continuar em combate, os navios norte-americanos terão de se deslocar três dias. Por ter perdido as suas bases na região do conflito, Trump correu atrás do ministro britânico, que depois de dizer não, passou pelo constrangimento de dizer sim. Do espanhol ouviu um sonoro não e passou recibo ameaçando cortar toda relação comercial com a Espanha. De toda sorte, a base inglesa mais próxima, Chipre, está sob alcance dos mísseis iranianos.
Os países atacados pelo Irã integram o Conselho de Cooperação do Golfo, uma superprocessadora de dinheiro, que é a base daquilo que a humanidade chama ainda de petrodólares. São grandes investidores mundiais que mantêm megaempresas e o lastro da moeda americana rodando. Dubai, essa Meca financeira, teve seu aeroporto, talvez o maior do mundo, atingido. Os hipermilionários estavam pagando até US$ 1 milhão por um jatinho para escapar da guerra e de sua “Meca” preferida. O desastroso início da guerra se completa quando o Irã fechou o Estreito de Ormuz.
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Guerras sempre podem mudar de curso, mas certas batalhas tornam-se decisivas para mudar a história. Napoleão III era um conquistador inigualável, até aquele dia em setembro de 1870, quando se encontrou com Helmuth von Moltke, numa localidade chamada Sedan, na França. Napoleão saiu dali preso em 2 setembro e nunca mais retornou à França. Dias depois nascia um novo Império Alemão, justamente dentro de Versalhes. Imperadores como aqueles nem existem mais, mas candidatos sim. Por sorte, os chefes de Estado nem acompanham seus exércitos mais. Quanto a Rhodes, morreu de coração, mas não conquistou as estrelas.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
