Dizem que na Primeira República coronéis velhacos costumavam ensinar aos seus interlocutores: “Para saber o que o político pensa, pergunte à mulher dele”. Uma das possíveis interpretações para a tirada deixava subentendida certa percepção misógina, corrente à época, da incapacidade da mulher de medir palavras. Lá se vai mais de século. Na era da tecnopolítica, algo que se passe entre quatro paredes só não se torna de domínio público instantaneamente se todos os presentes decidirem pelo silêncio.
Coisa rara. Se forem três, “só matando dois”, diria o ditado popular. Não bastassem câmeras, relógios, óculos entre outros equipamentos indiscretos ao estilo “pega traição”, que entregam às mídias digitais o dito e até o “apenas imaginado” na vida privada, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) “inovou”: esqueceu um delicado rascunho manuscrito na sala em que se deu reunião de cúpula do PL na terça, 24/2. A Folha de S. Paulo teve acesso às anotações, que dispensam perguntas a terceiros: ali está o mapa do que pensa o clã Bolsonaro sobre as sucessões estaduais de São Paulo e de Minas Gerais.
Se, em São Paulo, talvez Flávio Bolsonaro prefira ver na chapa de Tarcísio de Freitas (Republicanos) o presidente da Assembleia, André do Prado (PL) em substituição ao vice-governador Felício Ramuth (PSD) – a quem ele identifica com um cifrão ($) –, em Minas Gerais, os movimentos do PL tendem a ser mais complexos. De um lado, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL) trabalha para levar o partido a uma coligação em apoio ao vice-governador Mateus Simões (PSD). Do outro lado, estão os bolsonaristas que se dizem “leais” ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e dão sustentação à candidatura do senador Cleitinho (Republicanos).
O racha no PL mineiro é reflexo e se desdobra da divisão nacional pelo protagonismo do campo bolsonarista: Nikolas Ferreira e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que em princípio era cotada para ser vice na chapa de Tarcísio de Freitas, estão em rota de colisão com os filhos Eduardo e Carlos Bolsonaro. O embate interno é, em certa medida, mediado por Flávio Bolsonaro e Valdemar Costa Neto.
Sobre Mateus Simões, Flávio rabiscou: “Me puxa para baixo”. E acrescentou: “Se for candidato”. Flávio Bolsonaro também considerou na lista de candidatos ao governo de Minas o presidente da Fiemg, Flávio Roscoe, pelo PL; o senador Cleitinho (Republicanos) e o senador Rodrigo Pacheco (atualmente no PSD), sobre quem registrou que nessa hipótese teria o apoio do presidente Lula.
Esse rascunho é coerente com a movimentação política desta semana no campo bolsonarista em Minas. Em entrevista a Allan dos Santos, Cleitinho anunciou que irá concorrer ao governo de Minas: “Eu vou ser candidato do mesmo jeito (com ou sem o apoio da ‘direita') e vou apoiar Flávio Bolsonaro, porque tenho lado”. O senador criticou a narrativa de “união” do campo da “direita”, assinalando que na prática, o vice-governador Mateus Simões o desqualifica e não considera apoiá-lo, apesar de ser ele, Cleitinho, quem lidera as pesquisas de intenção de voto. Ato contínuo, os deputados estaduais que se intitulam bolsonaristas autênticos – Cristiano Caporezzo (PL) e Sargento Rodrigues (PL) – postaram vídeos apoiando Cleitinho.
Se no campo lulista sobram indefinições, no campo bolsonarista, os jogadores se posicionam. Uma provável composição é a chapa encabeçada por Cleitinho com Flávio Roscoe de vice. Também filiado ao Republicanos, o prefeito de Patos de Minas e presidente da Associação Mineira dos Municípios (AMM), Luiz Eduardo Falcão, é outro nome considerado.
Nikolas Ferreira e Flávio Bolsonaro se programaram para encerrar a quarta-feira com uma “DR”. Essa será uma cena que tende a se repetir para além de 2026. Em ano eleitoral, a disputa pelo protagonismo no campo bolsonarista tende a ser abafada: Nikolas não pode perder o selo do eleitor “bolsonarista raiz”, nem Flávio Bolsonaro pode se dar ao luxo de dispensar o apoio de Nikolas. Tudo tem o seu tempo, inclusive para o fogo amigo. Diria o sociólogo alemão Georg Simmel: o que mantém adversários-aliados unidos não é a convergência de ideais, mas a consciência de que a destruição do outro implicaria a ruína de si mesmo.
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Com Paulo Gonet
Diante da tragédia que se abateu sobre a Zona da Mata, em particular Juiz de Fora, Ubá e Matias Barbosa, a deputada federal Dandara Tonantzin (PT) acionou nessa quarta-feira a Procuradoria-Geral da República para investigar responsabilidade criminal do governador Romeu Zema (Novo) por cortes de até 96% em investimentos para prevenir e combater danos causados pelas chuvas. O governo Zema reduziu de R$ 135 milhões para R$ 6 milhões a aplicação da verba de prevenção contra impacto das chuvas. “Acionei a PGR porque essa redução de recursos, que ignorou o risco climático e vitimou pessoas, constitui uma omissão administrativa criminosa”, afirma Dandara.
No Republicanos
Luiz Eduardo Falcão, prefeito de Patos de Minas e presidente da Associação Mineira dos Municípios (AMM), se filiou ao Republicanos em acordo fechado com o presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, e o senador Cleitinho (Republicanos). Na remota hipótese de Cleitinho não concorrer ao governo de Minas, Falcão poderá ser o candidato da legenda. A deputada estadual Lud Falcão, hoje no Podemos, deverá se filiar ao Republicanos na janela partidária. Estuda concorrer para a Câmara dos Deputados.
Vaga no TCE
Os deputados estaduais Cássio Soares (PSD), Noraldino Júnior (PSB), João Magalhães (MDB), Ulysses Gomes (PT) e Bruno Engler (PL) integram a comissão especial da Assembleia para emitir parecer sobre a candidatura do deputado Tadeu Leite (MDB) ao cargo de conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG). A primeira reunião do grupo será nesta quinta-feira (26).
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Caçada
O ex-deputado federal Eduardo Cunha segue em busca de uma legenda para tentar concorrer à Câmara dos Deputados por Minas Gerais. O Avante foi a mais recente iniciativa frustrada. O presidente nacional da legenda, Luís Tibé, já está com as chapas formadas. A filiação poderia levar a debandada de candidatos. Além do Avante, Cunha tentou se filiar ao PL, mas foi barrado por Nikolas Ferreira. Tentou ainda no Podemos, PP e MDB.
