Do scarpin à carga mental: o que 15 anos fizeram com a maternidade
A mãe de hoje quer dividir a responsabilidade de forma que sua carreira seja uma parte integrada de sua identidade
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Abri uma cápsula do tempo e fui ler textos que escrevi em 2011, logo que fundei a comunidade Padecendo no Paraíso. Naqueles primeiros posts, quando éramos mães de bebês, tínhamos uma imagem romântica de maternar e precisávamos ficar justificando nossas escolhas. Lembro-me bem da época em que eu precisa ficar explicando os motivos de o meu filho ter ido para o berçário aos quatro meses de vida:
“Quando as pessoas ficavam sabendo que o filho que ainda estava na minha barriga já estava matriculado na escola, ficavam chocadas. Preferi fazer assim. Tinha muito pânico de deixá-lo em casa com alguém, sem receber estímulos. Eu não queria parar de trabalhar, nem diminuir muito o ritmo de trabalho, gosto demais do que eu faço, sempre odiei me imaginar no papel de dona de casa e mãe. Tive boas referências da escola, que fica entre o meu escritório e o trabalho do meu marido - isso significa meio quarteirão aqui do escritório e um quarteirão da empresa. Eu ia poder passar lá em horários variados para ver como as coisas estavam indo, ia poder continuar amamentando a cada duas ou três horas.”
Entrar no grupo do Facebook é como olhar para alguém que eu não reconheço mais. Naquele momento, eu precisava construir argumentos de defesa para justificar uma escolha que, na verdade, era um direito básico: o de continuar sendo uma pessoa além da mãe.
Precisava provar que meu filho não apenas "sobrevivia" à creche, mas que estava performando melhor do que os outros por causa dela. Em 2011, o sucesso materno ainda era medido por marcos de desenvolvimento e pela capacidade da mulher de conciliar o scarpin com a amamentação sem que a máscara de eficiência caísse.
Quinze anos depois, o cenário de 2026 nos mostra que a romantização da maternidade não apenas rachou, mas está sendo desfeita por uma geração de mães que se recusa a carregar toda a responsabilidade sozinha. A "escolinha" hoje é entendida como uma necessidade para a nossa sobrevivência. Saímos da era em que colocar o filho no berçário era uma opção "moderninha" para o reconhecimento de que a maternidade isolada é um projeto fadado ao esgotamento.
O julgamento alheio mudou de endereço. Se em 2011 o olhar torto era para a mãe que trabalhava, hoje a pressão recai sobre o sistema que não oferece licenças parentais dignas ou flexibilidade real.
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A discussão sobre a carga mental transformou a dinâmica familiar. O que era um bônus de um pai gentil em 2011 tornou-se a exigência básica por uma coparentalidade real em 2026. A mãe de hoje quer dividir a responsabilidade de forma que sua carreira seja uma parte integrada de sua identidade, que não exige pedidos de desculpas.
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O amor não mudou, mas estamos muito mais conscientes de que não precisamos tentar ser invencíveis, pois somos humanas tentando fazer o nosso melhor em um mundo que nos cobra demais. A escola continua sendo a nossa melhor aliada, mas não porque ela faz a criança andar mais rápido, e sim porque ela permite que a mãe respire, produza e, finalmente, possa olhar para o filho sem a culpa que tanto assombrava as mulheres da década passada.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
