O que é suficiente para você?
Uma ambição saudável nos impulsiona. O estado permanente de insuficiência e comparação nos aprisiona
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Ao ler "Plantão infinito", texto do infectologista Carlos Starling, com quem compartilho as páginas do caderno Bem Viver, neste jornal, fiquei pensando que a reflexão proposta por ele ultrapassa os limites da medicina. Embora descreva a experiência de ser procurado por pacientes durante seus momentos de descanso, a sensação de estar permanentemente de plantão parece ter se tornado uma realidade compartilhada por profissionais das mais diversas áreas.
Quantas pessoas carregam hoje a impressão de que precisam estar sempre disponíveis?
Vivemos com a culpa constante por não responder imediatamente a uma mensagem recebida à noite, durante um almoço em família ou em um final de semana, como se o descanso fosse interpretado como falta de comprometimento.
- O que realmente esperamos do amor?
- Você sabe muito. E mesmo assim não sai do lugar?
- Como você reage a imprevistos?
O que antes era exceção transformou-se em expectativa. A tecnologia aproximou pessoas e encurtou distâncias, mas também dissolveu fronteiras. O expediente termina, as notificações continuam, e pouco a pouco nos acostumamos a viver em um estado permanente de prontidão.
Essa leitura me fez lembrar de um trecho inquietante de Morgan Housel, no livro “A psicologia financeira”: "Eu tenho algo que ele nunca terá: o suficiente". Uma das maiores dificuldades da atualidade é justamente responder a essa pergunta. O que é suficiente quando pensamos em dinheiro, reconhecimento, tempo, presença, conquistas ou trabalho? Afinal, existe um ponto em que o "mais" deixa de significar "melhor"?
Vivemos em uma época que nos incentiva constantemente a acelerar, produzir e competir. Não há nada de errado em desejar crescer, realizar sonhos e construir projetos. O problema surge quando a linha de chegada se desloca continuamente. Alcançamos uma meta e imediatamente surge outra. Realizamos um objetivo e, antes mesmo de desfrutá-lo, já estamos preocupados com o próximo.
No livro “O jeito Harvard de ser feliz”, Shawn Achor chama a atenção para esse fenômeno. Acreditamos que seremos felizes quando alcançarmos determinado sucesso, mas, ao chegar lá, o cérebro se adapta rapidamente às conquistas e a felicidade é novamente adiada. Passamos, então, a viver em um estado permanente de insuficiência. Não importa o quanto tenhamos, sempre parece faltar alguma coisa.
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Essa lógica da busca incessante por desempenho aparece de maneira clara no documentário “Take your pills”, da Netflix. Ao abordar o uso de estimulantes por estudantes e profissionais, a obra revela uma sociedade fascinada pela produtividade, em que parar é visto como fracasso e descansar é interpretado como perda. É a armadilha de acreditar que a nossa existência precisa ser permanentemente justificada pela capacidade de produzir.
Existe uma diferença entre crescimento e acumulação. Crescer é aprender, desenvolver habilidades, construir relações, amadurecer e realizar sonhos. Acumular, por sua vez, pode se transformar em uma corrida sem linha de chegada. Uma ambição saudável nos impulsiona. O estado permanente de insuficiência e comparação nos aprisiona.
Foi por isso que a reflexão de Carlos Starling me tocou tanto. Ele propõe um novo indicador de sucesso, extremamente desafiador para os dias atuais: chegar inteiro. Chegar inteiro ao final do dia, às relações, de uma carreira e à própria vida.
Em uma cultura que nos ensina a buscar sempre mais, a pergunta mais importante deixa de ser como conseguir mais, mas a que preço. Vale a pena sacrificar a saúde, abrir mão da presença dos que amamos, perder o sono e viver permanentemente cansado? Vale a qualquer custo?
Não existem respostas prontas. O que é suficiente para uma pessoa pode não ser para outra. Reconhecer o suficiente não significa desistir dos sonhos ou abrir mão do crescimento. Significa compreender que algumas conquistas não podem ser medidas em números e aceitar que a vida não é uma competição infinita.
No fim das contas, o verdadeiro sucesso não está apenas em chegar mais longe. Está em preservar a saúde, os vínculos, a alegria, a capacidade de se encantar e a liberdade de escolher. Há uma riqueza que não cabe em planilhas, currículos ou indicadores de desempenho.
Em uma época que nos incentiva a produzir mais, acumular mais e desejar mais, corremos o risco de passar a vida inteira perseguindo o próximo objetivo, sem jamais nos permitir reconhecer aquilo que já temos e aquilo que realmente importa.
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Entre tantas metas, comparações e expectativas, a pergunta real que permanece para cada um de nós é: sabemos reconhecer quando a vida já está nos oferecendo o suficiente?
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
