Problemas urinários em crianças: como reconhecer os sintomas?
Pesquisa revela dificuldade das famílias em identificar alterações além da incontinência; outros estudos investigam constipação, noctúria e microbiota urinária
compartilhe
Perder urina involuntariamente, precisar ir ao banheiro repetidamente durante o dia, sentir urgência para urinar ou acordar várias vezes durante a noite para esvaziar a bexiga são manifestações que podem interferir no sono, na rotina escolar e na qualidade de vida de crianças e adolescentes. Apesar disso, esses sinais nem sempre são reconhecidos pelas famílias como possíveis problemas de saúde.
Fique por dentro das notícias que importam para você!
Em estudo brasileiro com 401 adolescentes de 5 a 17 anos, 48,4% apresentavam pelo menos um sintoma do trato urinário inferior, mas apenas 16,5% dos responsáveis pelas crianças sintomáticas reconheciam essas manifestações como um possível problema de saúde. Além disso, entre as crianças sintomáticas, 13% delas foram levadas ao atendimento médico.
Os resultados estão sendo apresentados no Congresso Anual da International Children’s Continence Society (ICCS) 2026, que termina amanhã (7/11) em Toronto, no Canadá. O evento, realizado em parceria com o The Hospital for Sick Children (SickKids), será presidido pelo uropediatra Ubirajara Barroso Jr., professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública.
Ao todo, o especialista apresentará quatro estudos com participação de pesquisadores brasileiros. Três pesquisas utilizaram o mesmo grupo de 401 crianças e adolescentes e investigaram a percepção dos responsáveis sobre os sintomas urinários, a constipação funcional e a noctúria (necessidade de acordar uma ou mais vezes à noite para urinar). O quarto trabalho avaliou a microbiota urinária em 23 participantes, comparando crianças com disfunção do trato urinário inferior com outras sem sintomas.
Para Ubirajara, a identificação precoce dos sintomas urinários é fundamental para busca por tratamento e melhora do cuidado urológico na infância. “Um dos grandes desafios da urologia pediátrica é reconhecer precocemente os sintomas que podem comprometer a qualidade de vida das crianças e, em determinadas condições, colocar em risco a função renal. Muitas manifestações urinárias acabam sendo naturalizadas pelas famílias, o que pode atrasar a procura por atendimento”, afirma.
Apenas incontinência urinária é reconhecida como alteração pelos pais
Os sintomas do trato urinário inferior podem aparecer de diferentes maneiras. Um dos mais conhecidos é a incontinência urinária, caracterizada pela perda involuntária de urina. Ela pode ocorrer durante o dia, quando a criança molha a roupa antes de conseguir chegar ao banheiro, ou durante a noite, enquanto dorme. Dependendo da frequência e do contexto, esses episódios podem causar constrangimento, insegurança e dificuldades de convivência social.
Outra manifestação é a urgência urinária, caracterizada por uma vontade súbita e intensa de urinar, difícil de adiar. A criança pode interromper brincadeiras, atividades escolares ou outras tarefas para correr ao banheiro, por receio de não conseguir segurar a urina. Em alguns casos, a urgência pode estar associada a episódios de perda involuntária.
Já a polaciúria corresponde ao aumento da frequência das micções durante o dia. A criança passa a ir ao banheiro muitas vezes, às vezes eliminando pequenas quantidades de urina em cada ida. “Esse comportamento pode ser confundido com hábito, ansiedade ou distração, mas, quando persistente, merece avaliação para identificar possíveis causas”, avalia Ubirajara.
Também podem ocorrer alterações no esvaziamento da bexiga, como dificuldade para iniciar a micção, necessidade de fazer força para urinar, jato urinário fraco ou interrompido e sensação de que a bexiga não foi completamente esvaziada. Outra manifestação importante é a noctúria, que ocorre quando a criança acorda durante a noite para urinar. “Quando os episódios de noctúria são frequentes, o sono pode ficar fragmentado, provocando cansaço e dificuldade de concentração no dia seguinte”, esclarece o urologista.
“A presença isolada de um desses sinais não significa necessariamente que exista uma doença. A frequência, a duração, a intensidade e o impacto na rotina, assim como a presença de dor, febre ou outras alterações, ajudam o profissional de saúde a avaliar a situação. A persistência dos sintomas exige avaliação médica”, complementa o médico.
Intitulado "A influência de fatores socioeconômicos na percepção dos pais sobre os sintomas urinários em crianças e adolescentes", o estudo identificou que manifestações mais visíveis, como a incontinência urinária, eram reconhecidas com maior frequência, enquanto sintomas menos evidentes (noctúria, polaciúria, dificuldade de esvaziamento e urgência urinária) tendiam a ser considerados normais.
Leia Mais
“Os resultados mostram que apresentar um sintoma e reconhecê-lo como um problema de saúde são coisas diferentes. Precisamos ampliar a conscientização das famílias e incentivar a avaliação médica quando a criança apresenta alterações urinárias, evitando que esses sinais sejam considerados parte normal do desenvolvimento”, destaca.
Além de Ubirajara, participaram do estudo os especialistas Leticia Freire de Carvalho Mattos, Eliane Rathsam Pinheiro de Carvalho, Esther Araújo de Godoy, Letícia Rollemberg Seixas, Tiago Silva Almeida e Guilherme Maia de Queiroz.
Constipação: apenas 1 em cada 4 procura atendimento
O segundo estudo avaliou a prevalência da constipação funcional e sua relação com fatores socioeconômicos, percepção dos responsáveis e busca por atendimento. No mesmo grupo de 401 participantes, a prevalência de constipação foi de 16,2%. Além disso, 27,7% apresentavam fezes ressecadas.
A constipação funcional vai além de evacuar com pouca frequência. Pode envolver fezes endurecidas ou volumosas, evacuações dolorosas, esforço excessivo para evacuar e dificuldade para eliminar as fezes. Algumas crianças passam a evitar ir ao banheiro por medo da dor, o que favorece a retenção das fezes e pode agravar o desconforto.
Quando as fezes permanecem acumuladas no intestino, também podem ocorrer episódios de incontinência fecal, caracterizados pela saída involuntária de fezes na roupa. “Essa manifestação pode ser confundida com um comportamento intencional, quando, na realidade, pode estar associada à constipação. O problema pode gerar constrangimento, isolamento e dificuldades na escola, além de aumentar a preocupação das famílias”, explica o uropediatra que também é presidente da ICCS.
A pesquisa identificou associação entre constipação e menor escolaridade dos cuidadores. As crianças com a condição também apresentaram maior comprometimento da rotina familiar e mais constrangimento, especialmente aquelas com episódios semanais de incontinência fecal. Apenas 24,6% dos participantes com constipação procuraram atendimento médico.
O trabalho, intitulado "Influência de fatores socioeconômicos na percepção, no manejo e na prevalência da constipação funcional em crianças e adolescentes", reforça a importância de reconhecer a condição precocemente e considerar seus impactos na vida cotidiana.
São autores da pesquisa: Ubirajara Barroso Jr., Leticia Rollemberg Seixas, Eliane Rathsam Pinheiro de Oliveira, Leticia Freire de Carvalho Mattos, Esther Araújo de Godoy, Tiago Silva Almeida, Guilherme Maia de Queiroz, Isabela Alvin Barroso, Glícia Estevam de Abreu e Maria Luiza Veiga da Fonseca.
Noctúria afeta mais de 1 em cada 5 crianças com sintomas urinários
O terceiro estudo analisou a prevalência da noctúria (acordar à noite para urinar) em crianças e adolescentes com sintomas do trato urinário inferior não neurogênicos, utilizando o mesmo grupo.
Entre os 401 pacientes avaliados, 22,2% apresentavam noctúria. Já a noctúria clinicamente significativa, definida no estudo como acordar pelo menos duas vezes por noite para urinar, foi identificada em 11,8% dos pacientes com dados disponíveis sobre a frequência urinária noturna.
Os pesquisadores também encontraram associação da polaciúria, caracterizada pelo aumento da frequência das micções, à noctúria clinicamente significativa.
O trabalho, intitulado "Prevalência e fatores associados à noctúria em crianças e adolescentes com sintomas do trato urinário inferior não neurogênicos", destaca a importância de investigar os hábitos urinários noturnos durante a avaliação urológica pediátrica.
“Os sintomas urinários na infância precisam ser avaliados de forma abrangente. Alterações aparentemente simples, como acordar repetidamente para urinar ou apresentar dificuldades miccionais, merecem atenção clínica. Estudos como esses ajudam a ampliar o conhecimento sobre essas manifestações e a identificar questões que precisam ser investigadas com mais profundidade”, afirma o especialista.
Além de Ubirajara, os autores deste estudo são Isabela Alvim Barroso e Felipe de Almeida Osterne.
Microbiota urinária pode levar a novas descobertas
O quarto estudo investigou a composição dos microrganismos presentes na urina e sua possível relação com as disfunções miccionais. Intitulado Comparação da microbiota urinária entre crianças com disfunção do trato urinário inferior e controles assintomáticos, o trabalho comparou 23 participantes: 11 com disfunção do trato urinário inferior e 12 sem sintomas.
A microbiota urinária corresponde ao conjunto de microrganismos presentes no trato urinário. Os pesquisadores investigaram se a composição dessa comunidade microbiana poderia apresentar diferenças entre crianças com disfunções urinárias e participantes sem sintomas. Embora não tenham identificado diferenças estatisticamente significativas na diversidade global da microbiota entre os grupos, observaram diferenças na composição dos microrganismos predominantes.
Os resultados levantam a hipótese de que a relação entre a microbiota urinária e as disfunções miccionais possa envolver diferenças qualitativas na composição microbiana, e não necessariamente na diversidade geral. Por se tratar de um estudo-piloto, com amostra reduzida, os resultados são preliminares e precisam ser confirmados em pesquisas maiores. Portanto, ainda não é possível estabelecer uma relação de causa e efeito entre a composição da microbiota e as alterações urinárias.
São autores do estudo: Ubirajara Barroso Jr., Tiago Silva Almeida, Katia Ramos Leite, Glicia de Abreu Tourinho, Flavio Canela Canavez, Juliana Canavez, João Paulo da Luz Silva, Taynna Costa, Isabela Alvim Barroso, Leticia Mattos, Esther Godoy, Leticia Seixas, Eliane Carvalho, Ana Aparecida Martinelli e Maria Luiza Veiga.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia