Corporoplastia preserva a sensibilidade genital em meninas intersexo
Cirurgia de reconstrução genital para hiperplasia adrenal congênita, condição rara que aumenta o tamanho do clitóris, é menos invasiva e mantém função sensorial
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Uma técnica cirúrgica menos invasiva para tratar alterações no desenvolvimento genital de meninas pode preservar a sensibilidade do clitóris e apresentar bons resultados estéticos e psicossociais. É o que aponta um estudo multicêntrico, publicado no Journal of Pediatric Urology.
Conduzido por pesquisadores brasileiros, o trabalho avaliou pacientes com hiperplasia adrenal congênita submetidas à corporoplastia — uma abordagem que evita a dissecção do feixe neurovascular clitoriano.
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Na hiperplasia adrenal congênita, há baixa produção de cortisol e aldosterona e produção excessiva de andrógenos (hormônios masculinos). Esse excesso de hormônios masculinos pode causar hipervirilização da genitália, fazendo com que o clitóris apresente aumento de tamanho e muitas vezes, aparência semelhante à de um pênis. A doença afeta uma a cada 10 ou 20 mil nascimentos.
“As pacientes foram submetidas à genitoplastia feminizante utilizando nossa técnica de corporoplastia. Além disso, também foi realizada a vaginoplastia, já que a vagina, nesses casos, costuma nascer profundamente no períneo e precisa ser exteriorizada. O objetivo da cirurgia é criar um clitóris anatomicamente normal, preservando a sensibilidade, além de possibilitar uma vagina funcional”, explica o autor do estudo, o urologista especialista em reconstrução genital Ubirajara Barroso Jr., professor da Universidade Federal da Bahia.
O estudo
A pesquisa analisou 37 pacientes com hiperplasia adrenal congênita. As participantes foram submetidas à cirurgia entre 2014 e 2025 e acompanhadas por pelo menos seis meses após o procedimento.
Os resultados mostram preservação da sensibilidade genital em todas as regiões avaliadas, incluindo o clitóris. Além disso, a maioria das pacientes apresentou resposta a estímulos sensoriais muito leves, indicando manutenção da função tátil.
Para avaliar a sensibilidade, os pesquisadores utilizaram um estesiômetro, instrumento que utiliza microfilamentos para medir a resposta sensorial da região operada.
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“O teste demonstrou uma sensibilidade extremamente satisfatória, indicando que se trata de uma técnica vantajosa e promissora. Por isso ela tem ganhado popularidade. Além disso, não há risco de perda do clitóris. Essa é também a única técnica que preserva a tumescência, ou seja, a ereção clitoridiana, algo importante para a função sexual”, afirma Ubirajara.
Outro achado importante foi a relação entre idade da cirurgia e sensibilidade pós-operatória. Quanto mais cedo o procedimento foi realizado, melhores foram os resultados de sensibilidade.
Além da avaliação funcional, o estudo também investigou a percepção estética e psicossocial. Todos os médicos classificaram os resultados estéticos como bons ou satisfatórios, enquanto 90% dos cuidadores relataram satisfação com a aparência genital após a cirurgia. Questionários de qualidade de vida também indicaram níveis elevados de bem-estar.
O que é a corporoplastia?
A técnica de corporoplastia usada no estudo contou com pesquisadores do Hospital de Rondônia e do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Segundo Ubirajara, a técnica busca equilibrar segurança, função e resultado estético. “Historicamente, existe uma grande preocupação com a preservação da sensibilidade clitoriana em cirurgias de feminização genital. Nosso estudo mostra que é possível alcançar bons resultados estéticos sem comprometer a função sensorial”, afirma.
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De acordo com o pesquisador, a corporoplastia se diferencia de outras abordagens por preservar estruturas anatômicas importantes. “Diferentemente de técnicas tradicionalmente utilizadas em outras partes do mundo, que exigem a dissecção do clitóris e podem aumentar o risco de alterações sensoriais, a técnica desenvolvida pelo nosso grupo evita a manipulação do feixe nervoso e vascular”, explica.
Durante o procedimento, são feitos ajustes na estrutura do clitóris, que podem incluir redução de tamanho e remodelação, sempre de acordo com as necessidades específicas de cada paciente. De acordo com o especialista, a retirada do tecido ocorre por baixo da camada que recobre o clitóris, região onde não há passagem de nervos. Isso permite maior segurança e preserva tanto a sensibilidade quanto a capacidade de ereção do órgão.
“A grande vantagem da técnica que desenvolvemos é justamente não exigir a mobilização do feixe nervoso e vascular. Dessa forma, evitamos riscos de lesão, necrose do clitóris ou perda da ereção clitoridiana, mantendo a inervação completamente preservada”, diz.
Os resultados também indicam que a cirurgia pode ser aplicada em diferentes graus de virilização genital, sem impacto negativo na sensibilidade, como no caso do uso de chip da beleza.
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Apesar dos resultados promissores, os autores destacam a necessidade de estudos de longo prazo para avaliar desfechos na vida adulta, especialmente relacionados à função sexual. “Este é um passo importante, mas ainda precisamos acompanhar essas pacientes ao longo dos anos para entender completamente os efeitos da cirurgia na vida adulta”, ressalta.