SONHO DE TER FILHOS

De paciente a mãe: a jornada da médica que venceu três ciclos de FIV

"Viver como paciente foi completamente diferente": da estimulação ovariana à transferência embrionária, ginecologista revela os bastidores da jornada pela gravidez

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O desejo de ser mãe nem sempre acontece no tempo ou da maneira como uma mulher imaginou. Para algumas, a gravidez chega naturalmente. Para outras, o caminho envolve consultas, exames, investigações médicas e, em determinados casos, tratamentos de reprodução assistida. Entre as possibilidades está a fertilização in vitro (FIV), técnica que permite que a fecundação do óvulo pelo espermatozoide aconteça em laboratório, com posterior transferência do embrião para o útero.

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Embora seja cada vez mais conhecida, a FIV ainda desperta muitas dúvidas. Como funciona o procedimento? Quem pode recorrer ao tratamento? É doloroso? Quanto tempo demora? E o que acontece quando a primeira tentativa não resulta em gravidez?

De acordo com a ginecologista e obstetra Melissa Cavagnoli, especialista em reprodução humana, o primeiro passo é compreender que cada história reprodutiva é diferente. Por isso, a indicação do tratamento depende de uma investigação individualizada, que considera fatores como idade, histórico clínico, funcionamento dos ovários, condições do útero e qualidade dos espermatozoides.

“A fertilização in vitro não começa no laboratório. Ela começa na investigação da fertilidade e na compreensão da história de cada paciente. É preciso entender o que está dificultando a gravidez para escolher a estratégia mais adequada. Nem toda mulher que apresenta dificuldade para engravidar necessariamente precisará de uma FIV”, explica a médica.





Quando a FIV é indicada?

A FIV pode ser recomendada em diferentes situações, como obstrução ou comprometimento das tubas uterinas, endometriose, alterações importantes nos espermatozoides, baixa reserva ovariana, infertilidade sem causa aparente e quando outros tratamentos de reprodução assistida não apresentam o resultado esperado.

A idade da mulher também é um fator relevante, especialmente porque a quantidade e a qualidade dos óvulos diminuem progressivamente ao longo dos anos. Por isso, diante de dificuldades para engravidar, a orientação é não adiar a investigação.

Outro ponto importante é que a avaliação deve considerar a saúde reprodutiva de ambos os parceiros, quando existe um casal envolvido. A infertilidade não é uma questão exclusivamente feminina.

Como funciona a FIV?

Apesar de parecer complexo à primeira vista, o tratamento segue algumas etapas bem estabelecidas. O tempo e os medicamentos utilizados variam conforme as características e a resposta de cada paciente.

1. Avaliação inicial e exames

Tudo começa com uma consulta especializada. O médico investiga o histórico de saúde, o tempo de tentativas para engravidar, os ciclos menstruais, possíveis doenças ginecológicas e tratamentos anteriores. Exames hormonais, ultrassonografias e avaliação do sêmen podem fazer parte dessa investigação.

2. Estimulação ovariana

Na maioria dos ciclos, a paciente utiliza medicamentos hormonais, geralmente injetáveis, para estimular o crescimento de vários folículos pelos ovários. Durante esse período, são realizados ultrassons para acompanhar a resposta ovariana e ajustar as medicações, quando necessário.

Essa fase costuma durar aproximadamente de nove a 13 dias, mas pode variar de acordo com cada organismo e protocolo.

3. Coleta dos óvulos

Quando os folículos atingem o desenvolvimento adequado, é realizada a punção ovariana. O procedimento acontece com auxílio de ultrassonografia e geralmente sob sedação, permitindo a retirada dos óvulos. A paciente costuma receber alta no mesmo dia, conforme a avaliação médica.

 

4. Fertilização em laboratório

Depois da coleta, os óvulos são encaminhados ao laboratório de embriologia e colocados em contato com os espermatozoides. Em determinadas situações, pode ser utilizada a técnica ICSI, na qual um espermatozoide é injetado diretamente no interior do óvulo.

Após a fecundação, os embriões são acompanhados por especialistas em embriologia durante os primeiros dias de desenvolvimento.

5. Transferência embrionária

Quando os embriões apresentam condições adequadas, um deles pode ser transferido para o útero por meio de um cateter fino. O procedimento geralmente é rápido e não exige anestesia.

Dependendo das condições clínicas, a transferência pode acontecer no mesmo ciclo ou após o congelamento dos embriões, em outro momento.

6. O esperado teste de gravidez

Depois da transferência, chega uma das fases mais aguardadas: a espera pelo exame de sangue beta-hCG, que identifica a presença do hormônio da gravidez.

O teste costuma ser realizado entre nove e 14 dias depois do procedimento, conforme a orientação da equipe médica.

A primeira tentativa nem sempre funciona

Uma das questões mais delicadas para quem inicia uma FIV é compreender que o tratamento não oferece garantia de gravidez na primeira tentativa. Mesmo quando todas as etapas são realizadas adequadamente, existem fatores biológicos que influenciam a implantação e o desenvolvimento da gestação.

A idade da mulher, a qualidade dos óvulos e dos embriões, as condições do endométrio e as causas da infertilidade estão entre os fatores que podem interferir nos resultados.

Por isso, um resultado negativo não significa necessariamente que não haverá outras possibilidades. Em algumas situações, a equipe médica pode reavaliar o protocolo, investigar possíveis fatores associados e discutir novas estratégias.

“É importante que a paciente saiba que nem sempre o caminho será linear. Podem existir etapas frustrantes, resultados que não correspondem às expectativas e a necessidade de recomeçar. O acompanhamento médico precisa considerar não apenas os aspectos físicos, mas também o impacto emocional de todo esse processo”, destaca Melissa.





Saúde emocional também faz parte do tratamento

A experiência de tentar engravidar sem conseguir pode trazer sentimentos de ansiedade, tristeza, insegurança e frustração. Quando o tratamento envolve procedimentos, medicamentos e a expectativa por resultados, essas emoções podem se intensificar.

Nesse contexto, contar com uma rede de apoio, manter um diálogo aberto com a equipe médica e, quando necessário, buscar acompanhamento psicológico são medidas importantes.

A médica também ressalta que cada mulher precisa respeitar seu próprio tempo e evitar comparações com outras histórias de maternidade. A experiência de uma paciente não determina o resultado de outra, assim como o número de tentativas necessárias pode variar significativamente.

De médica a paciente

A relação de Melissa com a reprodução humana ganhou uma dimensão ainda mais pessoal quando ela própria precisou recorrer aos tratamentos para realizar o sonho de ser mãe. Mesmo trabalhando na área, a médica não imaginava que um dia estaria do outro lado da experiência, vivenciando as expectativas e os desafios que tantas pacientes enfrentam diariamente.

Para engravidar, passou por três fertilizações in vitro, algumas tentativas frustradas de preparo do endométrio e dois testes de gravidez até alcançar o resultado positivo.

“Eu conhecia tecnicamente cada etapa do tratamento, mas viver tudo isso como paciente foi completamente diferente. Passei a compreender ainda mais profundamente a ansiedade, a expectativa e as frustrações que acompanham essa jornada. Foram momentos difíceis, mas também de muito aprendizado. Hoje, consigo olhar para minhas pacientes com ainda mais empatia, porque conheço essa espera por dentro”, conta.

Mãe de uma menina, Melissa considera que sua trajetória pessoal fortaleceu sua atuação profissional e sua conexão com mulheres que enfrentam dificuldades para engravidar. “Eu sempre digo que, se pudesse escolher outra vida para viver, escolheria a minha novamente. Amo minha profissão e amo ser mãe. Sei que cada história tem seu próprio caminho, e meu desejo é que as mulheres encontrem informação, acolhimento e orientação para tomar suas decisões com segurança”, diz.

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