DISBIOSE

Desequilíbrio de bactérias no sêmen está ligado a mais perdas gestacionais, diz estudo

Desequilíbrio nas bactérias intestinais das mulheres está ligado a maior demora para engravidar menor chance de concepção, mas não a mais perdas gestacionais

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um desequilíbrio nas bactérias presentes no sêmen está associado a menos nascimentos e mais perdas gestacionais em casais que fazem fertilização in vitro (FIV) ou enfrentam abortos recorrentes, aponta estudo publicado nesta terça (4/8) na revista The Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women's Health.

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A pesquisa também identificou que um desequilíbrio nas bactérias intestinais das mulheres está ligado a maior demora para engravidar e a menor chance de concepção, mas não a mais perdas gestacionais.

Esse desequilíbrio é chamado de disbiose: quando a composição natural de bactérias de um órgão ou tecido -no intestino, na vagina ou no sêmen- sai do padrão considerado saudável, com queda de espécies benéficas e aumento de outras associadas a inflamação. É diferente de uma infecção, porque não costuma causar sintomas nem aparecer em exames de rotina.

O estudo acompanhou 353 mulheres e 191 de seus parceiros, todos casais heterossexuais recrutados entre 22 de março de 2018 e 17 de outubro de 2023 em hospitais universitários de Copenhague, na Dinamarca, com parte dos participantes também na Suécia, via um biobanco binacional da região de Öresund.

Os pesquisadores analisaram as bactérias do intestino e da vagina das mulheres e do sêmen dos homens, usando sequenciamento genético para mapear cada comunidade bacteriana. Depois, acompanharam cada casal até o nascimento de um bebê ou a perda da gravidez.

A amostra foi dividida em dois grupos. Um reunia 249 mulheres e 95 homens em tratamento de FIV ou injeção intracitoplasmática de espermatozoide (ICSI). O outro incluía 104 mulheres e 96 homens com histórico de perda gestacional recorrente -três ou mais perdas consecutivas, ou duas perdas inexplicadas no segundo trimestre.

Entre os casais em tratamento de FIV, 57% dos que tinham parceiros com o desequilíbrio bacteriano no sêmen tiveram um bebê, contra 85% dos casais em que essa alteração não foi detectada.

Nessa mesma coorte, a perda gestacional foi cerca de 26 pontos percentuais mais comum quando o homem apresentava o desequilíbrio; entre os casais com perda gestacional recorrente, o aumento foi de cerca de 19 pontos percentuais. Juntando as duas coortes, o risco de perda gestacional foi, em média, 21 pontos percentuais maior -proporção equivalente a cerca de 1 em cada 5 casais a mais.

Já o desequilíbrio nas bactérias intestinais das mulheres não aumentou o risco de perda gestacional. Mas esteve associado a menor chance de engravidar por transferência de embrião: no grupo de FIV, cada aumento padronizado no escore de disbiose intestinal correspondeu a uma queda de 6,6 pontos percentuais na chance de gravidez a cada tentativa.

A disbiose vaginal, foco principal das pesquisas sobre microbioma reprodutivo nos últimos anos, não mostrou associação consistente com nenhum dos desfechos avaliados.

Kilian Vomstein, pesquisador do Copenhagen University Hospital e um dos autores do estudo, diz que esse foi o achado que mais mudou sua forma de pensar sobre infertilidade sem causa aparente.

"Estamos dizendo ao homem que o resultado dele é normal e investigando só a mulher, e isso sugere que podemos ter declarado um sistema saudável com base em um teste que não mede o que realmente importa", diz à Folha de S.Paulo.

O desequilíbrio bacteriano no sêmen não teve relação com nenhum parâmetro avaliado por um espermograma convencional -concentração, motilidade, morfologia ou fragmentação do DNA dos espermatozoides. Ou seja, é invisível aos exames de rotina.

"É desconfortável perceber que estávamos concentrando nossa atenção no lugar errado", diz Vomstein, referindo-se ao fato de a vagina, foco do campo por mais de uma década, não ter mostrado associação consistente, enquanto sêmen e intestino, não observado rotineiramente, mostraram.

Apesar dos achados, os próprios autores recomendam cautela: a classificação de desequilíbrio seminal usada no estudo é exploratória e não foi validada de forma independente, e não existe ainda um teste clínico padronizado para identificá-la.

Segundo Vomstein, o que muda agora é a forma de desenhar novas pesquisas -coletando amostras dos dois parceiros e testando intervenções em casais, não apenas em mulheres-, e não uma oferta clínica imediata.

O estudo também não incluiu um grupo de controle com casais férteis e não registrou dados de raça e etnia dos participantes. Foi conduzido majoritariamente na Dinamarca, com parte da amostra recrutada também na Suécia, o que ainda limita a generalização dos resultados para outras populações.

Parte do financiamento da coleta de amostras e das análises veio da farmacêutica Ferring Pharmaceuticals.

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