O Brasil ocupa uma posição de destaque no cenário mundial da cirurgia plástica. Segundo os dados atribuídos ao levantamento de 2025 da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS), foram realizados no país aproximadamente 3,2 milhões de procedimentos estéticos, dos quais cerca de 2,3 milhões cirúrgicos.
O interesse pela cirurgia plástica não se explica apenas pelo desejo de corresponder a determinados padrões de beleza. As razões que levam alguém a procurar uma intervenção são tão variadas quanto as histórias pessoais. Podem envolver uma característica física que incomoda desde a juventude, as transformações decorrentes da maternidade, mudanças de peso ou os sinais do envelhecimento. Em muitos casos, o desejo de modificar a aparência nasce de uma percepção íntima, nem sempre compreendida por quem observa de fora.
Leia Mais
A relação entre aparência e autoestima é antiga, mas ganhou novos contornos em uma sociedade na qual a imagem se tornou uma forma permanente de exposição. Fotografias, vídeos e redes sociais ampliaram as referências estéticas e aproximaram o público de tratamentos antes pouco conhecidos. Trouxeram informação, mas também criaram um ambiente de comparação contínua, no qual rostos e corpos frequentemente aparecem submetidos a filtros, retoques e padrões de beleza cada vez mais uniformes.
Nesse cenário, é importante distinguir o desejo legítimo de melhorar algum aspecto da aparência da expectativa de alcançar uma imagem idealizada. “A cirurgia plástica pode proporcionar mudanças significativas e contribuir para o bem-estar de determinadas pessoas. Não tem, contudo, a capacidade de resolver todas as insatisfações pessoais, tampouco de assegurar felicidade ou confiança em si mesmo”,ressalta o cirurgiao plástico Eduardo Sucupira, membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.
A tradição da cirurgia plástica brasileira oferece uma contribuição importante a essa discussão. Ivo Pitanguy, cuja escola alcançou reconhecimento internacional, compreendia a especialidade para além de sua dimensão técnica. Em sua concepção, a percepção que cada indivíduo tem da própria aparência merece atenção, independentemente de a alteração física parecer pequena ou pouco relevante aos olhos de outra pessoa.
Essa maneira de compreender o paciente permanece especialmente atual. “Uma consulta não deveria começar pela escolha de um procedimento, mas pela compreensão do que levou aquela pessoa a procurar ajuda. Escutar suas expectativas, avaliar as possibilidades reais de tratamento e reconhecer os limites de uma intervenção são etapas tão importantes quanto o domínio da técnica cirúrgica”, reforça Eduardo Sucupira.
A evolução da especialidade ampliou consideravelmente as opções disponíveis. Eduardo Sucupira explica que operações como lipoaspiração, mamoplastias, abdominoplastia e rinoplastia convivem hoje com uma variedade de tratamentos não cirúrgicos, entre eles aplicações de toxina botulínica e preenchimentos faciais. “Embora estes últimos geralmente envolvam uma recuperação mais simples, não estão isentos de riscos. Todos exigem conhecimento anatômico, indicação adequada e profissionais devidamente qualificados”, pontua o cirurgião.
O desenvolvimento tecnológico trouxe maior precisão a diferentes procedimentos e aperfeiçoou recursos de planejamento e recuperação. Mas a facilidade com que determinados tratamentos passaram a ser oferecidos não deve fazer esquecer que continuam sendo intervenções médicas. A decisão precisa considerar as condições de saúde, os benefícios esperados, as possíveis complicações e a experiência do profissional responsável.
A projeção internacional da cirurgia plástica brasileira resulta de décadas de formação, pesquisa e aperfeiçoamento técnico. O país consolidou uma tradição reconhecida no exterior, especialmente na cirurgia estética, sem perder de vista a importância da cirurgia reparadora, destinada ao tratamento de alterações congênitas, sequelas de acidentes, doenças e outras condições que comprometem a forma ou a função de estruturas corporais.
Essa diversidade de atuação ajuda a afastar uma interpretação simplista da especialidade. “Nem toda cirurgia plástica nasce de uma preocupação exclusivamente estética, assim como nem todo desejo de melhorar a aparência representa insegurança ou submissão a padrões sociais. O significado de uma intervenção depende das circunstâncias e das expectativas de quem a procura”, reforça Eduardo Sucupira.
O envelhecimento talvez seja um dos campos em que essa reflexão se torna mais necessária. O passar dos anos modifica a pele, os contornos do rosto e as proporções corporais. Algumas pessoas acolhem essas transformações sem desejar qualquer intervenção. Outras preferem atenuar determinados sinais.
O problema surge quando envelhecer passa a ser apresentado como algo que precisa obrigatoriamente de correção. A medicina pode oferecer recursos para suavizar alterações da aparência, mas não deveria transformar a passagem do tempo em doença nem impor uma determinada ideia de juventude como condição para o bem-estar.
Eduardo Sucupira esclarece que na cirurgia facial, por exemplo, preservar a expressão, as características individuais e a naturalidade é tão importante quanto alcançar o rejuvenescimento desejado. Ele ressalta que a busca por resultados excessivamente padronizados pode comprometer justamente aquilo que torna cada rosto reconhecível: suas particularidades.
Para quem considera realizar um procedimento, a escolha do profissional e do local de atendimento merece atenção especial. “É importante verificar a habilitação médica, a qualificação na especialidade, as condições de segurança e a estrutura disponível para o tratamento e o acompanhamento. Fotografias de resultados, depoimentos nas redes sociais e ofertas comerciais não substituem essas verificações nem uma consulta cuidadosa”, afirma o médico.
Também é necessário, conforme o especialista, reconhecer que a melhor decisão nem sempre é operar. Há situações em que uma intervenção não traria o benefício esperado, em que os riscos superam as vantagens ou em que as expectativas precisam ser reconsideradas. “A capacidade de recomendar prudência, inclusive quando isso significa não realizar um procedimento, é parte essencial da responsabilidade médica”, pontua.
Em uma época marcada pela exposição da imagem e pela multiplicação de referências estéticas, talvez o maior desafio seja preservar a liberdade de cada pessoa para decidir o que deseja modificar e o que prefere manter. “O propósito da cirurgia plástica não deveria ser aproximar todos de um mesmo ideal de beleza, mas oferecer, quando houver indicação, possibilidades de mudança que respeitem a identidade, a saúde e a história de cada indivíduo”, aponta Eduardo Sucupira.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
