A Semana das Crianças reúne em poucos dias situações que normalmente ocorrem de forma espaçada: festa na segunda-feira, atividade especial na terça, passeio na quarta e apresentação na quinta, por exemplo. Em casa, a preparação segue o mesmo ritmo: escolher a fantasia, separar acessórios e conversar sobre o programa do dia seguinte. Tudo isso eleva a ansiedade justamente quando o organismo precisa baixar a velocidade.

Entre apresentações e atividades temáticas, os pequenos acumulam estímulos e expectativa, o que aumenta a sobrecarga de estímulos e com isso, costumam adiar a hora de deitar. 

De acordo com a especialista em neurociência do sono infantil, Jéssica Africano, é natural que uma criança fique mais animada quando sabe que terá uma festa, um passeio ou uma atividade diferente na escola. "O que merece atenção é quando essa mudança passa a interferir com frequência na qualidade do sono. Nesse caso, é importante entender se estamos diante apenas de uma semana atípica ou de um quadro que já precisa ser investigado", afirma.

Jéssica orienta que a sequência de festas, fantasias e passeios da Semana das Crianças não precisa comprometer o descanso dos pequenos. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), de 20% a 30% das crianças nos primeiros anos de vida já têm despertares noturnos frequentes e dificuldade para dormir. Para a especialista, a semana atípica ajuda a identificar se o problema é pontual ou exige investigação.

Cinco orientações para os pais

1. Manter a hora de deitar. Mesmo com agenda diferente na escola, horários próximos dos habituais ajudam o relógio biológico a se estabilizar. Após uma noite ruim, o ideal é retomar o padrão de sempre,sem permitir que a exceção vire regra. Antecipar o sono em dias mais cansativos é importante para evitar acúmulo de cansaço que pode afetar as noites.

2. Adiantar os preparativos. Fantasia, penteado e materiais podem ser organizados durante o dia, longe da hora de dormir.

3. Criar um momento de desaceleração. Depois de um dia agitado, convém reservar um tempo para atividades calmas antes da cama para ajudar o sistema nervoso a relaxar.

4. Desligar as telas com antecedência. A SBP recomenda apagar os aparelhos eletrônicos de uma a duas horas antes de dormir e manter um ritual de sono. Até os 3 anos, o ideal seria zero acesso à telas

5. Observar o comportamento durante o dia. Irritabilidade, falta de concentração e sonolência indicam que o descanso não está suficiente. Neste caso, evite vários dias seguidos com muitas atividades, pois o excesso de cansaço pode deixar a criança agitada e com dificuldade de dormir e emendar os ciclos ao longo da noite.

Quando investigar com mais atenção

Terminada a programação escolar, o parâmetro é simples: no caso das crianças que dormiam bem, o sono voltou ao normal? Se a criança continua demorando para adormecer ou acordando várias vezes na mesma noite, a origem pode estar no excesso de cansaço que veio na semana das crianças. Porém, se o problema já existia, precisa ser investigado.

"Nem toda dificuldade para dormir se resolve com ajuste de rotina. Quando o problema persiste, precisamos avaliar a criança de forma mais ampla: o ambiente de sono, os hábitos, o desenvolvimento e a saúde. A pergunta não deve ser apenas 'o que fazer para ela dormir?', mas também 'por que ela não está conseguindo dormir bem?'", diz a especialista.

Essa avaliação evita um erro frequente: tratar a situação como birra ou testar técnicas diversas, uma após a outra, sem buscar a origem. Festas e brincadeiras fazem parte da infância e não competem com o sono. Quando o problema persiste, o caminho é a avaliação especializada, já que, segundo os especialistas da SBP, a escolha da terapia deve ser personalizada para cada família.

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