Etarismo médico: sintomas no climatério são tratados como "coisa da idade"
Mulheres relatam já ter sentido que um profissional de saúde minimizou, ignorou ou não tratou adequadamente seus sintomas, o que pode atrasar o tratamento
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“É coisa da sua idade”. A frase, aparentemente simples, pode representar o início de uma longa peregrinação de mulheres em busca de respostas para sintomas que interferem diretamente na rotina. Insônia, dores articulares, ganho de peso, alterações de humor, dificuldade de concentração, ondas de calor e falta de energia são frequentemente tratados como consequências naturais do envelhecimento, quando podem estar relacionados ao climatério e merecem investigação, diagnóstico e tratamento individualizado.
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O problema não está apenas na falta de informação das pacientes. O chamado etarismo médico, quando a idade passa a ser utilizada para minimizar queixas ou limitar a investigação clínica, também pode aparecer dentro dos próprios consultórios.
“Dizer para uma mulher que ela precisa simplesmente aprender a conviver com sintomas que comprometem seu sono, sua disposição, sua sexualidade ou sua capacidade de trabalhar é minimizar uma queixa legítima. A idade não pode substituir uma avaliação clínica”, esclarece a ginecologista Roberta Brando, especialista na relação da mulher com o climatério e a menopausa e especialista em terapia hormonal feminina.
“A situação se torna ainda mais grave quando a paciente retorna várias vezes ao consultório e continua sem receber uma investigação adequada”, diz a médica.
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Uma pesquisa nacional realizada em 2026 com 1.251 mulheres com 35 anos certificou isto. O estudo aponto que 63,2% das entrevistadas que responderam à questão disseram já ter sentido que um profissional de saúde minimizou, ignorou ou não tratou adequadamente seus sintomas. Entre elas, 49,3% afirmaram que isso aconteceu mais de uma vez.
A consequência é uma inversão perigosa da lógica do cuidado. Em vez de a queixa da paciente provocar uma investigação sobre suas possíveis causas, o envelhecimento passa a funcionar como uma explicação genérica para quase tudo.
Estudos sobre a experiência de mulheres na perimenopausa mostram justamente relatos de pacientes que tiveram suas preocupações desconsideradas por causa da idade ou ouviram que determinados sintomas seriam simplesmente “assim mesmo”.
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O impacto desse descrédito vai além do desconforto individual. Uma revisão publicada em 2026, que reuniu 89 estudos sobre o atendimento no climatério, identificou lacunas persistentes no conhecimento dos profissionais, falhas na integração dos serviços e relatos de mulheres que se sentiram desacreditadas, sem informação ou sem apoio para lidar com os sintomas. “No Brasil, pesquisa com mulheres de 40 a 65 anos também encontrou baixa satisfação com as informações recebidas sobre menopausa e tratamentos, além de apontar a necessidade de ampliar a capacitação dos profissionais de saúde”, completa Roberta.
No ponto de vista da ginecologista, quando um médico responde que ‘é coisa de mulher moderna, a idade chega’ ou que determinado sofrimento é apenas parte de envelhecer, existe uma falha de conduta e de escuta. “Não podemos transformar o climatério em um período em que a mulher deixa de ser investigada, ou pior, em que ela é convencida de que precisa suportar aquilo em silêncio.”
“O climatério não é uma doença, mas seus sintomas podem afetar de forma relevante a qualidade de vida e precisam ser avaliados dentro da história clínica de cada mulher. O desafio, portanto, não é impedir o envelhecimento, mas evitar que a idade seja usada como justificativa para deixar de cuidar”, afirma.
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