Muito além da digestão, os trilhões de microrganismos que habitam o corpo humano podem influenciar a imunidade, o metabolismo, a saúde ginecológica e até a fertilidade. Esse universo, invisível a olho nu, tem um papel fundamental na manutenção da saúde e por sua associação com o desenvolvimento de diversas doenças.
Apesar da crescente popularidade do tema, ainda existe confusão entre os conceitos de microbiota e microbioma. Segundo Márcio Nunes, coordenador médico do São Marcos Saúde e Medicina Diagnóstica, da Dasa, em Minas Gerais, a microbiota corresponde ao conjunto de bactérias, fungos, vírus e outros microrganismos que vivem naturalmente em diferentes regiões do corpo.
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Já o microbioma refere-se ao patrimônio genético desses organismos e às funções que eles desempenham. Por exemplo:
- O microbioma intestinal influencia na saúde digestiva, ao metabolismo e à resposta imunológica
- O microbioma vaginal permite identificar desequilíbrios associados à saúde íntima feminina
- O microbioma endometrial oferece informações complementares na investigação de infertilidade, falhas de implantação embrionária e perdas gestacionais recorrentes
Estudos do Human Microbiome Project (HMP), iniciativa coordenada pelo Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH), identificou mais de 10 mil espécies microbianas no organismo humano e estimou que o microbioma reúne cerca de oito milhões de genes um número muito superior aos aproximadamente 20 mil genes presentes no genoma humano.
Um universo invisível que influencia a saúde
Bactérias, fungos e outros microrganismos costumam ser associados exclusivamente ao surgimento de doenças. Porém, grande parte desses organismos exerce funções fundamentais para a manutenção da saúde. Eles participam de processos ligados à digestão, ao metabolismo, à regulação do sistema imunológico e até a comunicação entre diferentes sistemas.
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De acordo com Márcio, a saúde humana não depende apenas dos nossos próprios genes, mas também da interação dinâmica e contínua entre o organismo e os trilhões de microrganismos que vivem nele. Quando esse equilíbrio é alterado, diferentes funções biológicas podem ser afetadas.
“O avanço de tecnologias capazes de analisar o material genético desses microrganismos em larga escala mudou a forma como entendemos essa relação. A partir dessas descobertas, pesquisadores passaram a identificar associações entre a composição da microbiota e diferentes aspectos da saúde, como fertilidade, resposta imunológica, metabolismo e predisposição a determinadas doenças”, explica.
O papel da microbiota na saúde feminina
Os avanços do sequenciamento de nova geração (NGS) transformaram a análise do microbioma em uma importante ferramenta da prática clínica. Hoje, é possível avaliar com alta precisão diferentes ecossistemas do organismo.
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Entre as descobertas mais recentes sobre o microbioma, uma das que mais têm chamado a atenção da comunidade científica está relacionada à saúde da mulher. Pesquisas vêm demonstrando que os microrganismos presentes no trato reprodutivo feminino podem influenciar muito mais do que a proteção contra infecções, desempenhando um papel relevante na fertilidade, na gestação e na saúde ginecológica como um todo.
A microbiota vaginal saudável é caracterizada pela predominância de bactérias do gênero Lactobacillus, responsáveis por manter o ambiente vaginal equilibrado e protegido. Quando esse ecossistema sofre alterações, aumentam os riscos de infecções ginecológicas, processos inflamatórios e possíveis impactos na saúde reprodutiva.
Outro campo que vem despertando interesse crescente é o estudo da microbiota endometrial, conjunto de microrganismos presentes no revestimento interno do útero. Pesquisas investigam como essa comunidade microbiana pode influenciar a implantação embrionária e os desfechos gestacionais, ampliando a compreensão sobre fatores envolvidos na fertilidade feminina.
"Estamos ampliando a forma de compreender a saúde reprodutiva da mulher. Hoje sabemos que fertilidade e gestação não dependem apenas de hormônios, idade ou fatores genéticos", comenta Adriana Bittencourt Campaner, ginecologista e colposcopista da Dasa e do Alta Diagnósticos. "Existe também um ecossistema de microrganismos que interage constantemente com o organismo e pode influenciar diferentes etapas da reprodução, além de contribuir para a manutenção da saúde ginecológica ao longo da vida", destaca.
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