Pesticidas e os danos no microbioma intestinal - parte 1
Em 2023, o uso de pesticidas atingiu 3,73 milhões de toneladas em todo o mundo, aproximadamente o dobro da quantidade usada em 1990
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A perturbação do ecossistema intestinal pode contribuir para a diabetes e outros problemas de saúde, de acordo com estudos mais recentes.
Um número crescente de pesquisas sugere que produtos químicos utilizados como defensivos agrícolas podem perturbar o microbioma intestinal, um ecossistema de trilhões de bactérias, fungos e vírus que auxilia na digestão dos alimentos, produz nutrientes essenciais, treina o sistema imunológico e envia sinais químicos que influenciam o metabolismo e até mesmo a função cerebral. Tais perturbações podem levar a uma série de problemas médicos, entre eles o aumento global do diabetes tipo 2 em pessoas não obesas.
Aqueles que são expostos no trabalho podem estar em maior risco, mas os pesticidas usados em plantações ou em residências também podem afetar o microbioma. A exposição repetida a baixas doses de substâncias químicas bioativas pode não levar a um efeito dramático imediato, mas cria uma pressão seletiva a longo prazo.
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Até o momento, há estudos sugerindo danos pelos pesticidas à saúde humana. Mas os cientistas alertam que muitos outros fatores, incluindo dieta, estilo de vida e genética, influenciam o microbioma intestinal, o que dificulta a identificação dos efeitos específicos dos pesticidas.
Em 2023, o uso de pesticidas atingiu 3,73 milhões de toneladas em todo o mundo, aproximadamente o dobro da quantidade usada em 1990. Em 2025, o Brasil atingiu um novo recorde na liberação de agrotóxicos, com 912 produtos aprovados, um aumento de 37% em relação a 2024. A Índia registrou um aumento de quase 20% apenas na última década.
As pesquisas sobre os riscos à saúde têm se concentrado, por muito tempo, em intoxicação aguda, neurotoxicidade e câncer. Mas novas ferramentas genéticas para o estudo de diversos ecossistemas microbianos tornaram possível rastrear os efeitos dos pesticidas no microbioma.
O pesquisador Velmurugan Ganesan, da Fundação de Pesquisa KMCH americana, questionou se a exposição a pesticidas poderia explicar uma descoberta curiosa. Em um estudo com quase 3.000 pessoas no sul da Índia, sua equipe descobriu que 23% dos participantes em áreas urbanas tinham diabetes, que se agrupava com fatores de risco clássicos, como obesidade e colesterol alto.
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No entanto, em áreas rurais, a prevalência ainda era de 16%, e não havia associação com esses fatores de risco. Os estudiosos então começaram a se perguntar se substâncias químicas ambientais poderiam ser a origem destas doenças.
A equipe então explorou os efeitos da exposição a um inseticida agrícola amplamente utilizado, o clorpirifós, em camundongos. Estudos anteriores com animais frequentemente testavam altas doses por curtos períodos, mas a equipe de Ganesan usou o que ele chama de "dose realista", baseada em resíduos de pesticidas na dieta média indiana, por 120 dias.
O estudo, publicado em agosto de 2025, descobriu que o clorpirifós remodelou o microbioma intestinal, com bactérias benéficas como Lactobacillus diminuindo e espécies potencialmente nocivas como Helicobacter aumentando. Camundongos expostos ao clorpirifós também desenvolveram hiperglicemia e diabetes, apesar de não terem ganhado peso, afirma Karthika Durairaj, primeira autora do estudo.
Outro estudo, com coautoria de Ganesan, sugere um possível mecanismo: quando os micróbios intestinais decompõem o clorpirifós, produzem acetato e outros metabólitos que o fígado utiliza para produzir glicose por meio de um processo chamado gliconeogênese, levando a níveis elevados de açúcar no sangue.
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A equipe de Ganesan está agora analisando amostras de sangue, urina e fezes de pessoas com diabetes, com e sem obesidade, e de controles saudáveis para examinar se os padrões se repetem em humanos. Eles trabalham agora para demonstrar que o diabetes induzido por substâncias químicas ambientais é bastante diferente do diabetes associado ao estilo de vida em seus mecanismos subjacentes, o que pode exigir cuidados clínicos diferentes.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
