LONGEVIDADE

Aos 86, autora desafia estereótipos sobre velhice

Psicóloga usa sua própria história como exemplo de envelhecimento ativo; em seu livro, ela defende que a terceira idade pode ser uma fase de aprendizado e propósito

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O mais recente Censo Demográfico do IBGE demonstrou que a população idosa do país (60+) ultrapassou pela primeira vez a fatia de pessoas entre 15 e 24 anos. A projeção é que, em cerca de 20 anos, os idosos sejam maioria entre os brasileiros.

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Na esteira desse crescimento, aumentou também a participação da população idosa no mercado de trabalho. Conforme a Síntese de Indicadores Sociais 2025, do IBGE, em 2024, 24,4% das pessoas com 60 anos ou mais estavam ocupadas no país, praticamente um em cada quatro idosos. Em 2012, esse percentual era de 22%. Além disso, esse grupo passou a registrar rendimento médio 14,6% superior ao das pessoas com 14 anos ou mais.

Os números revelam uma população cada vez mais ativa, financeiramente autônoma e participativa. É nessa visão do envelhecimento que permeia o livro "Memórias Afetivas – Reflexões sobre amor, resiliência e espiritualidade no relacionamento entre gerações", escrito pela professora e psicóloga clínica Dina Frutuoso e lançado pela Editora Labrador. A obra destaca a importância das relações humanas e, especialmente, do diálogo entre diferentes gerações para a construção de indivíduos emocionalmente mais fortes.

Ativa e produtiva aos 86 anos

A própria autora é um exemplo de como é possível e desejável permanecer ativa ao longo da vida. "Nasci em 1940, tenho uma história e vou contá-la: ainda sou produtiva, participo ativamente de vários grupos para melhorar o meu entorno. Continuo estudando, escrevendo e, nos meios eletrônicos de comunicação, divulgo estudos e possibilidades para pessoas idosas, bem como lembretes para os jovens", relata.

Aos 86 anos, "Memórias Afetivas", torna-se a sétima obra de Dina, mostrando que nunca é tarde para compartilhar conhecimento, experiências e novas ideias.

O desejo de adquirir novas habilidades continua fazendo parte da rotina da autora. Pouco antes de se aposentar como professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), começou a fazer aulas de pintura a óleo. Seu desafio mais recente é a aquarela. "Novos desafios são importantes, como afirmam os neurocientistas, por nos ajudarem a realizar conexões, levando nosso cérebro a ficar mais alerta. Estudar algo novo faz muito bem, porque se conhecer bem não é só se admirar no espelho, mas buscar saber o que há entre nossas possibilidades", ressalta na obra.

Alimentar antigas paixões também fez parte da trajetória de Dina. Viajante desde os sete anos, realizou dez viagens em grandes transatlânticos, atravessou o oceano durante 19 dias e conheceu mais de 70 países.

Apenas recentemente, aos 84 anos, decidiu encerrar esse ciclo. Escolheu fazê-lo visitando, ao lado do sobrinho e da sobrinha de coração, a pequena aldeia de Sapiãos, no norte de Portugal, onde nasceu seu pai. "Eles não sabiam, mas, por dentro, eu estava me despedindo. Na minha idade, não tenho mais condições físicas de fazer essas viagens sozinha e nem quero dar preocupação aos meus", conta.

“Aposentar-se do trabalho, não da vida”

Parar de viajar, porém, não significou desistir da vida para Dina. Muito pelo contrário. Como visto, ela continua estudando, escrevendo, participando de grupos e incentivando outras pessoas a permanecerem ativas. "As pessoas devem se preparar para a aposentadoria, o que é importante. Porém, nunca se aposentem da vida!", afirma.

A especialista ressalta que o aumento da expectativa de vida exige novos hábitos e uma nova forma de enxergar o envelhecimento. Para permanecer saudável e produtivo, é preciso cuidar do corpo, da mente, da espiritualidade e das relações humanas.

Além disso, manter a curiosidade é fundamental. No livro, Dina recorda a mãe, que faleceu aos 93 anos e, mesmo enfrentando as limitações físicas da idade, mantinha o interesse por aprender e descobrir novas formas de permanecer ativa. "Minha mãe e seu jeito de viver me ensinaram como a idade não é um limite quando existe interesse em descobrir novas oportunidades na vida", escreve.

"É a busca constante por novas experiências que nos permite crescer, evoluir e encontrar nossa verdadeira essência, permitindo-nos viver de forma plena, tanto nas fases iniciais da vida quanto na maturidade e na terceira idade", afirma.

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