A dor nas costas fazia parte da rotina de Thiago Oliveira, de 45 anos, havia tanto tempo que ele passou a encará-la como algo normal. Para continuar trabalhando e manter a rotina intensa de exercícios, recorria a analgésicos, anti-inflamatórios e até medicamentos injetáveis sempre que o incômodo aparecia. O alívio era passageiro. Somente depois de procurar um especialista descobriu que a origem do problema era o desgaste e o ressecamento dos discos da coluna.

"Sempre fui muito ativo, principalmente depois que emagreci. Perdi 40 quilos em 2016, passei a cuidar da alimentação e hoje treino praticamente todos os dias. Faço musculação, jiu-jítsu e crossfit. Mesmo assim, a dor continuava presente", conta.

Além dos treinos, o trabalho também exigia muito esforço físico. "Passo muitas horas em pé, viajo e dirijo bastante. Chegava ao fim do dia cansado e, muitas vezes, com as costas doendo. Acabei me acostumando com aquilo e passei a considerar a dor como parte da rotina."

Na tentativa de seguir com a rotina, Thiago recorria à automedicação. "Tomava o remédio, melhorava por alguns dias e seguia normalmente. Hoje vejo que estava apenas silenciando um sinal importante que meu corpo estava dando."

Segundo o médico ortopedista especialista em coluna vertebral Daniel Oliveira, sócio do Núcleo de Ortopedia e Traumatologia (NOT), em Belo Horizonte, esse comportamento pode atrasar o diagnóstico de doenças que exigem tratamento específico.

"A automedicação pode aliviar a dor temporariamente, mas não trata a causa do problema. A dor é um mecanismo de alerta do organismo. Quando ela diminui apenas porque o paciente tomou um medicamento, pode surgir a falsa impressão de que o problema foi resolvido, levando ao adiamento da avaliação médica", explica.





Enquanto isso, algumas doenças podem continuar evoluindo, como hérnias de disco com comprometimento neurológico, fraturas por osteoporose, infecções e, mais raramente, tumores da coluna.

O especialista também chama a atenção para os riscos do uso frequente de medicamentos sem orientação médica. Analgésicos, anti-inflamatórios e relaxantes musculares são os mais utilizados por quem sente dor nas costas. Embora muitos sejam vendidos sem receita, não são isentos de efeitos colaterais.

O uso repetido de anti-inflamatórios pode causar gastrite, úlceras, sangramentos, alterações na função dos rins e aumento da pressão arterial. Já os relaxantes musculares podem provocar sonolência e reduzir os reflexos, aumentando o risco de quedas, especialmente entre idosos.

Mesmo depois de mudar completamente o estilo de vida, emagrecer, melhorar a alimentação e manter uma rotina de exercícios, Thiago percebeu que a dor persistia.

"Chegou um momento em que ficou claro que não fazia sentido. Eu tinha mudado completamente meu estilo de vida, mas as costas continuavam doendo. Foi quando decidi procurar um especialista para entender o que realmente estava acontecendo."

Após os exames, veio o diagnóstico e o início do tratamento, que incluiu bloqueios na coluna para controle da dor.

"Foi um misto de preocupação e alívio. Descobri que havia um desgaste nos discos da coluna, mas finalmente entendi a origem da dor. Foi quando caiu a ficha de que existe uma diferença muito grande entre aliviar a dor por alguns dias e tratar a causa do problema", afirma.

Para Daniel Oliveira, esse é um dos erros mais comuns entre quem convive com dores crônicas. "Aliviar a dor não significa tratar a doença. É como silenciar um alarme sem descobrir a origem do problema. O papel da consulta médica é identificar a causa da dor e definir se há necessidade de exames complementares ou de um tratamento específico."





O ortopedista explica que a maioria das dores nas costas melhora espontaneamente em poucos dias ou semanas. No entanto, quando o desconforto persiste por mais de duas ou três semanas, piora progressivamente ou passa a limitar as atividades do dia a dia, a avaliação médica torna-se necessária.

Perda de força nas pernas, dormência importante, dificuldade para controlar a urina ou as fezes, febre associada à dor, perda de peso sem causa aparente ou dor intensa após um trauma exigem atendimento imediato.





Hoje, Thiago acredita que demorou mais do que deveria para buscar ajuda especializada e deixa um alerta para quem convive com o mesmo problema. "Não normalize esse incômodo. Dor persistente não faz parte de uma vida saudável. Quanto antes você procura ajuda, maiores são as chances de encontrar a melhor solução para o seu caso e continuar fazendo aquilo que gosta sem colocar a própria saúde em risco."

Daniel Oliveira reforça que medicamentos podem fazer parte do tratamento, mas dificilmente serão a solução isolada. "A maioria das doenças da coluna responde bem ao tratamento conservador, que pode incluir exercícios terapêuticos, fortalecimento muscular, reabilitação e orientações posturais. Tudo isso, porém, depende de um diagnóstico correto. Quanto mais cedo a causa é identificada, maiores são as chances de recuperação e menores as chances de a dor se tornar crônica."

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