PADRÃO IRREAL

"Looksmaxxing": trend estética entre homens oferece riscos à saúde

Movimento difundido nas redes sociais incentiva jovens a recorrerem a procedimentos, hormônios e comportamentos obsessivos em busca de um padrão de beleza

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Por Arthur Almeida - Uma tendência que promete transformar homens em versões mais atraentes de si mesmos vem ganhando força nas redes sociais, especialmente entre adolescentes e adultos jovens. Conhecido como looksmaxxing (termo que pode ser traduzido como “maximização visual”), o movimento incentiva a busca por músculos aparentes, mandíbula marcada e baixo percentual de gordura corporal.

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O problema é que, além desse padrão estético ser irreal, os meios utilizados para atingi-lo são perigosos e podem levar ao desenvolvimento de comportamentos obsessivos, capazes de prejudicar a saúde física e mental. 

O looksmaxxing tem sido difundido por influenciadores da chamada machosfera, um conjunto de comunidades digitais marcadas pela defesa de modelos de masculinidade, frequentemente associados à misoginia e ao antagonismo em relação aos direitos das mulheres e de minorias sociais, como a população negra e LGBTQIAPN+. Sua lógica parte do pressuposto de que a aparência é um determinante central no nível de sucesso de um homem na vida amorosa, profissional e social.

Produtores de conteúdo compartilham em seus vídeos supostas técnicas para melhorar o visual. Algumas “recomendações” envolvem a adoção de hábitos que costumam ser tipicamente saudáveis, como a musculação e os cuidados com a pele, mas em frequência e intensidade exageradas, ao ponto de causar desgaste no corpo. 

Outras “dicas” incluem o uso de substâncias anabolizantes; a realização de cirurgias invasivas, como o alongamento das pernas para ganhar altura; e procedimentos sem comprovação científica, a exemplo do chamado bone smashing, em que a pessoa golpeia repetidamente os próprios ossos do rosto para tentar remodelar a mandíbula.

De acordo com um estudo publicado em 2025 na revista Sociology Health & Illness, que analisou mais de 8 mil comentários em fóruns dedicados ao looksmaxxing, a comunidade é marcada por críticas severas a aparências fora do padrão “viril” tido como exemplar. Nesses espaços, ainda é comum que, em vez de apoio para mudar o estilo de vida, os participantes sejam bombardeados por insultos e até sugestões explícitas de autolesão. Também se vê discursos naturalizados de medicalização, incentivando o uso indiscriminado de hormônios.

“Não há nada de errado em buscar o autodesenvolvimento e realizar atividades de autocuidado. Contudo, não é isso o que está acontecendo nessas comunidades”, explica o sociólogo Michael Halpin, professor na Universidade de Dalhousie, no Canadá, e primeiro autor da pesquisa, em entrevista à Agência Einstein. “Homens que praticam o looksmaxxing acreditam que apenas a aparência importa, não se trata de cuidar de si mesmos ou entrar em forma, e isso está causando problemas sérios a essas pessoas.”

Os mais afetados por esse fenômeno são os mais novos. A adolescência é uma fase caracterizada pela construção da identidade, da imagem corporal e da inserção social. Dessa forma, é esperado e saudável que uma pessoa jovem se preocupe com a aparência, experimente diferentes estilos de roupa, cabelo e maquiagem, pratique esportes e cuide da pele. Também é relativamente comum que faça comparações ocasionais com seus colegas e deseje ser atraente. Tudo isso faz parte do processo de desenvolvimento.

“Quando falamos em um cuidado saudável com a aparência, estamos nos referindo a uma vaidade que melhora o bem-estar geral e a autoestima, coexistindo com outras fontes de construção de identidade, como amizades, esportes, estudos e valores pessoais”, avalia o psiquiatra Luiz Gustavo Zoldan, gerente médico do Espaço Einstein de Bem-Estar e Saúde Mental, do Einstein Hospital Israelita. “Nesse contexto, o jovem consegue aceitar suas próprias imperfeições e entender que aquilo não define o seu valor pessoal.”

A situação é preocupante quando a aparência passa a ser um pensamento excessivo, que causa vergonha, ansiedade, tristeza, isolamento e queda de autoestima. É justamente nesse momento de vulnerabilidade que discursos da machosfera podem prender a atenção, porque tendem a dar respostas simples para questões complexas e angustiantes, na percepção de alguém em sofrimento.

Grupos incel e redpill, que compõem a machosfera, oferecem um forte sentimento de pertencimento. Muitos chegam a esses espaços sentindo solidão, insegurança, fracasso ou rejeição, sendo recebidos por uma comunidade que afirma que eles não estão sozinhos. “O problema é que essa acolhida ocorre por meio de uma ideologia extremista, que, em vez de reconhecer que relacionamentos são complexos, diz que a rejeição aconteceu porque a pessoa não é alta, não tem músculos ou não possui uma mandíbula masculina”, aponta Luiz Gustavo. Essa narrativa reforça pensamentos que colocam a mudança comportamental e física como chave para se sentir pertencente e desejado.

Riscos do looksmaxxing

A exposição contínua a imagens de corpos idealizados e inatingíveis não causa, por si só, um transtorno mental. No entanto, a prática aumenta os fatores de risco para sofrimentos psicológicos, transtornos alimentares e sensação de dismorfia corporal. “O cérebro humano foi programado para realizar comparações sociais. Durante séculos, essas comparações foram feitas com algumas dezenas ou centenas de pessoas do convívio próximo. Hoje, porém, um adolescente pode ser exposto diariamente a milhares de pessoas nas redes sociais”, relata o psiquiatra.

Quando a aparência passa a ocupar papel central na vida, surge um fenômeno conhecido como auto-objetificação. Nele, a pessoa deixa de se enxergar como um indivíduo com diversas qualidades e passa a se perceber apenas como um objeto que será constantemente avaliado pelos outros.

Uma pesquisa publicada em 2022 na revista Current Opinion in Psychology concluiu que o uso abusivo das redes sociais causa uma série de efeitos nocivos sobre a autoestima. A exposição constante a padrões de vida e beleza idealizados intensifica a comparação social, levando muitos usuários a se sentirem inadequados ou inferiores. Além disso, a busca incessante por validação digital, por meio de curtidas, comentários e seguidores, fragiliza a autoestima, tornando-a dependente de fatores externos e voláteis.

Quando esse reconhecimento não acontece, surgem frustração, ansiedade, depressão e isolamento.
Ao manter uma vigilância constante sobre si mesma, fotografando-se repetidamente, monitorando o peso a cada refeição e verificando continuamente cada curtida ou comentário na rede social, a pessoa tende a aumentar seu nível de estresse. E isso pode engatilhar o desenvolvimento de transtornos alimentares, como anorexia, bulimia, compulsão alimentar e adesão a dietas restritivas.

Com relação à saúde física, os riscos também são diversos. “Os adeptos do bone smashing acreditam, sem amparo em evidências científicas, que, ao produzir microfraturas em seus ossos, eles crescerão mais salientes, dando um aspecto mais ‘masculino’ aos seus maxilares. Porém, mesmo que as pessoas apliquem golpes relativamente leves no rosto, fazer isso certamente prejudica o corpo”, diz Michael Halpin.

Deve-se considerar ainda os prejuízos do uso desnecessário e sem acompanhamento médico de hormônios. Quando se trata de ganho de massa muscular e força, não existe dose segura para se obter um “corpo perfeito”. Essas substâncias são indicadas para tratar exclusivamente casos de deficiência hormonal.

“Infelizmente, na prática clínica diária, observamos um aumento cada vez maior da busca e do uso irregular de esteroides anabolizantes, hormônio do crescimento e insulina para ganho de massa muscular”, revela a endocrinologista Andréa Messias Britto Fioretti, coordenadora do departamento de Endocrinologia do Esporte e Exercício da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). “Nenhuma dessas substâncias é indicada para esse objetivo, nem proporciona melhora estética sem provocar efeitos colaterais danosos.”

Os eventos adversos podem ser especialmente prejudiciais ao coração. Cresce o risco de cardiomiopatia hipertrófica, caracterizada pelo aumento do miocárdio, bem como de policitemia, um aumento no número de células vermelhas no sangue, tornando sua circulação mais lenta. Como os anabolizantes aumentam os níveis de LDL, conhecido como “colesterol ruim”, e reduzem os níveis de HDL, o “colesterol bom”, eleva-se o risco de infarto.

Além disso, essas substâncias podem causar alterações cerebrais, provocando atrofia do córtex cerebral, reduzindo a cognição e a memória, além de aumentar o tamanho da amígdala, região do cérebro relacionada à dependência química e ao abuso de drogas. “É por isso que muitos usuários se tornam reféns dos esteroides anabolizantes, saindo de um ciclo e iniciando outro sucessivamente, comportamento característico de dependência”, explica Andréa Messias.

O consumo dessas substâncias ainda pode estar associado a acne, queda de cabelo, alterações hepáticas, elevação do risco de lesões e tumores e maior risco de trombose. Nos homens, elas também provocam atrofia testicular, aumentando o risco de infertilidade. 

Caminhos para uma vida mais saudável

Os primeiros sinais de que um jovem pode estar envolvido com o looksmaxxing costumam aparecer na relação com a própria aparência. Dietas restritivas, prática compulsiva de exercícios físicos, interesse por procedimentos estéticos e mudanças corporais incompatíveis com a rotina podem indicar uma busca cada vez mais intensa por um padrão de beleza considerado ideal. Outro ponto de alerta é o consumo de conteúdos ligados à machosfera.

A preocupação passa a exigir maior atenção quando começa a comprometer a rotina e o bem-estar. Vergonha persistente, ansiedade, abandono de atividades sociais, sofrimento intenso relacionado à aparência ou a crença de que a vida só melhorará após mudanças físicas são sinais de que a pessoa precisa de ajuda. “Pais e responsáveis precisam estar atentos às mudanças de seus filhos. Eles também devem observar as informações às quais os adolescentes estão sendo expostos, bem como as companhias e os grupos com quem convivem”, orienta a coordenadora da SBEM.

Como forma de prevenção à saúde física e mental, os especialistas defendem estratégias que ampliem as fontes de autoestima para além da aparência. A recomendação é estimular a prática de atividades com foco no bem-estar, no prazer e na convivência social, fortalecer vínculos familiares, conversar sobre os conteúdos consumidos nas redes e desenvolver pensamento crítico sobre filtros, algoritmos e padrões de beleza. 

“Não é a preocupação com a aparência que determina a necessidade de ajuda profissional, mas o sofrimento e o prejuízo funcional decorrentes dessa preocupação”, resume Luiz Zoldan. Se o sofrimento passa a dominar o cotidiano, provoca isolamento, comportamentos compulsivos ou prejuízos à vida social e escolar, é indicado procurar ajuda psicológica ou psiquiátrica.

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Para Michael Halpin, o diálogo continua sendo a principal ferramenta de proteção. “Uma das melhores coisas que você pode fazer é conversar sobre essas questões com os jovens, para garantir que eles estejam recebendo orientação e apoio de pessoas fora da machosfera. Conversa sobre positividade corporal é um ótimo começo.”

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