Cerca de 80% dos pacientes diagnosticados com doenças autoimunes em todo o mundo são mulheres. O dado revela uma disparidade de gênero marcante, já que o público feminino é, em média, quatro vezes mais suscetível a condições como lúpus, esclerose múltipla, artrite reumatoide e outras doenças em que o sistema imunológico ataca erroneamente as próprias células e tecidos do corpo.
Atualmente, as doenças autoimunes estão entre as 10 principais causas de morte em mulheres com menos de 65 anos em todo o mundo, segundo o Núcleo de Estudos de Doenças Autoimunes (Nedai). “A própria evolução biológica que conferiu às mulheres um sistema imunológico mais aguerrido para enfrentar ciclos reprodutivos e partos, por exemplo, é o que as torna mais propensas a ataques do próprio organismo contra si mesmo”, conta Luís Eduardo Coelho Andrade, reumatologista e assessor médico da área de Imunologia do Grupo Fleury.
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Do lúpus à tireoide
Embora a média geral seja de 80%, a incidência varia drasticamente dependendo da patologia. No caso do lúpus eritematoso sistêmico (LES), a proporção chega a nove mulheres para cada um homem. Estatística semelhante é observada na colangite biliar primária e na doença de Sjögren (que causa secura ocular e bucal), ambas com proporção de 9 para 1. Em um nível intermediário, a esclerodermia afeta seis mulheres para cada homem, enquanto doenças da tireoide, como a tireoidite de Hashimoto, e a artrite reumatoide apresentam proporções de 5:1 e 4:1, respectivamente.
A "contradição" da força feminina
A explicação para essa vulnerabilidade reside em uma aparente contradição evolutiva. Historicamente, a mulher precisou de um sistema imune mais robusto para sobreviver a exposições críticas, como a menstruação e, principalmente, o parto, que na natureza representam grandes janelas para infecções potencialmente graves.
A maior propensão para doenças autoimunes em mulheres pode estar relacionada a uma adaptação evolutiva para proteger a vida de seus filhos. Já que tendem a produzir mais anticorpos do que os homens, são capazes de proteger tanto a elas mesmas quanto a seus bebês desde a gestação e até por meio do leite materno.
Além disso, o sistema imunitário feminino tem aspectos complexos únicos. Por exemplo, o feto em crescimento no útero tem grande proporção de componentes do pai, ou seja, componentes estranhos que deveriam ser atacados pelo sistema imunitário materno. No entanto, ocorre tolerância a esses componentes e o sistema imunitário acaba contribuindo para a nutrição e crescimento do feto.
“Essa força feminina, desenvolvida para ser mais resistente a infecções e tolerar componentes estranhos do feto, pode ser a mesma que torna a mulher propensa à autoimunidade. O preço por esse sistema mais robusto e complexo é que às vezes ele arruma ‘encrenca’ com o próprio corpo”, explica o especialista.
Possivelmente inseridos na própria herança evolutiva, destacam-se dois fatores biológicos determinantes:
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Hormônios: o estrógeno é um potente estimulador do sistema imune, aumentando a proliferação de células de defesa e a produção de anticorpos. Não à toa, a maior discrepância entre os sexos ocorre justamente na fase hormonalmente ativa (entre a puberdade e a menopausa).
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Genética: mulheres possuem dois cromossomos X, que carregam uma vasta quantidade de genes reguladores da imunidade. Mesmo com a inativação de um deles na maioria das células, muitas células ainda mantêm alguns genes do segundo cromossomo ativos, podendo gerar uma "dose dupla" de estímulo imunitário.
Para o ecossistema de saúde, o diagnóstico precoce é o maior desafio, pois essas doenças frequentemente se iniciam de forma perigosa e com sinais e sintomas inespecíficos. Embora os autoanticorpos (biomarcadores dessas condições) possam circular no sangue anos antes dos primeiros sintomas, eles também podem ser encontrados em indivíduos que não necessariamente vão desenvolver a doença.
No cotidiano das pacientes, o manejo exige:
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Equilíbrio
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Hábitos de vida saudáveis
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Disciplina em seguir as consultas médicas
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Tomar os medicamentos
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Fazer os exames periódicos
Dessa forma, uma jovem com diagnóstico recente de uma doença autoimune pode manter seus planos de vida familiares e profissionais. Uma vez que o estrógeno natural participa da predisposição à doença, a reposição hormonal ou o uso de anticoncepcionais devem ser cuidadosamente considerados. Embora não sejam proibidos de forma generalizada, seu uso e dose devem ser criteriosamente avaliados pelo médico, considerando-se o tipo de enfermidade e o grau de atividade da doença.
Recomendações e cenário atual
Atualmente, a medicina ainda não consegue prevenir o surgimento da autoimunidade em quem tem predisposição genética, mas hábitos de vida saudáveis contribuem para reduzir as chances de surgimento da doença e até mesmo para o seu controle. Sabe-se, por exemplo, que o estresse psicológico é um gatilho documentado para crises de lúpus e artrite reumatoide.
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“Uma vez feito o diagnóstico, além do tratamento medicamentoso, é fundamental manter a ‘condição higiênica’ de vida com atividade física, sono de qualidade, controle de peso e evitar o estresse excessivo. Se o paciente consegue uma vida equilibrada, isso contribui diretamente para o controle da doença”, destaca Luís Eduardo.
