Treino ajuda a preservar autonomia, cognição e capacidade de recuperação
Com mais de 34 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais, especialista alerta para a importância do exercício f´sico
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Mais do que um hábito saudável, a atividade física tem se consolidado como aliada importante para o envelhecimento com mais independência e qualidade de vida. No Dia Mundial da Atividade Física, celebrado em 6 de abril, Daniel Daniachi, ortopedista especialista em quadril do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, chama atenção para um ponto que vai além da prevenção genérica: manter o corpo em movimento ajuda a preservar massa muscular, mobilidade, saúde mental, convivência social e até a capacidade de enfrentar cirurgias e outros eventos de maior gravidade ao longo da vida.
Esse olhar ganha força diante de um cenário de rápido envelhecimento no país. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil chegou a 34,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais em 2024, faixa etária que já representa16,1% da população, aumento de 53,3% em relação a 2012. Já o relatório Vigitel Brasil, do Ministério da Saúde, mostra que 42,3% dos adultos das capitais brasileiras e do Distrito Federal atingiam, em 2024, o nível recomendado de atividade física no tempo livre.
“Quando falamos em atividade física, não estamos falando apenas de condicionamento ou estética. Estamos falando de preservar a capacidade de andar bem, levantar sozinho, manter equilíbrio, proteger as articulações, reduzir o risco de quedas e chegar mais forte aos desafios que o envelhecimento naturalmente impõe”, afirma o ortopedista.
Esse raciocínio aparece com clareza em uma meta-análise publicada no British Journal of Sports Medicine em 2022. O estudo mostrou que a prática de 30 a 60 minutos semanais de treino resistido esteve associada à redução de até 17% no risco de morte por câncer e doenças cardiovasculares e, quando combinada ao exercício aeróbico, essa proteção chegou a 40%.
Musculação e suplementação no envelhecimento
A popularização da atividade física entre pessoas mais velhas também tem ampliado o debate sobre musculação e suplementação na terceira idade. Entre as dúvidas mais comuns estão a prática de treino de força e o uso de suplementos alimentares como whey protein e creatina. Na avaliação do médico, o ponto central não é proibir ou liberar indiscriminadamente, mas considerar contexto clínico, orientação profissional e objetivo funcional.
No envelhecimento, o organismo passa por um fenômeno conhecido como resistência anabólica, em que a resposta do músculo à ingestão de proteína e ao exercício tende a ser menor. Por isso, estratégias como treino resistido, focado em aumento de força, aliado à ingestão adequada de proteínas podem ser úteis para preservar massa magra e força.
O whey protein, por exemplo, é um suplemento derivado do soro do leite que pode ser utilizado para complementar a ingestão proteica da dieta. Em pessoas idosas, ele pode ser uma alternativa prática quando a alimentação não consegue, sozinha,atingir a quantidade de proteína necessária para ajudar na manutenção da massa muscular.
Para pessoas que não consomem leite e derivados ou têm outras restrições alimentares, também há opções de proteínas em pó de origem vegetal, como as à base de soja, ervilha ou blends, que podem cumprir função semelhante dentro de uma dieta bem orientada.
Já a creatina é um composto naturalmente produzido pelo organismo e encontrado em alimentos de origem animal, como carnes e peixes. Ela atua no fornecimento rápido de energia para o músculo, por isso costuma ser associada ao ganho de força e ao melhor desempenho em exercícios resistidos.
Entre idosos, seu uso pode ser recomendado em alguns casos como estratégia de apoio à preservação da massa muscular e da função física, mas a indicação deve ser individualizada, considerando idade, função renal, histórico clínico,alimentação e acompanhamento profissional.
“Existe muito mito em torno do envelhecer. Idoso pode fazer musculação, pode treinar força e, em muitos casos, isso é desejável. A suplementação também pode ter papel importante, mas não deve ser vista como atalho. O principal continua sendo a combinação entre acompanhamento médico, treino adequado e rotina consistente”, completa.
Do músculo à memória
Os efeitos da atividade física também ultrapassam o sistema musculoesquelético. Um estudo publicado em 2025 no JAMA Network Open mostrou que níveis mais altos de atividade física na meia-idade e na velhice estiveram associados a menor risco de demência. Em comparação com o grupo menos ativo, os participantes com maior nível de atividade física apresentaram 41% menos risco de demência na meia-idade e 45% menos risco na velhice.
Esse vínculo é importante porque o declínio funcional raramente acontece de forma isolada. Em muitos casos, perda de mobilidade, isolamento, piora do humor, medo de cair e redução de estímulos cognitivos passam a se retroalimentar. A pessoa se movimenta menos, sai menos de casa, reduz interações sociais e entra em um ciclo que favorece fragilidade, tristeza e perda de autonomia.
Por isso, o especialista defende uma visão mais integrada da atividade física. Não se trata apenas de “fazer exercício”, mas de manter uma rotina que favoreça circulação, postura, mobilidade, equilíbrio, convivência e bem-estar. A própria socialização associada a práticas como aulas em grupo, caminhadas, academias e esportes é vista como fator protetor no envelhecimento.
“A longevidade saudável depende também da manutenção de vínculos e da participação na vida cotidiana. Nesse contexto, a atividade física funciona muitas vezes como porta de entrada para uma vida social mais ativa e para uma percepção mais positiva sobre o próprio envelhecimento”, completa.
Movimento como proteção contra fragilidade
Para além dos ganhos imediatos, o principal consenso entre os especialistas é que a atividade física ajuda a reduzir fragilidade. Uma pessoa frágil não é apenas alguém com uma doença, mas alguém com menor reserva funcional para reagir a estresses físicos, clínicos e emocionais.
Na prática, isso significa que manter uma rotina ativa pode influenciar não só a disposição do dia a dia, mas também a forma como o corpo responde a uma fratura, a uma cirurgia, a uma pneumonia ou a um período de internação. Mais do que prevenção de longo prazo, a atividade física ajuda o indivíduo a chegar mais forte aos momentos críticos da vida.
Na ortopedia, isso tem impacto direto sobre risco de quedas, fraturas e perda de mobilidade, mas a discussão também conversa com a alta complexidade. Um paciente com mais força, equilíbrio e reserva funcional tende a enfrentar melhor procedimentos cirúrgicos, períodos de imobilização, reabilitação e internações prolongadas, com mais chances de recuperar autonomia e retomar atividades do cotidiano. Nesse sentido, manter-se ativo ao longo da vida também contribui para chegar em melhores condições a situações clínicas mais exigentes.
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“O movimento é uma ferramenta de proteção. Ele ajuda a preservar força, estabilidade, coordenação e confiança corporal. Isso faz diferença na prevenção de lesões, mas também na recuperação quando algum problema acontece. Envelhecer com autonomia passa, necessariamente, por manter o corpo ativo dentro das possibilidades de cada pessoa”, ensina o ortopedista.