A sequela da quimioterapia que poucos conhecem
Médicos alertam para o potencial cardiotóxico dos medicamentos quimioterápicos e explicam como o coração artificial pode ser alternativa para casos graves
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O avanço da medicina oncológica trouxe uma conquista: cada vez mais pacientes sobrevivem ao câncer. Esse progresso, no entanto, revela um novo desafio – não provocado pela doença em si, mas por um de seus tratamentos mais conhecidos. A quimioterapia, essencial no combate aos tumores, está associada ao aumento do risco de complicações cardiovasculares severas, que podem se manifestar anos após a cura, e a alterações que dificultam ou até inviabilizam o acesso ao transplante cardíaco, quando necessário.
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O mês do Dia Mundial da Luta contra o Câncer, lembrado em 8 de abril, chama atenção para a importância do acompanhamento desses pacientes ao longo do tempo, diante do risco de complicações cardíacas.
Uma das razões para o impacto da quimioterapia é que determinados medicamentos utilizados nas sessões, como as antraciclinas, são reconhecidos pelo potencial cardiotóxico, podendo levar a uma disfunção progressiva do coração.
“O tratamento do câncer pode afetar a medula óssea, responsável pela produção das células do sangue, aumentando o risco de anemia, infecções e sangramentos. Nesses casos, as transfusões de sangue tornam-se parte essencial do cuidado de suporte, ajudando, por exemplo, a restaurar componentes sanguíneos e a estabilizar o organismo”, explica a médica Marina Fantini, especialista em insuficiência cardíaca e cofundadora da CardioWays.
Segundo a Diretriz Brasileira de Cardio-Oncologia, da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), sobreviventes de cânceres pediátricos têm até 15 vezes mais chance de desenvolver insuficiência cardíaca como consequência do tratamento, em diferentes níveis de gravidade e a depender também de variáveis genéticas. Em adultos, doses mais elevadas dos medicamentos podem aumentar em até 50% a incidência de insuficiência cardíaca.
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Quando o remédio também se torna vilão
Nos casos de insuficiência cardíaca grave, o transplante costuma ser uma das principais alternativas para aumento do bem-estar e da sobrevida do paciente. A questão é que o mesmo recurso que serve de alívio para os efeitos colaterais da quimioterapia – a transfusão – pode gerar impactos que limitem a possibilidade de substituição do órgão original.
“No tratamento, as transfusões em sequência expõem o organismo ao sangue de diferentes doadores, estimulando uma resposta imune natural e o aumento de um índice conhecido como painel de reatividade de anticorpos (PRA). Quando esse indicador está elevado, cresce o risco de o corpo rejeitar um órgão transplantado, o que pode inviabilizar o transplante e reduzir drasticamente a expectativa de vida de uma pessoa”, destaca Marina.
Ela acrescenta que a leucorredução, um processo de filtragem de leucócitos nas bolsas de sangue, ajuda a amenizar o impacto das transfusões sobre o PRA, mas ainda assim não elimina o risco de aumento do indicador, nem de uma futura inelegibilidade do paciente para o transplante cardíaco.
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Tecnologia abre caminho para pacientes afetados
Na impossibilidade de o paciente passar por um transplante de coração, uma das alternativas é o implante de um dispositivo de assistência ventricular esquerda (Dave), também conhecido como coração artificial. A tecnologia, ainda pouco difundida no Brasil, ajuda o coração original a bombear o sangue, mantendo o fluxo contínuo e estável. Ao garantir a circulação adequada, devolve ao paciente a capacidade de realizar atividades normais.
Com recomendação da Conitec, o coração artificial entrou para o rol da ANS em fevereiro de 2025, tornando obrigatória a cobertura das operadoras de saúde para o procedimento. O HeartMate 3 é o único do seu tipo autorizado pela Anvisa para implante no Brasil.
“Pacientes que desenvolveram problemas de saúde cardiovascular em virtude da quimioterapia, com taxas de exames que contraindiquem o transplante, são candidatos importantes ao uso do coração artificial, sendo a única alternativa para retomarem suas atividades normais e ganharem qualidade de vida”, conta a médica.
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De acordo com Marina, a sobrevida de pacientes que realizam o implante do coração artificial possui níveis semelhantes ao do transplante cardíaco tradicional. A recomendação para uso da tecnologia deve ser feita apenas após uma cuidadosa avaliação da equipe de saúde, que envolva uma visão cardiológica multidisciplinar do paciente.