ALÉM DA INFÂNCIA

TEA no Brasil: os desafios no cuidado a adolescentes e adultos no espectro

Psicóloga e neurocientista alerta para os desafios de uma geração autista que cresceu e demanda novas estratégias de cuidado, inclusão e autonomia

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O avanço do diagnóstico precoce do autismo nas últimas décadas trouxe ganhos importantes para milhares de crianças brasileiras. Hoje, cerca de 2,4 milhões de pessoas vivem no país com o transtorno do espectro autista (TEA), segundo estimativas baseadas em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

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A intervenção nos primeiros anos de vida, o maior acesso ao diagnóstico, à informação e a ampliação do debate público transformaram a forma como o autismo passou a ser compreendido no país. Mas, com a proximidade do Dia Mundial da Conscientização do Autismo, lembrado em 2 de abril, um novo cenário começa a ganhar visibilidade: essas crianças cresceram e o país ainda não estruturou respostas consistentes para os desafios da adolescência e da vida adulta no espectro.

Uma parcela significativa dessa população está hoje na adolescência ou já entrou na vida adulta, fase marcada por novas demandas sociais, emocionais e comportamentais.

Para a psicóloga e neurocientista Mayra Gaiato, uma das principais referências brasileiras em autismo, o país vive uma transição importante, ainda pouco acompanhada por formação profissional, suporte às famílias e políticas públicas.

“A área avançou muito quando o assunto é diagnóstico e intervenção precoce. Isso transformou positivamente a vida de muitas crianças. Mas essas crianças cresceram e o sistema ainda não acompanhou essa mudança”, afirma.

Da infância à adolescência: o desafio muda de escala

Se na infância o foco costuma estar no desenvolvimento da comunicação e na intervenção clínica, a adolescência acrescenta uma nova camada de complexidade.

Mudanças hormonais, maior exigência social, pressão escolar e construção de identidade tornam essa fase especialmente desafiadora e, muitas vezes, ainda pouco discutida no debate público.

Além disso, é comum que nessa etapa apareçam ou se intensifiquem condições associadas ao autismo, como transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), transtornos de ansiedade, depressão, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), distúrbios do sono e, em parte dos casos, ideação suicida. A presença dessas comorbidades amplia as demandas dos adolescentes no espectro, exigindo acompanhamento especializado e estratégias de cuidado ainda pouco estruturadas.

 

“Quando o autista chega à adolescência, surgem novas demandas: autonomia, relações sociais mais complexas, identidade, escolhas acadêmicas e profissionais. Existe um vazio de formação e de assistência nesse momento”, explica Mayra.

Estudos indicam que a maioria das pessoas autistas convive ao longo da vida com pelo menos uma condição associada, como ansiedade, TDAH ou depressão, fator que torna a transição para a adolescência e a vida adulta ainda mais sensível quando não há acompanhamento adequado.

Apesar do aumento no diagnóstico infantil, o debate público sobre autismo ainda permanece fortemente concentrado na infância.

Temas ainda pouco discutidos

Entre os aspectos menos abordados estão questões como sexualidade, autonomia e vida adulta. Apesar de fazerem parte do desenvolvimento de qualquer jovem, esses temas ainda são cercados por silêncio quando se trata de pessoas autistas.

“Negar ou evitar esses assuntos não protege. Pelo contrário, aumenta a vulnerabilidade. O adolescente autista também precisa aprender sobre limites, consentimento, relações e pertencimento”, destaca a especialista.

Outro ponto crítico é a preparação para a vida adulta. Inserção no mercado de trabalho, independência e construção de relações afetivas ainda são desafios enfrentados em silêncio por muitas famílias.

Famílias também enfrentam falta de orientação

Se, por um lado, houve avanço na informação voltada à infância, por outro, muitas famílias relatam insegurança ao lidar com os filhos adolescentes. “Quando a criança cresce, mudam as perguntas e os desafios. E muitas vezes faltam referências claras sobre como conduzir essa fase. Isso gera angústia e sensação de desamparo”, afirma Mayra.

O desafio colocado agora não é mais apenas diagnosticar o autismo na infância, mas construir caminhos concretos de inclusão ao longo de toda a vida.

Um desafio coletivo

Para especialistas, ampliar o olhar sobre o autismo ao longo do ciclo de vida é fundamental. Isso envolve não apenas profissionais da saúde, mas também escolas, universidades, empresas e políticas públicas.

“Não estamos falando apenas de saúde. Estamos falando de inclusão social, educação e oportunidades. O autismo acompanha a pessoa ao longo de toda a vida e a sociedade precisa estar preparada para isso”, reforça.

Com a chegada do 2 de abril, o debate sobre o autismo ganha mais visibilidade. Mas, para além da conscientização, especialistas defendem que é hora de avançar para uma nova etapa: garantir suporte real para adolescentes e adultos no espectro.

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“Quando tratamos o autismo apenas como um tema da infância, acabamos apagando a existência de milhões de jovens e adultos. E eles continuam precisando de apoio para viver com autonomia, dignidade e pertencimento”, afirma Mayra.

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