Neurodiversidade além do discurso: o papel da avaliação responsável
Neuropsicopedagoga revela os desafios no consultório, os erros mais comuns nos diagnósticos de TDAH e TEA e como família e escola podem promover autonomia
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Crianças e adolescentes neurodivergentes geralmente chegam ao consultório quando as dificuldades já estão gerando sofrimento real em casa, na escola e nas relações sociais. Segundo a neuropsicopedagoga Renata Haddad, as queixas mais frequentes envolvem desregulação emocional, sobrecarga sensorial, dificuldades de atenção e funções executivas, além de ansiedade, baixa autoestima e problemas de socialização.
“Quando falamos em neurodivergência, estamos falando de perfis que demandam compreensão e estratégia. Muitas vezes, o que intensifica o sofrimento não é apenas a condição em si, mas a cobrança inadequada, a incompreensão e experiências repetidas de exclusão”, afirma.
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Avaliação que vai além do rótulo
Para Renata, a avaliação neuropsicológica tem um papel central na construção da autonomia. “A avaliação transforma rótulos em mapa de funcionamento. Ela mostra o que a pessoa faz bem, o que exige mais energia e em quais contextos isso aparece”, explica.
Mais do que nomear um diagnóstico como transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) ou transtorno do espectro autista (TEA), o objetivo é construir um plano de suporte prático, com estratégias de organização, estudo, comunicação, manejo da ansiedade e autorregulação. “O resultado mais importante não é o nome, mas a redução do sofrimento e o aumento da independência com metas realistas e mensuráveis.”
Erros comuns nos diagnósticos
Renata alerta para um equívoco frequente: concluir um diagnóstico com base em poucos comportamentos isolados. “No TEA, por exemplo, não se pode avaliar apenas contato visual ou timidez. É preciso analisar comunicação social, padrões repetitivos, aspectos sensoriais, histórico do desenvolvimento e prejuízo funcional ao longo do tempo”, pontua.
No caso do TDAH, ela reforça que é essencial confirmar critérios como início na infância, presença dos sintomas em mais de um ambiente e impacto claro na vida acadêmica e social. “Também precisamos descartar fatores que podem imitar TDAH, como ansiedade, privação de sono, dificuldades específicas de aprendizagem e estresse crônico.”
Segundo a especialista, o diagnóstico responsável deve seguir critérios formais e envolver múltiplas fontes de informação. “Nomear um transtorno não é apenas dar um rótulo. É definir o caminho certo de suporte.”
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Entre patologizar e negligenciar
Evitar a patologização excessiva sem negligenciar intervenções é um equilíbrio delicado. Para Renata, duas perguntas orientam a prática clínica: há sofrimento? Há prejuízo funcional?
“Nem toda diferença vira transtorno. Mas toda dificuldade que gera sofrimento merece cuidado.” Ela defende um modelo em duas frentes: ajustar contexto e demandas — com adaptações e previsibilidade — e intervir diretamente nas habilidades que limitam a autonomia, como autorregulação e comunicação.
Inclusão que sai do papel
No ambiente escolar, a inclusão precisa ser prática. “Inclusão não é evento, é processo diário”, afirma. Entre as ações concretas, ela destaca planejamento pedagógico acessível, rotinas previsíveis, avaliação flexível e plano de apoio individual com metas e acompanhamento.
A formação da equipe escolar também é fundamental para compreender comportamento como forma de comunicação e aplicar estratégias de regulação emocional.
O que os pais costumam confundir?
Entre os equívocos mais comuns, Renata cita a ideia de que o laudo é uma sentença definitiva. “O laudo deve ser ponto de partida para suporte, não previsão de limite.” Outro erro recorrente é enxergar o diagnóstico como “problema da criança”, quando ele serve para orientar ajustes em casa, na escola e nas terapias.
Ela também ressalta que o documento, sozinho, não resolve a inclusão. “Ele abre portas, mas o que faz diferença é plano, acompanhamento e parceria.”
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Habilidades com respeito ao perfil
É possível desenvolver habilidades socioemocionais sem apagar traços neurológicos. “O objetivo não é parecer típico, mas participar com mais segurança e autonomia”, explica. Estratégias como modelagem, recursos visuais, previsibilidade e treino em situações reais respeitam o tempo de processamento e as necessidades sensoriais da criança.
Dificuldade pedagógica ou questão neuropsicológica?
A diferenciação exige análise cuidadosa. Se a dificuldade melhora claramente com adaptação de método e reforço adequado, pode ser pedagógica e transitória. Já alterações persistentes em atenção, memória de trabalho, linguagem ou autorregulação, presentes em mais de um ambiente, indicam necessidade de investigação neuropsicológica.
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“Transtornos do neurodesenvolvimento tendem a acompanhar a pessoa ao longo da vida. As intervenções aumentam muito a funcionalidade, mas não apagam o perfil. Por isso, cada caso precisa de um olhar individualizado”, conclui Renata Haddad.