ESTUDO BRASILEIRO

Os desafios do diagnóstico tardio de TEA em idosos

Pesquisa identificou mais de 300 mil pessoas com 60 anos ou mais com algum grau do transtorno do espectro autista no Brasil

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Estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que cerca de 70 milhões de pessoas no mundo vivem com algum grau de transtorno do espectro autista (TEA), condição do neurodesenvolvimento caracterizada por dificuldades persistentes na comunicação e na interação social.

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No Brasil, o Censo de 2022 investigou pela primeira vez dados sobre o transtorno no país. Embora o TEA seja tipicamente diagnosticado e manifeste seus sinais durante a infância, trata-se de uma condição que permanece ao longo da vida.

No entanto, um estudo do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde (PPGCS) da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), publicado em outubro de 2025 na revista International Journal of Developmental Disabilities, indica que o reconhecimento do TEA em adultos mais velhos ainda é limitado, tanto no que diz respeito ao diagnóstico quanto ao acesso a terapias adequadas – o que aponta para a necessidade urgente de políticas públicas específicas para essa população.

Com base nos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2022, pesquisadores detectaram que a prevalência autodeclarada de TEA entre indivíduos com 60 anos ou mais foi de 0,86%, o que corresponde a aproximadamente 306.836 pessoas. A análise indicou ainda que a taxa é ligeiramente maior entre os homens (0,94%) em comparação com as mulheres (0,81%).

Do ponto de vista das políticas públicas de saúde, esses dados reforçam a importância de desenvolver estratégias para a identificação e o apoio a adultos mais velhos com TEA. “A prevalência do TEA tem crescido nos últimos anos, porém a literatura científica nacional e internacional ainda é escassa em relação ao que se sabe sobre o TEA no contexto do envelhecimento”, afirma Uiara Raiana Vargas de Castro Oliveira Ribeiro, pesquisadora do PPGCS na PUCPR.

Uiara explica que pessoas que envelhecem no espectro tendem a apresentar redução na expectativa de vida e alta prevalência de comorbidades psiquiátricas, como ansiedade e depressão, além de maior risco de declínio cognitivo e de condições clínicas, incluindo taxas mais elevadas de doenças cardiovasculares e disfunções metabólicas.

Somado a isso, dificuldades na comunicação, sobrecarga sensorial e rigidez de comportamento podem dificultar ainda mais o acesso à saúde dessa população. “Portanto, o conhecimento em torno da prevalência do TEA em pessoas idosas no Brasil é o primeiro passo para compreender suas necessidades e assim subsidiar políticas públicas direcionadas a este público”.

Desafios no diagnóstico

Identificar o TEA em pessoas idosas é extremamente desafiador. Os obstáculos vão desde a falta de acesso a profissionais capacitados para a identificação do transtorno até as modificações nos critérios diagnósticos do TEA ao longo dos anos.

“Além disso, em idosos, manifestações do TEA como isolamento social, inflexibilidade, comportamento rígido e interesses restritos podem ser erroneamente interpretadas como características de outros transtornos ou sintomas de ansiedade, depressão ou demência. Por isso, o diagnóstico exige a observação de comportamentos presentes ao longo de toda a vida e a avaliação de profissionais qualificados”, explica a pesquisadora.

O diagnóstico tardio, segundo Uiara, é frequentemente recebido com alívio. Pessoas idosas sentem que isso oferece uma explicação para dificuldades interpessoais e sensoriais vivenciadas ao longo da vida, promovendo maior autocompreensão e aceitação. “Isso permite que experiências negativas sejam reinterpretadas como manifestações do autismo, reduzindo a autocrítica e o sentimento de inadequação”.

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Além de Uiara, assina o artigo a pesquisadora e professora da Escola de Medicina e Ciências da Vida e do PPGCS da PUCPR, Cristina Pellegrino Baena.

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