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Estado de Minas ENTREVISTA ESPECIAL

Felipe Conceição diz que acesso à Série A é viável para o Cruzeiro este ano

Em entrevista exclusiva ao Superesportes, técnico explicou detalhadamente suas ideias para reconduzir o Cruzeiro à elite nacional


01/04/2021 13:09 - atualizado 01/04/2021 13:29

(foto: Bruno Haddad/Cruzeiro)
(foto: Bruno Haddad/Cruzeiro)

O futebol pobre e resultados modestos neste início de 2021 fazem voltar à mente do torcedor do Cruzeiro o filme de 2020, temporada em que quase tudo deu errado para o clube, a ponto de amargar a permanência na Série B. Mas o homem encarregado de colocar o time no rumo das vitórias assegura que o fim deste ano será bem diferente. O técnico Felipe Conceição, de 41 anos, natural de Nova Friburgo-RJ, está muito confiante no acesso celeste à primeira divisão e diz que esse começo irregular faz parte de uma fase transitória. Dias melhores virão. 


“Sim (o torcedor pode sonhar com esse acesso). A gente acreditou neste projeto, aceitou a proposta e com esse objetivo principal no ano”, disse o comandante.

Em entrevista exclusiva ao Superesportes, que pode ser assistida acima ou ouvida em nosso podcast, Felipe Conceição explicou detalhadamente suas ideias para reconduzir o Cruzeiro à Série A. A base é a mudança do futebol reativo, herança dos últimos trabalhos, para um modelo de jogo mais agressivo e intenso. A maior velocidade das ações, segundo ele, expõe erros nesse começo. Mas, em breve, o encaixe será natural.

“Não é que a gente busque apenas o desempenho, mas o desempenho nos dará uma regularidade de resultados no futuro. O que a gente almeja é que no Campeonato Brasileiro a gente já esteja com essa consistência, com essa regularidade e com padrão já bem definido em todos os jogos”, projetou.

A confiança de Conceição se deve a trabalhos importantes na Série B à frente do América, em 2019, e do Guarani, em 2020. Em nenhum dos clubes o acesso foi alcançado, mas por resultados ruins de seus antecessores. O treinador promoveu reações sólidas. No Coelho, foi da lanterna ao quinto lugar. No Bugre, do 17º, no Z4, ao 13º.

“Trabalhamos bastante para o América voltar a ser competitivo e, naquele período, eu assumi na 10ª rodada e fizemos 56 pontos - da 10ª rodada até o final. Foi uma pontuação de líder. Não subimos porque nas 10 primeiras rodadas o América tinha feito apenas cinco pontos. Se ali tivesse pontuado mais, teríamos subido. O América deu continuidade ao trabalho, o Lisca acrescentou muitas coisas. O Guarani nunca foi uma equipe de jogar em bloco baixo e ser reativo. Sempre procurou propor o jogo. Agora, a gente pensa no Cruzeiro, pensa em mais um projeto consistente, para que a gente possa ver os frutos”, vislumbra.

No Cruzeiro, o desafio é apontado por Felipe como maior pela grandeza da instituição e pela pressão que existe em torno da volta à Série A. Não bastasse isso, o clube abandonou há alguns anos a sua tradição de jogo ofensivo. “É uma ruptura grande pelo passado recente do clube. Estamos confiantes neste processo e na nossa jornada na Série B. A gente está construindo, batalhando diariamente, para que esse processo seja acelerado e a gente já encontre esse padrão o mais rápido possível. O trabalho é para que a gente alcance um padrão de jogo dentro e fora de casa. Ser protagonista, ter a bola, ser agressivo em todas as ações do jogo”.

Nos seis primeiros jogos na temporada, os números do Cruzeiro são discretos: cinco gols feitos (média de 0,83) e quatro sofridos (média de 0,66). Em um século de existência do clube, este é o começo de ano com menor eficiência ofensiva. Nada que abale a confiança de Conceição. “A explicação está no momento de transição. Quando você aumenta a velocidade do jogo, quando você aumenta a agressividade e o volume, a tendência é que a eficiência técnica reduza. Isso eu já passei em outros clubes e é, de certa maneira, natural. Aqui a ruptura é maior do que tive em outros clubes. É um desafio maior, que requer mais tempo até pelas mudanças no elenco e o que o clube passou. São várias circunstâncias nesse processo mais trabalhoso. Mas não tenho dúvidas que estamos no caminho certo”.

Leia, a seguir, trechos da entrevista de Conceição ao Superesportes:

Você tem como grande objetivo este ano o acesso do Cruzeiro à Série A. Ao mesmo tempo, tenta implantar uma nova filosofia de jogo totalmente diferente daquela usada pelo Felipão. Acha que será possível conciliar um futebol mais vistoso e resultados ainda este ano? 

No momento em que a gente conseguir uma regularidade nisso que a gente está construindo, no desempenho, eficiência nas finalizações, nessas roubadas de bola no campo do adversário, os resultados virão e a consistência do nosso jogo aumentará. Não é que a gente busque apenas o desempenho, mas o desempenho nos dará uma regularidade de resultados no futuro. O que a gente almeja é que no Campeonato Brasileiro a gente já esteja com essa consistência, com essa regularidade e com padrão já bem definido em todos os jogos. 

A sua ideia é impor sempre aos adversários na Série B um estilo de jogo único do Cruzeiro, dentro e fora de casa, ou você prepara muitas variações? 

Sim. O trabalho é para que a gente alcance um padrão de jogo dentro e fora de casa. Ser protagonista, ter a bola, ser agressivo em todas as ações do jogo. É isso que estamos construindo, sabendo que não é fácil. É uma ruptura grande pelo passado recente do clube. Estamos confiantes neste processo e na nossa jornada na Série B. A gente está construindo, batalhando diariamente, para que esse processo seja acelerado e a gente já encontre esse padrão o mais rápido possível. Mas também entendendo o contexto de pré-temporada curta, de jogos em sequência, de um passado recente em que não se jogava assim.

É um momento de ruptura, de transição, e que estamos fazendo com muito trabalho, muito esforço para alcançar esse padrão, esse estilo de jogo, e uma regularidade, principalmente.

Pela sua experiência em Série B, pelo aprendizado do Cruzeiro em 2020 e pelo que tem visto do grupo, o torcedor pode mesmo sonhar com o acesso?

Sim. A gente acreditou neste projeto, aceitou a proposta e com esse objetivo principal no ano. Pouca experiência que tenho de Série B me dá possibilidade de saber que uma equipe neste torneio tem que jogar um jogo intenso e organizado. A intensidade de Série B é alta. Eu acho que, pegando um pouco da temporada passada, o Cruzeiro vem aumentando o número individual dos atletas no GPS, na questão de quilometragem percorrida, de alta intensidade. E também nos números coletivos. Estamos crescendo neste sentido. Estamos evoluindo.

Neste ano, a Série B será bem difícil. Não que seja mais difícil do que as outras, mas continuará elevando seu nível, coisa que vem acontecendo nos últimos anos. Estamos nos preparando para isso, para ser uma equipe intensa, competitiva, que jogue futebol, mas que também saiba competir e tenha intensidade alta.  

Você espera uma Série B polarizada entre o Cruzeiro e os grandes que caíram ou mais equilibrada? Quais os fortes candidatos na sua opinião?

Difícil prever. Depende do processo de início de ano de cada clube. A gente tem exemplos como do Cuiabá, que veio da Série C, disputou dois anos a Série B e cresceu a cada ano (e conseguiu o acesso à Série A). Existem equipes que permaneceram na Série B e têm processos de médio e longo prazo, que também vêm com trabalhos sólidos e em crescimento. São equipes que podem brigar.

Será equilibrada como a do ano passado, como a de outros anos, de muitas equipes poderem, no decorrer da competição, chegar ao G4. Vejo uma Série B competitiva neste ano e que a gente esteja preparado, cientes de que teremos que trabalhar bastante para vencer a cada partida. 

Você considera fundamental para o Cruzeiro subir como campeão?

Vamos sempre buscar o patamar máximo, até pela grandeza do Cruzeiro. Mas o objetivo principal é o acesso. Acho que se a gente tiver entre os quatro no fim do ano, a gente estará comemorando a volta à Série A, que é o lugar de onde o Cruzeiro não deveria ter saído. Todo o esforço vai ser para isso.

Você citou bem o trabalho do América, que não começou no ano passado. Começou em julho de 2019, quando eu assumi e traçamos um novo rumo. Trabalhamos bastante para o América voltar a ser competitivo e, naquele período, eu assumi na 10ª rodada e fizemos 56 pontos - da 10ª rodada até o final. Foi uma pontuação de líder. Não subimos porque nas 10 primeiras rodadas o América tinha feito apenas cinco pontos. Se ali tivesse pontuado mais, teríamos subido. O América deu continuidade ao trabalho, o Lisca acrescentou muitas coisas.

Agora a gente pensa no Cruzeiro, pensa em mais um projeto consistente, para que a gente possa ver os frutos.

Levantamento feito pelo site ‘Esporte News Mundo’ mostrou que o Cruzeiro tem, em 2021, o pior desempenho ofensivo de sua história nos primeiros seis jogos - são apenas cinco gols marcados. Ainda que a gente entenda que se trata de um início de trabalho, como você explica esse aproveitamento ofensivo tão ruim em um time que tem como principal filosofia a agressividade?

A explicação está no momento de transição. Não tem outra explicação. Quando você aumenta a velocidade do jogo, quando você aumenta a agressividade e o volume, a tendência é que a eficiência técnica reduza. Isso eu já passei em outros clubes e é, de certa maneira, natural. Aqui a ruptura é maior do que tive em outros clubes. O Bragantino era uma equipe que já jogava para frente e tinha volume ofensivo grande. O Guarani também, mesmo não tendo bons resultados na B, nunca foi uma equipe de jogar em bloco baixo e ser reativo. Sempre procurou propor o jogo.

A ruptura no Cruzeiro é uma ruptura maior. É um desafio maior, que requer mais tempo até pelas mudanças no elenco e o que o clube passou. São várias circunstâncias nesse processo mais trabalhoso. Mas não tenho dúvidas que estamos no caminho certo. 

Essa análise é fria se você pega só os números de gols. Tivemos 27 finalizações no primeiro jogo. A tendência é que, no decorrer do jogo, essas 27 finalizações em uma partida, muitas delas dentro da área - salvo engano foram 9 dentro da área -, se tornem dois ou três gols para nossa equipe. Nossa média é de 16, 17 finalizações (por jogo). A entrada no último terço do Cruzeiro é a maior do Campeonato Mineiro comparando com todas as equipes.

São números que demonstram que estamos no caminho certo. Essa falta de eficácia vai mundo dentro do que falei. Aumento da velocidade, aumento do volume, acostumar os atletas a jogarem nessa velocidade, nessa intensidade e manter o refino técnico. Essa é a adaptação. Com o tempo, automatização dos movimentos, com adaptação dos atletas, a eficiência será maior. E vamos transformar esse controle em gols e vitórias.

Você teve cerca de 10 sessões de treino neste período de paralisação em função do coronavírus. Antes do jogo contra o América, foram outras sete sessões. De forma objetiva, o que você espera observar de diferente na partida diante do Tombense, nesta quinta?

É um processo que não é linear. Ele vai ter oscilação. Mesmo tendo uma semana de treino antes do jogo contra o América, na verdade foram três ou quatro dias de treinos fortes. Véspera e antevéspera de jogo você reduz, pensando no jogo. Monta trabalhos de estratégia de jogo. Até esse corte do América, rodamos bastante a equipe. No jogo contra o América, mudei mais uma vez, porque acreditava que era hora de fazer essas experiências, variar funções naqueles que já jogaram em outras funções, como foi o caso do Ruschel por dentro. Era o momento de testar os jogadores, dar minutos a todos. Agora, é um outro momento. 

É um momento de montar uma base e dar crescimento a essa base. Não que não haverá alterações, pode ter suspensão, rendimento melhor, mas serão menos. Vocês conseguirão ver e saber mais ou menos qual a equipe do Cruzeiro entrará em campo daqui para frente. É a segunda parte do processo, que dá um crescimento maior no coletivo. Dá uma consistência maior. É isso que vamos buscar nos dois meses finais do Mineiro para iniciar bem o Brasileiro. 

Recentemente você disse que aguarda mais reforços para a Série B. O perfil deles será de jogadores mais experientes, como o Rômulo, ou atletas mais promissores?

Essa é uma análise mais complexa. Independentemente de ser jovem ou com a idade mais avançada, mas que tenham o perfil de um jogo de intensidade. A gente busca sim. Mas é algo complexo de dizer. Às vezes, numa posição, você tem um atleta mais experiente e não tem um jovem dentro da casa que possa te dar esse perfil. E aí você pode buscar um (reforço) jovem que vai fazer uma sombra para esse atleta mais experiente. Ou, com um determinado tempo, até ocupar a vaga dele num processo natural de disputa.

Em outra posição você pode ter um experiente e um jovem. Cito o exemplo do Manoel, um zagueiro experiente, que ajuda nesse processo que a gente está passando, e a gente tem o Weverton, que eu puxei. Fui assistir a um treinamento do time sub-20, puxei e hoje está integrado ao profissional e precisa de espaço (para jogar). Então você vai trazer um zagueiro para ocupar essa segunda posição ou brigar pela titularidade? Você põe o Weverton para terceira opção? Se fizer isso, você atrapalha o processo de um jovem muito promissor dentro do clube. Essa análise é mais complexa do que simplesmente falar que o treinador quer um jogador mais jovem, mais experiente.

Não se define um perfil só por isso. O importante é o Cruzeiro sair vencedor este ano e conseguir o acesso. E, com o tempo, essa roda vai girar e talvez você veja um time mais jovem, mais intenso, com mais perfil de médio e longo prazo. Mas o importante este ano é o acesso. Temos que estudar cada caso, entender cada caso. O que for melhor para o clube a gente vai fazer.

E as posições?

As posições também tem a ver com isso. Claro que, em algumas, isso fica mais claro. Tenho só o Cáceres na lateral direita e estou trabalhando o Ramon, trabalhei o Geovane, ambos da base. Essa é uma posição que, hoje, a gente pode trazer um atleta para brigar por posição com o Cáceres. Ou, daqui a um mês, eu posso falar que o Ramon foi (está pronto). Ele se desenvolveu, teve uma evolução enorme e eu dou uma segurada naquele lateral-direito que a gente estava mapeando no mercado. Estou dando um exemplo de como o processo é dinâmico.

A gente tem algumas posições em que a gente já olha, mapeia, sabe que pode continuar sendo uma carência no elenco, mas isso é dinâmico e muda de acordo com o processo. Daqui a um mês pode estar resolvido. Teria o Cáceres, que sustenta a posição, e o Ramon, de 20 anos, que para a Série B pode dar conta do recado. Nesse caso, o clube não precisa mais gastar dinheiro, ir no mercado e trazer, uma vez que eu tenho um ativo dentro do clube. É um processo dinâmico.

Não posso passar para vocês os nomes que a gente está mapeando, até pela concorrência do mercado, mas estamos fazendo, analisando e, a cada semana, reavaliando. Tem que ser assim, não temos muita margem para erro este ano. O Cruzeiro não pode contratar 20 jogadores e mandar embora outros 15, botar para treinar à parte outros 15. Isso faz mal, seja financeiramente seja numa gestão de grupo.

A gente tem que ter esse trabalho consistente, sabendo que vamos ter esse início doloroso, sabendo que precisa crescer em todos os aspectos. Mas sabendo também que esses atletas do Mineiro vão ter uma evolução, temos que acompanhar essa evolução, ver até onde eles vão conseguir responder, para, aí sim, ir pontualmente no mercado e trazer as peças para deixar o time mais forte no Brasileiro.

Embora tenha conseguido realizar alguns pagamentos pontuais nos últimos meses, o Cruzeiro segue com débitos com o grupo de jogadores. Até que ponto isso atrapalha o seu trabalho?

O clube não são duas partes, é uma parte só, e tudo influencia: a questão financeira, a questão do ambiente, a questão do relacionamento, a questão do passado, de superar isso e olhar pra frente. Tem vários pontos que a gente trabalha no dia a dia e não é só a questão tática. 

Sobre a questão financeira, o que a gente tem procurado fazer e tem construído com os atletas?

Todos estão envolvidos e querem ajudar o Cruzeiro. O Cruzeiro vem de um ano difícil, a questão financeira ainda está num processo muito delicado. E cabe a nós nos tornarmos uma equipe forte, competitiva, uma equipe que vai avançar nas competições. Porque isso também ajuda a trazer patrocinadores, trazer receitas com os torcedores. Enfim, se a equipe for bem dentro de campo, a gente vai ajudar o clube a equalizar essa questão também.

Esse trabalho que falo para vocês, que é de médio e longo prazo, dos jogadores da base, em que eu citei o Weverton como exemplo, que a curto prazo já estamos conseguindo integrá-lo num elenco profissional, isso também vale muito.

O valor de um Weverton, o valor de jogadores jovens dentro do clube, jogando... Eu fiz isso no América, vários atletas lá que até hoje jogam e são jovens que integram uma equipe profissional. No Guarani, a gente fez esse processo mesmo com o carro andando. Foi Renanzinho, foi Matheus Souza, foi Eliel, todos eles atletas de 2000, 2001, atletas abaixo de 20 anos. Teve ainda o Vitor Ramon, que estreou contra o Cruzeiro no Mineirão. Enfim, isso ajuda muito o clube e temos que fazer isso aqui também. Seja dentro de campo, com resultado, porque isso vai ajudar o clube a conquistar receitas, seja através desses atletas jovens a médio e longo prazo.

Porque falo a médio e longo prazo? Porque você não pode passar a responsabilidade toda para eles num primeiro momento. Você tem que montar uma equipe competitiva, uma equipe organizada e que esses atletas jovens, aos poucos, entrem na equipe e deem um retorno esportivo e financeiro. É esse o trabalho que a gente está fazendo.

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