Publicidade

Estado de Minas entrevista/Lisca/Técnico do América

Promessa é Coelho na elite

Treinador projeta time forte na B, ri do rótulo de 'doido' e realça perfil de estudioso


postado em 12/07/2020 04:00 / atualizado em 11/07/2020 22:03

(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press %u2013 9/2/20)
(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press %u2013 9/2/20)

''O time está pronto. Já são oito semanas de treinamento. Então, a gente se sente bem preparado, bem treinado. Obviamente, vamos ter de alternar a equipe neste primeiro momento''


O jeitão enérgico e vibrante como conduz as equipes à beira de campo faz de Lisca um personagem carismático no futebol brasileiro. Ao mesmo tempo em que se diverte com o apelido, o técnico do América mostra, em entrevista exclusiva ao Estado de Minas, que o rótulo de “doido” é apenas um folclore e há vasto conteúdo a ser compartilhado. Ele projeta América e Cruzeiro na Primeira Divisão na próxima temporada.

Luiz Carlos Cirne Lima de Lorenzi, de 47 anos, chegou a integrar as categorias de base do Internacional, clube pelo qual seu bisavô, Carlos de Lorenzi, e avô, Jorge de Lorenzi, atuaram como goleiros. Garante que era um centroavante de bom cabeceio, posicionamento e leitura de jogo, embora não tivesse um chute 
tão qualificado.

Ao longo da carreira, emplacou trabalhos notáveis. Em 2013, quando recebeu o apelido de “Doido”, conduziu o Juventude ao acesso da Série D para a C como vice-campeão. Além disso, em 2015, salvou o Ceará da queda para a Terceira Divisão, assim como em 2018.

No América, sua contratação em janeiro, para substituir Felipe Conceição, tem sido eficaz. O Coelho lidera o Estadual e está na terceira fase da Copa do Brasil.

Num bate-papo de quase duas horas, Lisca abriu o jogo sobre seus planos, a presença do Cruzeiro como adversário, o estudo tático intenso, a formação de jovens nas categorias de base e o sonho de se tornar um profissional de ponta no Brasil.

Quem são os favoritos ao acesso na Série B deste ano?

É um cenário diferente para todos nós, até para análise de adversário e da competição. A Série B sempre tem muitos candidatos. Neste ano tem a participação do Cruzeiro, não tem como deixar de ser o carro-chefe. Realmente, é um dos favoritos, não tem como negar. Eles estão em uma situação difícil, estão se transformando, mas, como a gente falou, já estão com novo treinador, um novo grupo de profissionais. Agora, são 12 equipes que estão muito acostumadas a jogar Séries A e B e que vão participar. O América sempre figura entre os postulantes também. No ano passado, a gente bateu na trave, ficou aquele gostinho amargo. Então, realmente é uma Série B que, por tudo que aconteceu e por todo o cenário, está indefinida, mas com vários postulantes.

Como você avalia o rival Cruzeiro pelo elenco que tem, o treinador e o estilo da competição?

É um Cruzeiro diferente. Enderson Moreira é um treinador experiente, acredito muito no trabalho e no conhecimento dele, até para trazer jogadores com experiência para o Cruzeiro neste momento difícil. Vejo uma evolução natural. Esse tempo foi importante para eles, talvez o time que mais tenha ganho com essa parada tenha sido o Cruzeiro. É uma competição diferente porque são “quatro campeões”, são quatro que alcançam o objetivo principal, que é o acesso à Série A. Então, vejo a possibilidade de os dois mineiros subirem juntos, tanto o Cruzeiro quanto o América.

O Enderson Moreira falou que está montando um Cruzeiro 'intragável' para os adversários. Como define o que será o seu América?

A gente quer uma equipe competitiva, que saiba jogar dentro e fora de casa e tenha um padrão de jogo bem definido. Que tenha variações importantes de estilo, de parte tática e de formação. O padrão pode ser o mesmo, apesar de que na Série B tem algumas circunstâncias em que você precisa fazer um jogo mais direto, de imposição física, de mais competitividade. O América até agora tem sido um time intragável, em 12 partidas não perdeu, vem fazendo bons jogos, encarando os adversários de peito aberto.

O América vinha em um momento positivo no início do ano, não só com bons resultados, mas também com bom desempenho em campo. Você vê o time pronto para a disputa da Série B?

Dentro de todo o contexto que a gente está encontrando, o time está pronto. Já são oito semanas de treinamento, as quatro últimas semanas foram liberadas para uma competitividade e intensidade maiores, com os contatos e as disputas – e isso é uma parte importante do jogo. Então, a gente se sente bem preparado, bem treinado.

Como conciliar o Campeonato Mineiro com a disputa da Série B?

Vamos cuidar dessas últimas duas semanas. Agora, é preparar os microciclos em ritmo e nível de jogos, talvez dois jogos por semana, que será a frequência. Tem de cuidar muito também da parte muscular dos jogadores. Obviamente, vamos ter de alternar a equipe neste primeiro momento.

Fazendo um exercício para o futuro, caso o América suba à Série A, de que modo poderá competir com equipes com orçamento bastante superior, como são os casos de Flamengo e Palmeiras?

Com trabalho, não tem outro jeito. Obviamente, o clube também tem de evoluir para que chegue a um nível de receita aceitável para que você possa fazer um bom trabalho e bata nesses maiores orçamentos. Uma maior igualdade na divisão de cotas seria interessante, é um processo que está caminhando, o próprio Salum (Marcus, presidente) puxa muito esse processo, como tem acontecido na Premier League, que a cota que os clubes menores têm acesso dá a eles condições de contratar grandes jogadores e fazer bons times.

O América é um celeiro de craques. Pelas peças que estão subindo, há atletas com muito talento e qualificação que o clube historicamente tem?

Tem. E eu gostei muito do que vi aqui. É um clube que fomenta muito esse tipo de trabalho. A tradição do América é enorme. Euller, Fred, Gilberto Silva, Palhinha, Ronaldo Luís e por aí vai. Estou muito satisfeito com os meninos que estão integrando o plantel profissional com muita qualidade de treinamento. Sempre destaco que há estágios. Alguns estão em um estágio um pouco inicial, começando, e outros num estágio bem aceitável e com totais condições de jogar. É o caso do Carlos (Alberto), uma das principais apostas do clube. Tem 18 anos, já está no profissional e é um cara muito agressivo no um contra um.

Você recebeu o apelido "Lisca Doido" por ser muito enérgico em suas comemorações, tendo ganho até música da torcida do Ceará. Como lida com esse rótulo? 

Isso ficou muito forte no Juventude. Depois foi para Náutico e Ceará. Na Série A de 2018 se divulgou muito. Aqui em Minas, quando eu ando, vários torcedores do Cruzeiro e do Atlético me param, cantam a música, dizem que torceram e vibraram juntos. No América também. Tem esse lado legal e positivo do personagem.  Muitas vezes as pessoas não me conhecem, principalmente no mercado, entre os clubes maiores. O Salum foi um que falou isso comigo. Ele me conhecia de longe, mas conversou com os presidentes do Ceará, do Paraná, com alguns jogadores. Me ligou, já vinha acompanhando a minha carreira, as minhas participações nos programas, onde pude falar sobre a minha história, falei de conteúdo. Agora, tem o lado negativo, porque o doido é pejorativo. Estou tentando desmitificar esse lado pejorativo, mas não me incomoda nem um pouco. Só me incomoda ficar o personagem e não falar de conteúdo, de trabalho, da carreira.

Por trás do Lisca “Doido" há um profissional que se aprimora bastante no estudo do futebol. Quanto tempo passa avaliando modelos de jogo? Qual o padrão que mais lhe agrada? Em quais profissionais se inspira?

Comecei muito cedo a ler sobre futebol, em 1996 ou 1997. Está até aqui comigo o livro (Futebol – 120 jogos de ataque e defesa) de um alemão, Rolf Mayer. Ganhei em 1997, do meu pai, já falando sobre a integração das valências em sessão de treinos. Hoje se fala de periodização tática, de fazer as partes física, técnica, tática e mental em uma sessão, colocando os conceitos, trabalhar com a bola desde o início. Eu já faço isso desde 1997. Vivo futebol há 30 anos, quase 24 horas por dia. E continuo lendo e estudando muito. Hoje em dia, você tem muito acesso ao futebol europeu. O Liverpool, o Felipe (Conceição) usou como base para fazer muitas situações no América. Eu já vim com um conceito de variação de sistema, variação tática. Tenho observado muito o (Jurgen) Klopp, muito o futebol inglês. A ideia de jogo, a pressão alta e a reação pós-perda são coisas que o futebol brasileiro está começando a crescer com a questão do Jesus, do Sampaoli. Alguns treinadores da nova geração estão vindo com a compactação no campo ofensivo. Continuo lendo livros. Gosto bastante dos livros do Phil Jackson.

Como e quando espera alcançar o status de técnico de ponta no Brasil?

Mostrando trabalho, crescendo no mercado e tendo competência quando jogar contra os clubes maiores, para que eles possam, um dia, pensar em abrir espaço para ti. Criando metodologias novas. Estou com 47 anos, uma idade de maturidade para treinador, buscando as conquistas, o espaço. Muitos treinadores cresceram depois dos 48, 50.


*Para comentar, faça seu login ou assine

Publicidade