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Estado de Minas

Governo cancela transferência simbólica da capital para Matias Cardoso

A alegação é de contenção de gastos. Oposição vê desrespeito à Constituição Mineira e ataca decisão


postado em 08/12/2019 06:00 / atualizado em 08/12/2019 21:06

Igreja matriz de Matias Cardoso: cidade seria palco neste domingo de solenidade com entrega de medalhas(foto: Oliveira Junior/divulgação)
Igreja matriz de Matias Cardoso: cidade seria palco neste domingo de solenidade com entrega de medalhas (foto: Oliveira Junior/divulgação)

Hoje seria dia de movimentação, presença de autoridades em Matias Cardoso, no Norte de Minas, onde em anos anteriores houve a transferência simbólica da capital do estado para a cidade em 8 de dezembro, por conta da comemoração do Dia dos Gerais, instituído oficialmente desde 2011. Mas, no lugar de festa, frustração. Alegando contenção de despesas, diante das dificuldades financeiras, o governador Romeu Zema (Novo) suspendeu a solenidade do Dia dos Gerais, cancelando também a entrega de medalhas que aconteceria durante a cerimônia.
A suspensão do evento gerou protestos de lideranças norte-mineiras e também por parte da oposição ao governador. O primeiro a dar o grito foi o deputado federal Paulo Guedes (PT), que foi o primeiro signatário da proposta de emenda à Constituição Mineira, promulgada em dezembro de 2011, que instituiu a comemoração do Dia dos Gerais como uma das três datas magnas do estado – as outras duas são 21 de abril (Inconfidência Mineira, em Ouro Preto) e 16 de julho (Dia de Minas, em Mariana).

“Ao suspender a comemoração do Dia dos Gerais, o governador (Romeu Zema) está desrespeitando a Constituição do estado, que diz que, em 8 de dezembro, a capital do estado deve ser transferida simbolicamente para Matias Cardoso. Ele está cometendo um ato de desobediência constitucional”, dispara Paulo Guedes. O petista lembra que o Dia dos Gerais baseado em estudo histórico que mostrou a importância de Matias Cardoso na ocupação do território mineiro no século 17. Ele salienta que o antigo povoado de Morrinhos foi fundado antes do Ciclo do Ouro, em 1650. Da mesma forma, a Igreja Nossa Senhora da Conceição (padroeira de Matias Cardoso) é apontada por historiadores como a primeira construída em solo mineiro, tendo sido erguida em 1695.

O parlamentar afirma que a alegação de economia de gastos pelo governo do estado não tem fundamento. “Esse argumento não se justifica porque se trata da comemoração de um fato histórico. Poderia ser feita uma solenidade simples, sem maiores despesas, numa tenda, na Câmara Municipal ou mesmo na igreja de Matias Cardoso”, diz Paulo Guedes.


Discriminação 


A medida do governo estadual também foi criticada pelo professor e antropólogo João Batista Almeida Costa, da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), autor de estudos sobre a ocupação do território mineiro usados na criação do Dia dos Gerais. Para ele, o cancelamento da solenidade é uma forma de discriminação com o Norte de Minas.

“Existem três datas magnas na Constituição Mineira que preveem a transferência simbólica da capital do estado para Ouro Preto (21 de abril), Mariana (16 de julho) e Matias Cardoso (8 de dezembro). Se o governador cancelasse os eventos nas três cidades, ele estaria tratando todas igualmente. Mas, se cancela (a solenidade) só em Matias Cardoso, ele mostra desrespeito ao Norte de Minas. Também demonstra que não conhece a história da região”, avalia Costa.

O antropólogo afirma que o “povo catrumano” teve importância ímpar na ocupação do território de Minas Gerais e ajudou a “consolidar a sociedade mineira”. Segundo ele, os “Gerais” (Norte de Minas) surgiram antes das “Minas” (Ouro Preto e Mariana, Ciclo do Ouro). De acordo com o pesquisador da Unimontes, em 1720, o Conselho Ultramarino de Portugal decidiu pela criação da Capitania das Minas Gerais,” a partir da incorporação da região das Minas aos Gerais”. “O território do Norte de Minas foi ocupado originalmente pelos indígenas e depois pelos descendentes de africanos com os seus quilombos. Na sequência, chegaram os paulistas, vieram os nordestinos. Mais tarde se formaram os mineiros”, descreve João Batista Almeida Costa.

Para o integrante do Movimento Catrumano (que defendeu a criação do Dia dos Gerais), Paulo Ribeiro (sobrinho do antropólogo Darcy Ribeiro), a suspensão da solenidade de Matias Cardoso neste domingo “constitui mais um capítulo de desrespeito ao Norte de Minas e com a história da região”, demonstrando também a desarticulação entre as lideranças norte-mineiras.

O que diz o estado


O governo do estado, por meio de sua assessoria, justificou que suspendeu a comemoração do Dia dos Gerais em Matias Cardoso por causa da “delicada situação financeira”, que atribui a um “rombo” de R$ 34,5 bilhões “deixado pela gestão anterior”. Também justifica que é intenção do atual governo extinguir algumas solenidades de comendas para “evitar gastos significativos” ao estado. “Nesse sentido, outros eventos, que eram de praxe em gestões passadas, também poderão deixar de ser promovidos”, conclui.


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