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Estado de Minas

Entenda o que está por trás das alfinetadas entre Bolsonaro, Huck, Dória e Frota

De olho na disputa presidencial, o presidente reage às críticas de ex-aliados e de possíveis adversários, como o governador de São Paulo e o apresentador


postado em 17/08/2019 06:00 / atualizado em 17/08/2019 07:44


Ainda no primeiro ano à frente do Palácio do Planalto, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) enfrenta disputas políticas com possíveis adversários na eleição presidencial de 2022. Nessa sexta-feira, ele aumentou o tom das críticas a Luciano Huck citando empréstimos contraídos pelo apresentador junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para compra de um jatinho particular.

Dois dias antes, Huck criticou o presidente durante debate sobre o futuro do país. A filiação do deputado Alexandre Frota ao PSDB ontem, em São Paulo, colocou o governador João Doria, outro possível concorrente ao governo federal, em rota de colisão com Bolsonaro.

Frota foi expulso nesta semana do PSL após atacar o governo, principalmente a indicação do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL) para a embaixada nos EUA. O ministro da Justiça, Sérgio Moro, outro cotado para 2022 e elogiado publicamente por Doria, também foi alvo de Bolsonaro. O presidente interferiu no quadro da Polícia Federal (PF), no Rio de Janeiro, que desagradou a integrantes da direção do órgão.

Ontem, ao deixar o Palácio da Alvorada, Bolsonaro voltou a fazer referência a Huck prometendo divulgar dados do BNDES sobre compra de jatinhos. “Ele falou que sou o último. Como é que é... o último capítulo do caos. Se ele comprou jatinho, ele faz parte do caos”, declarou. Na última quarta-feira, Huck fez discurso ao lado de políticos e lideranças do movimento RenovaBR em Vila Velha (ES) criticando o governo.

“A gente precisa de gente nova na política, com todo o respeito a esse governo. Esse governo foi eleito de maneira democrática. Mas não acredito que a gente está vivendo o primeiro capítulo da renovação. Para mim, estamos vivendo o último capítulo do que não deu certo”, disse.

Bolsonaro rebateu as críticas no dia seguinte, durante transmissão ao vivo nas redes sociais, e ontem afirmou que há dados do BNDES mostrando R$ 2 bilhões de financiamentos para compra de aviões particulares a uma taxa de 3% a 4% ao ano.

“Parece que não foi legal”, comentou. A diferença dos juros para compensar o banco, acrescentou, foi paga pelos brasileiros. “É justo fazer isso aí? Então, não vem um cara... se porventura ele estiver lá... Não fica arrotando honestidade aí... que o bicho vai pegar”, afirmou. A reportagem procurou a assessoria do apresentador para comentar as declarações do presidente, mas ele não se manifestou.

Uma decisão de Bolsonaro sobre a mudança na chefia da PF no Rio de Janeiro abriu crise entre o órgão, o Planalto e o ministro Sérgio Moro. Em pouco mais de 24 horas, o presidente demitiu o superintendente do Rio (Ricardo Saadi, que já tinha demonstrado intenção de sair nas próximas semanas), criticou o nome que estava indicado para o cargo (Carlos Oliveira) e que havia sido aprovado por Moro, e deu como certa a escolha do delegado Alexandre Silva Saraiva, de quem é próximo.

“Quem manda sou eu. Vou deixar bem claro. Dou liberdade para todos os ministros, mas quem manda sou eu”, afirmou. A interferência de Bolsonaro na PF sob comando de Moro gerou queda de braço dentro do órgão. Horas depois, em tom mais ameno, Bolsonaro deu nova entrevista e explicou o motivo de sua escolha: “Sugeri o (superintendente) de Manaus. Se vier o de Pernambuco não tem problema”.

A mudança decidida pelo presidente na PF foi mais um episódio que mostra que Bolsonaro não tem poupado Moro. Nomeado como principal e mais popular integrante da equipe de governo, o ex-juiz da Operação Lava-jato sofreu derrotas seguidas nos últimos meses.

Bolsonaro determinou que ele desconvidasse uma suplente do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, apoiou a retirada do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) da Justiça para a pasta da Economia e ignorou ponderações de Moro ao apresentar seu segundo decreto de armas.

Frota faz duras críticas


Expulso do PSL após criticar medidas do governo, o deputado Alexandre Frota se filiou ao PSDB a convite do governador paulista João Doria. O ex-ator foi um dos mais próximos de Bolsonaro durante a campanha de 2018 (chegou a ser cotado para o Ministério da Cultura), mas desde abril entrou em disputa com o filho do presidente, deputado Eduardo Bolsonaro, pelo controle do partido em São Paulo.

 Nas últimas semanas, aumentou o tom das críticas ao governo, principalmente sobre a indicação de Eduardo Bolsonaro para a embaixada nos Estados Unidos. Ele também ficou insatisfeito com a recusa dos nomes que indicou para a Agência Nacional de Cinema (Ancine).

A decisão da cúpula do partido em expulsar o deputado teve apoio direto do Planalto e Bolsonaro chegou a ironizar o ex-correligionário dizendo que nem sequer o conhecia. A filiação ao PSDB contou com atuação intensa de Doria, que se coloca como concorrente à Presidência em 2022 e trabalha para mudar a imagem dos tucanos. Frota recebeu convite de outras sete legendas, entre elas DEM, MDB e PRB.

Ao mesmo tempo em que criticou Bolsonaro, Frota passou a elogiar o tucano paulista e a citá-lo como futuro presidente do Brasil. “Doria presidente dará dignidade ao país. Bolsonaro tem viés ditatorial. Um deputado que não concorda com ele é expulso do partido. Um ministro que não compactua com a vontade do filho dele é demitido”, afirmou.

Em entrevista à revista Época, Frota fez novas críticas: “Estou aliviado de não ter mais o peso Bolsonaro nas minhas costas. Isso não é ser Judas, como a milícia dele tenta pintar.”  Frota cita o “sacrifício” que fez para ajudar Bolsonaro em 2013.

“Muitas vezes, ele ficava assustado, com medo da CUT, do PT e do MST, e eu trazia amigos de minha academia para fazer a segurança dele. Eu o buscava no aeroporto, disponibilizava carro blindado. Levei-o a rádios e televisões, levei-o para restaurantes populares. Em Curitiba, eu o carreguei nos ombros do aeroporto ao trio elétrico. Saí na porrada com o PT por causa dele, participei de todas as manifestações. Dobrei várias pessoas que não queriam votar nele. Eu acreditei”, completa o deputado. (Com agências)



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