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Estado de Minas

Divinópolis: um município no centro do embate entre PT e PSDB

Obras de hospital paradas e falta de saneamento refletem caos da saúde no estado. Discussão em programas eleitorais revela o jogo de empurra de autoridades


postado em 16/09/2018 07:00 / atualizado em 16/09/2018 07:35

Iniciada em 2011 e interrompida desde 2016, construção de unidade hospitalar no Centro-Oeste põe cidade na campanha eleitoral(foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A.Press)
Iniciada em 2011 e interrompida desde 2016, construção de unidade hospitalar no Centro-Oeste põe cidade na campanha eleitoral (foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A.Press)

Divinópolis – Cidade-polo do Centro-Oeste mineiro, Divinópolis virou palco da disputa política entre os candidatos ao governo Antonio Anastasia (PSDB) e Fernando Pimentel (PT) nas eleições. No embate entre os favoritos na corrida eleitoral, segundo as pesquisas, tucano e petista transformaram a cidade em cenário de problemas de saúde pública, como a falta de hospitais e de saneamento, numa síntese do que ocorre na maioria dos municípios do estado. Em meio à troca de acusações e ao empurra-empurra de responsabilidade entre prefeitura e governo estadual, o Estado de Minas foi até a cidade, a 120 quilômetros de Belo Horizonte, e constatou que, longe dos holofotes, a população de mais de 200 mil habitantes convive com o drama da falta de atendimento médico e de condições sanitárias adequadas.

O tucano acusa o petista de descaso com a saúde, usando como exemplo, em sua campanha, a paralisação das obras de um hospital em Divinópolis. Em vídeo exibido no horário eleitoral com imagens da obra inacabada, Anastasia afirma que “o atual governo não colocou aqui (no hospital) um tijolo e é muito triste ver isso, um conjunto de ferro e aço apodrecendo, enquanto tantas pessoas e tantas famílias, precisam do atendimento a saúde”. Em contraponto o atual governador diz que em sua gestão a cidade recebeu um dos maiores volumes de investimento em saneamento de todos os tempos. Na cidade, as obras do Hospital Público Regional, iniciadas em 2011, na gestão do ex-governador Anastasia, estão interrompidas desde 2016. Mesmo com 80% da construção concluída, não há previsão de data para entrar em operação.

Em bairros no entorno da futura unidade de atendimento hospitalar, a população convive com a ausência de captação de esgoto, o que sobrecarrega o Hospital São João de Deus, único da cidade e referência no acolhimento de cidadãos de 54 municípios da região, um contingente de 1,2 milhão pessoas. A unidade está sob intervenção do Ministério Público desde agosto, por não honrar compromissos financeiros. A cidade, de 213 mil habitantes, segundo a prefeitura, conta ainda com uma unidade de pronto-atendimento (UPA) atendendo a outros três municípios: Carmo do Cajuru, São Gonçalo do Pará e São Sebastião do Oeste, uma demanda para 290 mil habitantes.

Pimentel afirma em sua campanha que a construção das estações de tratamento de esgoto (ETE) Itapecerica e Ermida, iniciadas no começo de 2017, somadas a 74 quilômetros de redes interceptoras de esgotos nas bacias dos rios Itapecerica, Pará e Ermida, vão tratar 100% do esgoto recolhido no município. Na vizinhança do futuro hospital, situado na divisa dos bairros Realengo e Jardim Alterosa, não há ligação residencial à rede pública de esgoto. Os moradores utilizam fossas. Em outro ponto da cidade, no Jardim Copacabana, projeto do programa Minha casa, minha vida inaugurado em 2016, as fossas sépticas são divididas entre duas moradias. Entretanto, algumas residências estão ligadas clandestinamente à rede de esgotos inacabada. O resultado é que as bocas de lobo expelem toda a água fétida pelas ruas do bairro.

Dura realidade Nas ruas, a conclusão do hospital e a infraestrutura de saneamento são apontadas pela população como necessárias. A dona de casa Rosimayre Aparecida Euzébio, que mora com o marido e dois filhos a dois quarteirões da futura unidade de saúde, relata as dificuldades quando necessita usar o sistema público de saúde: “Para chegarmos à UPA gastamos por volta de uma hora. A espera para atendimento é desesperadora. Já cheguei a esperar por sete horas, depois da triagem. Quando começaram as obras do hospital ficamos esperançosos. Mas há pelo menos dois anos não vejo nenhuma movimentação no canteiro de obras”.

Assistente Social, Aline Lara considera ambas as obras “muito importantes”. Sua casa, na Rua B, Jardim das Alterosas, não conta com rede de esgoto pública. “Utilizamos o sistema de fossa e dependemos da prefeitura para fazer a limpeza com certa frequência, isso agrava problemas de saúde em todo o bairro. Não temos um sistema de transporte rápido e quando alguém adoece precisa pedir ajuda a vizinhos que possuam automóveis para deslocamento até a UPA ou ao hospital, ambos muito longe”.

Dona de casa, Maria de Fátima Batista Castro confessa que “não confia mais em promessas de políticos”. Moradora há 12 anos no Bairro Jardim Alterosa disse que ao ver a movimentação no canteiro de obras teve suas “esperanças renovadas. Mas durou pouco e agora estamos aqui vendo o mato crescer em volta do hospital. É desolador”, completa.

No Bairro Belvedere II, o autônomo Eli Máximo Moreira, morador há 15 anos, confirma a falta que faz uma nova unidade de referência para atendimento à saúde da população. “Este hospital é muito importante para a melhora e rapidez no atendimento a pacientes”. Ele reclama da ausência de rede de esgoto e acredita que ela é em parte responsável pelas doenças acometidas principalmente pelas crianças da região. “Precisamos de ambas: rede de captação e tratamento e de hospital que atenda às nossas necessidades e emergências”.

A gravidade da situação é evidente nas ruas do Bairro Jardim Copacabana, onde vive o pedreiro Alex Silva Lima. “Quando me mudei para o bairro, no contrato de compra e venda constava ruas urbanizadas, água, luz e esgoto. Esperamos por seis anos e até agora nada de pavimentação e captação”. De acordo com Alex, a rede existe, mas os moradores não podem conectá-la devido à ausência de “caixa diluidora”, para conduzir o esgoto às estações de tratamento.

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