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Metrópolis, uma obra sob a sombra do nazismo é lançada no Brasil

Escritora alemã The von Harbou produz ótimos romances e roteiros para o cinema, mas sua filiação ao Partido Nazista acabou ofuscando sua vida e sua obra


postado em 29/11/2019 06:00 / atualizado em 29/11/2019 07:53

Cena do filme Metrópolis, ícone do expressionismo alemão, roteirizado por Thea von Harbou e dirigido pelo marido, Fritz Lang (foto: Divulgação)
Cena do filme Metrópolis, ícone do expressionismo alemão, roteirizado por Thea von Harbou e dirigido pelo marido, Fritz Lang (foto: Divulgação)

Uma cidade-máquina futurista chamada Metrópolis comandada por uma elite parasita que vive na superfície e controla e explora a classe operária, sufocada no subterrâneo. O roteiro básico é do filme do cineasta alemão Fritz Lang (1890-1976), lançado em 1927 e considerado um marco múltiplo do cinema, principalmente do expressionismo alemão, pela inovação das técnicas de filmagem e também berço da ficção científica nas telas. Essa obra clássica do cinema mudo é conhecida de qualquer cinéfilo ou amante de cinema. Mas por trás dela existem históricas polêmicas desconhecidas do grande público: a vida e o talento da roteirista, atriz e escritora alemã Thea von Harbou (1888-1954). Casada com Lang, ela fez o roteiro do filme e ainda antes da primeira exibição em 1927 lançou o livro Metrópolis em 1926, que estava até hoje inédito no Brasil, mas chega agora em edição de luxo, com textos extras e ilustrações do filme, com capa preta dura, pela Editora Aleph, traduzida diretamente do alemão, com comentários da edição, detalhes da vida do casal e críticas e polêmicas da época de personalidades conhecidas, como o cineasta espanhol Luis Buñuel (1900-1983) e o escritor britânico H. G. Wells (1866-1946).

A história se passa em 2026 – um século após a produção –, quando ricos industriais governam a grande cidade de Metrópolis, de arranha-céus, e operários subterrâneos trabalham constantemente nas máquinas que geram energia para a cidade. O dono de Metrópolis é Joh Fredersen. Seu filho Freder, que leva a vida praticando esportes, é surpreendido pela chegada da jovem Maria, que traz um grupo de crianças pobres para conhecer o estilo devida de luxo dos ricos. Freder fica fascinado por Maria e desce para a cidade dos trabalhadores para encontrá-la, mas tem outra surpresa.
Fritz Lang foi precursor do cinema mundial não só por Metrópolis, sua obra máxima, mas outras emblemáticas, como M, o vampiro de Dusseldorf e A mulher na luta, também roteirizadas por Thea. Metrópolis trata da urbanização acelerada e da mecanização do trabalho com acirramento das desigualdades sociais dentro de uma cidade opressora. Hoje, visto a distância, é considerado clássico precursor do cinema mundial, mas causou polêmicas na agora longínqua década de 1920.

Metrópolis foi escrito inicialmente em forma de roteiro para cinema por Thea e depois romanceado apenas quando o filme de Lang já estava pronto. De encher os olhos e contundente para a época, por causa do tema de embate social, e muito longe ainda da criação da computação gráfica, a obra impressiona pela esplendora narrativa audiovisual em preto e branco, grandiosidade de planos e cenários, as interpretações caricaturais típicas do expressionismo e o tempo que consumiu. Foram 17 meses de filmagem, milhares de figurantes, inclusive dezenas de crianças, considerada a produção mais cara da época.

Se hoje é quase unanimidade, não escapou de críticas após o lançamento. Parte da intelectualidade de esquerda atacou. O crítico Axel Eggebrecht desdenhou do filme por exaltar o “misticismo social” e negar a “lógica inabalável da luta de classe”. Filme e livro também foram acusados por apontar tendências “reacionárias” e até “protofascistas”. “A representação dos trabalhadores em Metrópolis como escravos descerebrados que se tornam destrutivos foi comparada aos ideais neoconservadores da época que pregavam o retorno de uma ordem social estruturada em hierarquias que traria as massas descontroladas de volta aos trilhos”, afirma a cineasta Marina Person, em texto incluído na obra lançada no Brasil.

O editor de ficção científica em língua alemã Franz Rottensteiner lembra na edição brasileira a reação do cineasta espanhol Luis Buñuel. “Ele o chamou de uma ‘história trivial e bombástica, incômoda e de um romantismo estagnado’, mas, em contraste, em sinfonia emocionante de movimento! Como as máquinas cantam em meio a maravilhosas projeções, coroadas de triunfo por descargas elétricas! Todo o cristal do mundo, dissolvido nos mais sensacionais reflexos de luz, flui nessas canções da tela moderna. O brilho cintilante e o reluzir do aço, a interação rítmica de rodas, pistões e composições mecânicas inimagináveis até então; uma ode indescritivelmente bela, uma poesia complementar nova para os nossos olhos. Por um milagre, física e química se transformam em ritmo”, afirmou Buñuel.

Em contraponto, o britânico Herbert George Wells, conhecido como H. G. Wells – autor dos clássicos A guerra dos mundos, A máquina do tempo, A ilha do dr. Moreau e O homem invisível – não perdoou. Ele publicou crítica no The New York Times, em 17 de abril de 1927, e chamou o filme de “extremamente idiota”. Rottensteiner explica: “Wells critica negativamente o filme/romance por sua estrutura vertical, pela falsa imagem de uma cidade moderna. Bem acima vivem o capitalista-chefe Joh Fredersen e os ricos ociosos com suas diversões luxuosas, como no Clube dos Filhos e em seus Jardins Eternos, enquanto lá nas entranhas da cidade os trabalhadores, escravos sem direitos, se esfalfam em turnos de dez horas sob a ditadura do relógio. Wells argumenta racionalmente que exatamente é a mesma estrutura vertical do romance mencionado (ou de A máquina do tempo, no qual os morlocks, descendentes dos antigos trabalhadores industriais, vivem em profundidades ctônicas, enquanto os elois, semelhantes a borboletas, se refestelam nos domínios ensolarados) e que não corresponde ao desenvolvimento urbano real. Embora os centros de negócios e entretenimento possam se elevar às alturas, a população está se mudando para a periferia para que os fabricantes possam ficar mais ricos, precisa haver alguém para comprar os produtos manufaturados. Trabalhadores escravos empobrecidos de forma alguma podem ser consumidores”, ressaltou o autor inglês.

ADMIRAÇÃO DE HITLER

Apesar de seu talento criativo como escritora e roteirista, Thea von Harbou acabou eclipsada pelo nazismo. Envolvida pelo nacionalismo contagiante da Alemanhã das décadas de 1920 e 30, ela se filiou ao Partido Nazista em 1932 e ainda assumiu a presidência da Associação Alemã de Filmes Falados, alinhada à Câmara de Cultura do Reich. O próprio Adolfo Hitler considerava Metrópolis um “filme extraordinário, que enfatizava o triunfo de uma comunidade mediante o surgimento de um líder messiânico. É mais do que provável de que ele se identificasse com o herói do filme, o jovem Freder, comparando os objetivos do seu próprio movimento nazista com a pseudolibertação alcançada pelos trabalhadores quando eles voluntariamente se curvaram para aceitar o governo de Fredersen”, conta Marina Person.

A parceria e o casamento de Lang e Thea teriam terminado por causa do assédio nazista. Goebbels, o ministro da propaganda da Alemanha, teria convidado o casal para trabalhar com ele. Entre diferentes versões, inclusive de traições conjugais mútuas, o fato é que Lang abandonou a Alemanha em 1934 e foi morar em Paris, deixando Thea para trás envolvida com o nazismo. Depois da guerra, Thea foi presa e forçada a trabalhar em um campo britânico para recolher escombros do conflito. Ela teria alegado em depoimentos que sua colaboração com o nazismo foi apenas fachada para ajudar imigrantes indianos – ela tinha uma amante de nacionalidade indiana – a fugir da Alemanha. Lang nunca voltou à Alemanha. Seja qual for a verdade, Thea von Harbou deu contribuição inestimável para o cinema com seus romances roteirizados para o cinema. Metrópolis, livro e filme, mesmo com defeitos, é uma obra admirável em todos os contextos.

TRECHO DO LIVRO

“Maria não se atreveu a se mover, nem sequer se atreveu a respirar. Não fechou as pálpebras, tremendo de medo de que em um piscar de olhos pudesse surgir e alcançá-la um novo terror. Ela não sabia quanto tempo havia passado desde que as mãos de Joh Fredersen se fecharam ao redor da garganta de Rotwang, o grande inventor. Os dois homens estavam nas sombras; e, ainda assim, parecia à garota que os contornos de suas duas figuras permaneciam como linhas de fogo na escuridão: a força de Joh Fredersen em pé, que lançava as mãos como duas garras, o corpo de Rotwang, que pendia e era arrastado para longe por essas garras, cruzando finalmente uma porta que se fechara atrás dos dois. O que estava acontecendo por trás dessa porta? Ela não ouvia nada. Espreitava como todos os seus sentidos, mas não ouvia nada, nem o menor som. Minutos se passaram, infinitos minutos.... Não se escutava um som sequer, nem passo nem grito. Ela estava respirando ao lado do quarto onde acontecera o assassinato?”


METRÓPOLIS
• De Thea von Harbou
• Editora Aleph
• Tradução: Petê Rissati
• 416 páginas
• R$ 99,90


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