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Estado de Minas CASO NAJA

Ibama põe 10 pessoas e clínica veterinária sob suspeita de tráfico cobras

Relatório do Ibama aponta ligação entre o estudante Pedro Henrique dos Santos, picado por uma naja, e um estabelecimento veterinário que funciona na Asa Norte e trabalha, exclusivamente, com atendimento a animais exóticos e silvestres


29/07/2020 08:15

(foto: Material cedido ao Correio)
(foto: Material cedido ao Correio)
Um relatório do Instituto do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) revela forte conexão entre Pedro Henrique dos Santos Krambeck Lehmkuhl, 22 anos — picado por uma naja kaouthia —, e uma rede internacional de tráfico de animais silvestres e exóticos que envolve, pelo menos, 10 pessoas, incluindo a mãe, o padrasto e os amigos de Pedro.

Há evidências de que parte desses espécimes possam ser oriundos no Brasil, o que agrava a situação, segundo avaliação do instituto. O Correio Braziliense obteve acesso ao documento, que aponta o suposto envolvimento de uma clínica veterinária, localizada na Asa Norte, em Brasília, no mercado ilegal.

O estabelecimento, Exotic Life, oferece atendimento exclusivo para animais silvestres e exóticos, em Brasília. As investigações sobre a participação da clínica no esquema criminoso começou após o Instituto Brasília Ambiental (Ibram) apreender, em 14 de julho, uma jiboia em uma residência, na região do Colorado. A serpente estava em condições de maus-tratos e, segundo informou a proprietária da casa, o animal pertencia à filha, que residia em Goiânia (GO).

A filha, no entanto, afirmou, por telefone, aos fiscais, que a cobra havia sido levada pelos antigos donos à Exotic Life, onde, em decorrência do tratamento caro, foi abandonada pela pessoa que detinha a guarda da serpente. A moça disse que os próprios profissionais do estabelecimento não assumiram a continuidade de tratamento e que o médico veterinário repassou o animal para ela.

O Ibama considera que a situação expôs questões relevantes para a investigação, como o fato da clínica atender animais sem origem legal, “como se fosse uma atividade normal”. A clínica, onde Pedro Henrique estagiou, já havia sido autuada em duas ocasiões, em uma delas, o Ibama responsabilizou a Exotic Life por dificultar a fiscalização em relação a diversos animais ilegais flagrados no estabelecimento. Após o caso, o site da Exotic Life foi desativado.

Nas redes sociais, a clínica apresenta inúmeros espécimes exóticos e silvestres, para servirem de animais de estimação. Segundo o Ibama, todos seriam “indubitavelmente” ilegais, tais como naja, jararaca-do-cerrado, uma espécie de jararaca que vive na amazônia, pítons, porco espinho pigmeu e um camaleão. Em um dos comentários escritos na página da Exotic Life, um cliente diz que “foi aí que peguei minha cobra nova”.

Procurada pelo Correio, a clínica veterinária esclareceu que a acusação “é novidade” e que não teve acesso ao relatório. “Estamos sabendo dessas informações apenas por meio de reportagens. O advogado da Exotic Life está se inteirando do assunto. Iremos nos manifestar assim que tivermos acesso a mais informações”, afirmou. Em ligação, o estabelecimento negou faça a comercialização de qualquer tipo de animal.

Investigação

Com base no relatório do Ibama, caso se confirme que os animais ilegais sejam oriundos do Brasil, há a possibilidade de uma fonte de contaminação doméstica, o que implica em menor valor dos espécimes e uma maior facilidade de obtê-los.

Pedro Henrique é investigado pela polícia por suspeita de integrar um esquema de tráfico internacional de animais exóticos e silvestres. Nas redes sociais, o estudante de medicina veterinária esbanjava fotos com cobras, inclusive com a naja que o picou. Em uma das publicações, ele escreve: “Balaio, bebida, combo. Só ilusão, dinheiro bem gasto é na compra de répteis.”

O suposto esquema de tráfico de animais envolve pessoas próximas a Pedro, como a mãe dele, a advogada Rose Meire Candido dos Santos; o padrasto, o tenente-coronel da PMDF Clóvis Eduardo Condi; servidores do Ibama — acusados de liberarem licenças ilegais para o transporte de animais —; e de outros três amigos, incluindo Gabriel Ribeiro de Moura, preso por atrapalhar as diligências.

Gabriel é quem teria ocultado as 16 serpentes, capturadas pelo Batalhão de Polícia Militar Ambiental (BPMA) no Núcleo Rural de Planaltina, e soltado a naja, que atacou o amigo, próximo ao shopping Pier 21. Mais nomes estão envolvidos na investigação, como um veterinário da clínica Exotic Life e funcionários. Há a suspeita de que Pedro estava com Gabriel Ribeiro no dia do incidente com a naja, em 7 de julho.

Procurada pela reportagem, a advogada de Gabriel, Juliana Malafaia, disse que não iria se manifestar. 

“Elemento chave”

Gabriel Ribeiro está detido, temporariamente, na Carceragem da Polícia Civil. A Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente e Patrimônio Cultural (Prodema) foi favorável à prisão do estudante. Segundo a Prodema, o rapaz é “elemento chave” nas investigações e um dos responsáveis por destruir e ocultar provas.


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