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Estado de Minas FECHOU

Hong Kong: lágrimas e resistência na despedida do jornal pró-democracia

Jornal mais popular de Hong Kong publicou sua última edição nesta quinta-feira (24/6)


24/06/2021 09:03 - atualizado 24/06/2021 09:31

(foto: / AFP / Anthony WALLACE)
(foto: / AFP / Anthony WALLACE)
Quando os jornalistas do jornal pró-democracia Apple Daily prepararam a edição final não tiveram que ir muito longe para encontrar a notícia da primeira página: ela estava à porta.

Com seu estilo conflituoso, comentários ácidos e, às vezes, de mau gosto, o jornal mais popular de Hong Kong publicou em sua última capa uma foto de seus jornalistas se despedindo de centenas de apoiadores, após 26 anos de atuação.

"Moradores de Hong Kong dizem adeus na chuva: 'Apoiamos o Apple Daily'", diz a legenda da foto da primeira página da última edição do jornal.

O Apple Daily é a última instituição de Hong Kong a ser atingida pela lei de segurança nacional que Pequim impôs à cidade no ano passado para eliminar a dissidência, após os enormes protestos pró-democracia de 2019.

As autoridades usaram a lei para congelar seus bens e para deter cinco executivos na semana passada. Seis dias depois, o jornal encerrou as atividades.

'Sentimento complicado'

Dentro da redação, na quarta-feira à noite, as lágrimas correram enquanto os trabalhadores elaboravam a última edição. Alguns tiraram fotos em grupo e se encorajaram.

"Tentamos fazer o nosso melhor até o último momento", comentou um designer gráfico que se identificou como Kwok, enquanto jornalistas de outros meios de comunicação documentavam o momento histórico de sua indústria.

"É um sentimento complicado", acrescentou Kwok.

Um fotógrafo que não quis se identificar disse que a redação estava com mais repórteres do que o normal na última noite, quase como uma reunião ou um funeral.

"Foi a oportunidade de reunir todos os colegas, foi um momento histórico", comentou à AFP, embora tenha admitido que há pouco otimismo.

"Não parece bom para o futuro das notícias, liberdade de imprensa e indústria noticiosa de Hong Kong", acrescentou.

Por toda a noite, uma multidão de simpatizantes fez vigília em frente ao jornal, entoando palavras de ordem ou mensagens de incentivo e piscando as luzes de seus telefones celulares.

Ocasionalmente, um dos que estavam dentro do prédio saía para uma varanda e respondia com a luz de seu próprio telefone.

Alan Tso, de 30 anos, disse que lia o Apple Daily há 12 anos e assegurou que naquela manhã mandou uma caixa de maçãs para a empresa quando soube que era o último dia de circulação.

Ele deixou uma carta manuscrita de três páginas no portão da empresa na qual dizia: "Obrigado por permanecer em seus postos e relatar as notícias todos os dias para os habitantes de Hong Kong".

Tso comentou à AFP que "o Apple Daily representa o espírito daqueles que se atrevem a fazer a coisa certa. Não comprarei outro jornal quando o perder".
(foto: AFP / Daniel SUEN)
(foto: AFP / Daniel SUEN)

"Hong Kong sem futuro"

Um homem de máscara amarela, que se identificou pelo sobrenome Chow, escreveu uma mensagem no portão principal do jornal.

"Acho que Hong Kong não tem futuro. Nunca teremos a velha Hong Kong de volta porque a lei de segurança nacional aboliu a liberdade de imprensa, liberdade de expressão e liberdade de reunião", lamentou Chow.

Pouco depois da meia-noite, as primeiras cópias começaram a sair e a equipe foi distribuí-las ao público fora da sede.

Muitos apoiadores choravam, outros gritavam slogans pró-democracia e apertavam a mão de alguns dos funcionários.

Uma fila de compradores se formou no distrito de Mongkok, com centenas de pessoas esperando para obter uma cópia da edição histórica.

Uma mulher de 38 anos que se identificou pelo sobrenome Cheung disse que leu o jornal nas últimas duas décadas.

"Parece ridículo para mim o que eles fizeram com o Apple nos últimos dias", declarou à AFP.

"Uma empresa com boas vendas e reserva monetária tem que fechar por causa de um governo que a acusa de ameaçar a segurança nacional e congela seus ativos. É como viver sob o regime militar de Mianmar", afirmou Cheung.


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