UAI
Publicidade

Estado de Minas PREVENÇÃO EM JOGO

Programa contra uso de drogas usado em MG é ineficaz, diz estudo

Segundo pesquisa, modelo americano levado a escolas desde 1998 foge à realidade brasileira, o que prejudica resultado. PM garante que houve adaptações


01/12/2021 04:00 - atualizado 01/12/2021 08:20

Policial em classe durante sessão do Proerd em escola pública mineira
Policial em classe durante sessão do Proerd em escola pública mineira: mais de 3,6 milhões de estudantes já participaram do programa, que tem custo médio anual de R$ 375 mil e participação média de 560 policiais militares (foto: PMMG/Divulgação)
Responsável por atender mais de 3,6 milhões de estudantes de escolas públicas mineiras desde que foi implantado, em 1998, o principal programa de prevenção à violência e ao abuso de drogas do estado foi considerado ineficaz por um estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Fapesp. A conclusão do levantamento, apresentado nas revistas International Journal of Drug Policy e Prevention Science é de que o Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (Proerd) não foi adaptado culturalmente de uma ação norte-americana da qual foi inspirado à realidade das crianças e adolescentes brasileiras e por isso se mostrou ineficaz.

Há questões e métodos que foram meramente traduzidos de inglês para português. Para a Polícia Militar de Minas Gerais (PM), entretanto, a forma de avaliação não contempla os ganhos na conscientização que o programa traz. A corporação informa, ainda, que há adaptações linguísticas e culturais em Minas Gerais.

Em seu último relatório, de 2018, o Proerd apresentou um custo médio anual de R$ 375.647,07, desde 2002, sem correções, sendo que não há mais injeção de recursos federais desde 2005, apenas estaduais e da PM. Desde 2003, são capacitados e designados para atuar no Proerd, em média, 560 policiais militares por ano. Em 2019, foram 580. Esse efetivo atendeu, no mesmo período, uma média anual de 2.863 escolas em 390 municípios mineiros.

Adaptado de uma ação norte-americana, chamada Drug Abuse Resistance Education (D.A.R.E.) ou Resistência ao Abuso de Drogas na Educação, o Proerd é levado aos colégios pelas polícias militares dos estados brasileiros, sendo que em São Paulo é obrigatório por lei estadual desde 2019. “No Brasil, não foram feitos ajustes à realidade dos estudantes e (o programa) nunca havia sido avaliado”, afirma Zila Sanchez, professora do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina (EPM-Unifesp) e coordenadora do estudo.

O Proerd é baseado nas teorias de aprendizagem socioemocionais e treinamento de resistência. No estudo da Unifesp/Fapesp conduzido em 30 escolas paulistas, foram analisados dois currículos, por meio de ensaios clínicos randomizados de 4.030 alunos, sendo 1.777 alunos do 5º ano e 2.303 alunos do 7º ano. O grupo de intervenção recebeu 10 aulas do Proerd ministradas por policiais treinados, e o grupo de controle não recebeu nenhuma intervenção. A coleta de dados foi realizada por meio de questionários autoaplicáveis em smartphones em dois momentos (linha de base pré-intervenção e acompanhamento de nove meses). Os desfechos avaliados foram iniciação e uso recente de drogas.

Não foram percebidas diferenças significativas entre os grupos que receberam e não receberam a intervenção na prevenção do uso de álcool e drogas. Em uma pequena parcela que já fazia o consumo de até cinco doses de álcool em até duas horas antes de passar pelo programa, houve até três vezes mais chance de manter essa prática do que no grupo que não participou do programa. Os estudantes que receberam a intervenção relataram ainda uma maior intenção de experimentar tabaco e de aceitar oferta de maconha no futuro.

Com base nos resultados, os especialistas recomendam que o Proerd, que está presente em todos os estados brasileiros, seja reformulado levando em conta as diferenças culturais entre os dois países e o nível educacional dos estudantes brasileiros. “Percebemos que muitas crianças do quinto ano tinham sérias dificuldades de leitura e escrita. E algumas das atividades do programa envolvem essas habilidades, como escrever uma redação, por exemplo”, afirma a pesquisadora. Partes dos conteúdos são traduções literais do programa norte-americano, sem qualquer adaptação à cultura brasileira e os pesquisadores avaliam que isso pode influenciar na compreensão e ter efeitos contrários aos esperados.

Uma estimativa do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de São Paulo calcula que o Brasil gaste, anualmente, até 7,3% do Produto Interno Bruto (PIB) com consequências de problemas relacionados ao álcool – desde o tratamento das condições médicas até a perda da produtividade decorrentes do seu uso, superando R$ 130 bilhões por ano.

Foco é a conscientização, diz a polícia

O Proerd como é trabalhado em Minas Gerais tem adaptações culturais e linguísticas apropriadas, segundo avaliação do diretor de comunicação social e institucional da Polícia Militar de Minas Gerais, coronel Gilmar Luciano Santos. “A PMMG enxerga com bons olhos esse programa que é uma franquia dos EUA, mas tem toda a metodologia comprovada. Fazemos uma adaptação linguística e cultural e sempre consolidamos as equipes de policiais que participam, para que sejam renovadas em termos de conteúdo e método”, afirma.

Segundo o coronel, um dos pilares da formação para a corporação é a formação acadêmica. “Por isso, o Proerd é importante, pois ele se encontra na escola que é o berço da educação e da cultura. É lá que vamos consolidar a consciência dos estudantes trazendo as informações sobre os males que sempre acompanham as drogas e violência, para que escolham os caminhos corretos para suas vidas”, afirma Santos.

O coronel Gilmar Santos criticou a forma como o Proerd foi avaliado, afirmando que o programa não é um fim em si próprio, por isso não pode ser creditado a ele os sucessos e as falhas das escolhas dos estudantes avaliados e que se envolveram em violência e com entorpecentes. “O Proerd não é um fim em si mesmo. Não é para prender traficantes, nem acabar com o tráfico. É educacional, de metodologia e de conscientização. Não substitui a família, a sociedade ou o Estado, mas se trata de um suplemento da cadeia pedagógica. Não temos como impedir o contato da pessoa com a droga ou o traficante. Mas educamos e conscientizamos o jovem, que é um futuro adulto, para que ele, dentro de seu livre arbítrio, tenha uma construção intelectual mostrando um caminho ruim das drogas e as consequências desse caminho”, afirma.

O policial também não acha que as respostas às entrevistas refletem somente efeitos do Proerd. “Não se mede o desempenho pelos adultos ou ao final de uma série. É o mesmo de medir quantas pessoas estão felizes em suas carreiras culpando o colégio por quem não foi bem, em vez das escolhas individuais, da depressão, dos casos de dificuldades, perdas, etc”, afirma o diretor da PMMG.


receba nossa newsletter

Comece o dia com as notícias selecionadas pelo nosso editor

Cadastro realizado com sucesso!

*Para comentar, faça seu login ou assine

Publicidade