UAI
Publicidade

Estado de Minas TORNEIRAS SECAS

Falta d'água em MG: captação suspensa, cidades em calamidade e racionamento

Municípios mineiros estão em racionamento, e outros alertam para a falta d'água em 'breve'. Captação em rio do Norte está limitada: manancial está quase seco


23/09/2021 20:11 - atualizado 23/09/2021 20:26

Em Francisco Sá, no Norte de Minas, uma lagoa que tinha mais de um hectare de lâmina d'água foi reduzida a uma poça de lama
Em Francisco Sá, no Norte de Minas, uma lagoa que tinha mais de um hectare de lâmina d'água foi reduzida a uma poça de lama (foto: Luiz Ribeiro/EM/DA Press - 20/9/2021)

 
Com uma situação hídrica cada vez mais caótica, municípios de Minas Gerais  começaram a adotar o racionamento de água  para tentar salvar o que resta dos rios e lagos que abastecem as regiões. A seca este ano está mais intensa em áreas que já registram falta de chuvas significativas há mais de 150 dias.
 
Gestores públicos se mobilizam em reuniões e discussões para tentar reverter a crise, porém especialistas acreditam que faltam ações mais enérgicas. Enquanto várias ações não saem do papel, moradores sofrem com torneiras secas.

Racionamento e calamidade...

Em Uberaba , no Triângulo Mineiro, mesmo com um decreto em vigor há mais de um mês determinando a economia de água, o que a reportagem mais viu foi gente lavando calçadas e carros . Todos estão sujeitos à multa de R$ 293,47. No último domingo (19/9), a cidade toda ficou sem abastecimento para tentar economizar o que é possível. O rodízio ainda continua, sem previsão para acabar.
 
Bugre , cidade de 3,6 mil habitantes no Vale do Rio Doce, está em racionamento até o dia 27 de setembro. O abastecimento começou a ser interrompido em 16 de agosto, após o posto de água que abastece a cidade quase secar. As torneiras ficam secas por 24 horas em regiões do município alternadas.
 
Ituiutaba , também no Triângulo, decretou estado de emergência na segunda-feira (20/9). Apesar de não haver racionamento ou rodízio, multas que vão de R$ 151 até R$ 341 foram criadas para quem for flagrado desperdiçando água.
 
Vários assentamentos rurais de Santa Vitória , cidade de 19 mil habitantes na divisa com Goiás, também já sofrem com a falta d'água. Não há um sistema municipal de abastecimento que chegue a todas as regiões, e por isso cisternas e barragens são utilizadas. Mas muitas estão secas.
 
O secretário de agricultura, pecuária e abastecimento, Maurício Lorena Filho, diz que a prefeitura busca recursos para conseguir ajudar, especialmente, agricultores familiares. "Temos muitos relatos vindos de todos os cantos da cidade. Estamos trabalhando para viabilizar caminhões-pipa ou até outras formas de levar água a essas comunidades", explicou.
 
Sul e cidades históricas  
 
No Sul de Minas, Lavras tem problemas pontuais, segundo a Copasa, causadas pela baixa vazão dos rios. Ouro Fino faz um rodízio de água desde o dia 6 de setembro. A captação é interrompida diariamente das 8h às 16h.
 
Bairros altos de Mariana e Ouro Preto são prejudicados com a baixa pressão do sistema de abastecimento, causada pela falta d'água nos pontos de captação. Apesar disso, oficialmente não há rodízio.
 
O Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam) decretou situação de escassez hídrica na estação de São Pedro do Suaçuí, no Vale do Rio Doce. A captação de água do rio Suaçuí Grande para indústrias, irrigação e consumo humano estão limitadas até o dia 15 de outubro. 

Reuniões...

Em outra ponta do Estado, no Vale do Mucuri, uma reunião nesta sexta-feira (24/9) em Carlos Chagas vai discutir a questão do abastecimento. O presidente da Associação dos Municípios do Vale do Mucuri (Amuc), Héber Gomes Neiva, também prefeito de Caraí, avalia que a crise hídrica é prioritária e exige ações imediatas. 

"São ações de curtíssimo prazo, que ajudariam muito os municípios e a nossa população. Água representa dignidade humana, e a situação é de calamidade", disse.
 
Um dos pontos que serão discutidos é o apoio da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) para levar caminhões-pipa às comunidades mais afetadas pela seca, e perfurar artesianos nas 27 cidades que compõem o Vale do Mucuri. 

A Codevasf também vai começar a implantar nas duas bacias hidrográficas programas de recuperação e proteção de nascentes, trabalho que é considerado fundamental para ajudar a minimizar os efeitos da crise hídrica.
 
O próprio Igam está com um projeto em andamento para mapear a situação hídrica de Minas Gerais, porém a médio e longo prazo.

Serão 15 meses que uma empresa contratada pelo instituto terá para analisar sete regiões consideradas estratégicas para o abastecimento: afluentes do Alto Rio São Francisco; afluentes do Baixo Rio São Francisco; afluentes do Rio Grande; afluentes do Rio Doce; afluentes dos Rios Mucuri, São Mateus, Jequitinhonha e Pardo; afluentes do Rio Paranaíba, e afluentes do Rio Paraíba do Sul.

... e alertas

Ao menos 139 municípios de Minas Gerais estão em alerta por causa da seca . Levantamento da Coordenadoria Estadual de Defesa Civil (Cedec) mostra que mais de 100 mil pessoas aguardam a chegada dos caminhões-pipa em todo o Estado. 
 
O Norte de Minas e o Vale do Jequitinhonha não veem chuvas significativas há quase 150 dias, e a perspectiva do céu não é positiva: a meteorologia prevê que o tempo seco vai seguir até o final do mês de setembro. Em outubro, chuvas até podem acontecer, mas insuficientes para resolver de vez a situação.
 
Paracatu , no Noroeste, foi mais um munícipio a declarar situação de calamidade pública , ainda que a falta d'água não seja exatamente por causa da seca. Questionamentos sobre a atuação da Copasa, que registrou problemas "pontuais" no abastecimento nos últimos dias, motivaram a decisão. Porém, a prefeitura reconhece que o fantasma da seca está próximo.
 
No Triângulo Mineiro, as prefeituras de Araxá Nova Ponte e Pirajuba  ainda não registram falta d'água, mas publicaram avisos orientando que os moradores economizem durante o período mais seco.

O futuro?

O sociólogo Leonel de Oliveira Pinheiro, especializado em cooperativismo, e professor da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), afirma que a principal política pública que precisa ser adotada é a da "reconstrução" da natureza às margens dos rios.
 
"Não há outro segredo nisso. Plantar mudas, recuperar o que foi destruído com a ação do homem. Esses são alguns meios que temos para reverter as mudanças climáticas que enfrentamos, e trazer mais chuvas. É um projeto a longo prazo, que deveria ter sido planejado antes", afirma.
 
Além do projeto da Codevasf, Arinos , no Noroeste, começou a planificar algo nesse sentido. 
 
O programa Pró-Águas Rio Urucuia vai revitalizar e reabilitar as nascentes do rio, que representa 40% das águas do Rio São Francisco. Ao todo, 14 cidades do entorno (contando duas de Goiás) serão beneficiadas pelo projeto, que prevê a plantação de 4,5 milhões de mudas de plantas nativas do serrado, e recomposição de 2 mil hectares de solo às margens do rio.
 
O investimento total será de R$ 105 milhões.


receba nossa newsletter

Comece o dia com as notícias selecionadas pelo nosso editor

Cadastro realizado com sucesso!

*Para comentar, faça seu login ou assine

Publicidade