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Estado de Minas 'COMO É POSSÍVEL?'

Idoso agoniza há mais de 20 dias, com fratura e feridas, à espera de UTI

Homem com 80 anos aguarda cirurgia de emergência no fêmur desde o dia 6; nesta terça (27/7), Justiça determinou que ele seja transferido para uma UTI


27/07/2021 16:10 - atualizado 27/07/2021 17:30

Escaras desenvolvidas no Hospital Municipal de Unaí são chocantes(foto: Google Street View/Reprodução e Cleia Perpétua/Arquivo pessoal)
Escaras desenvolvidas no Hospital Municipal de Unaí são chocantes (foto: Google Street View/Reprodução e Cleia Perpétua/Arquivo pessoal)
"Há 20 dias não há nenhuma resposta sobre a situação do meu pai, como isso é possível?." O desabafo representa a agonia de uma filha ao ver o pai, de 80 anos, agonizando de dor após fraturar o fêmur e se aproximar de um mês à espera de um leito de UTI em Unaí - período no qual desenvolveu feridas "muito feias" pelo corpo.  
 
"Me preocupa demais isso. Ele está sentindo dor, e essas feridas estão muito feias", afirma Cléia Perpétua em entrevista ao Estado de Minas. Advogada, a filha do paciente - que terá o nome preservado - se cansou de esperar por respostas e publicou as imagens dos machucados do pai nas redes sociais nesse domingo (25/7).

Impactantes, as escaras - ferimentos desenvolvidos na pele de quem fica em uma mesma posição por muito tempo - chocaram e viralizaram. Com a repercussão, a prefeitura da cidade do Noroeste mineiro se manifestou ainda no domingo, mas sem conseguir solucionar a principal questão: a transferência do idoso para um leito de UTI para receber os devidos cuidados.
 
Atenção! As imagens são fortes e podem ser consideradas perturbadoras por algumas pessoas. Por esse motivo, a reportagem desfocou as fotos dos ferimentos.
 
Diabético, o idoso de 80 anos está com feridas espalhadas pelo corpo(foto: Cleia Perpétua/Arquivo pessoal)
Diabético, o idoso de 80 anos está com feridas espalhadas pelo corpo (foto: Cleia Perpétua/Arquivo pessoal)
 
 

Martírio

 
O sofrimento do senhor de 80 anos começou em 4 de julho, quando perdeu o equilíbrio e caiu - "queda da própria altura", como classificam as autoridades. O acidente causou a fratura do fêmur esquerdo do morador de Dom Bosco, pequena cidade no Noroeste de Minas com menos de 4 mil habitantes.

Devido à precária estrutura hospitalar do município, o idoso foi levado dois dias após a queda, no dia 6 de julho, ao Hospital Municipal de Unaí - a cerca de 100 km de distância. Diabético e vítima de um AVC (Acidente Vascular Cerebral) recente, o paciente deveria ter a fratura corrigida com uma cirurgia de emergência. Mas o que ocorreu, de fato, foi o início de um martírio.
 
Inicialmente, ele foi internado em uma UTI (Unidade de Terapia Intensiva) porque estava com sintomas semelhantes aos da COVID-19. O exame revelou que o idoso não estava com o novo coronavírus e a boa notícia se transformou em um obstáculo: ele saiu da UTI, reservada apenas para pacientes com COVID, e foi transferido à enfermaria, onde está até hoje.
 

Sem vagas

 
Segundo a Prefeitura de Unaí, todos os leitos de UTI da cidade estão direcionados ao tratamento de pacientes de COVID. A gestão afirma ter inscrito o idoso de 80 anos no SUSFácil (sistema de regulação de vagas usado, por exemplo, para gerir cirurgias eletivas) no mesmo dia 6 de julho.
  
"A Regulação do SUSFácil informou ao Hospital Municipal não haver expectativa de vaga para a cirurgia desse senhor. Uma cirurgia que é de alta complexidade, que aliada à idade e comorbidade do paciente requer leito de UTI disponível como medida preventiva. O que não há em Unaí", afirma, em trecho de posicionamento publicado nas redes (veja aqui). 
 

Até 4 meses 

 
Apesar de a prefeitura ter informado a urgência da cirurgia, fontes ouvidas pela reportagem afirmam que a espera por uma vaga desse tipo pode chegar a quatro meses. 
 
A equipe do Hospital Municipal então buscou uma vaga para cirurgia desse senhor no Distrito Federal, em Planaltina, Paranoá, Sobradinho, Hospital de Base, Gama e Taguatinga, no entanto, não obteve êxito em nenhuma dessas regionais. 
 
Questionado pela reportagem por qual motivo não foram procuradas unidades hospitalares em Minas, o diretor técnico do Hospital Municipal de Unaí, Vosmar Pereira Cardoso, explicou que esse contato, na verdade, foi feito. 
 
"A demanda de vagas em Minas Gerais é somente mediante SUSFácil, considerando o cenário da rede pública. A nossa macrorregião (Noroeste) solicita vaga em outras regionais, como exemplo Belo Horizonte, mas até agora ninguém aceitou a transferência", explica.

"Já o contato com os hospitais de Brasília é realizado via e-mail", complementa.
 
O diretor técnico afirma que não poderia manter o idoso no leito de UTI que estava internado pelo fato de ser exclusivo para pacientes com COVID-19, já que havia o risco de uma contaminação, que poderia agravar ainda mais o quadro de saúde dele.
 
Nesta terça-feira (27/7), a Gerência Regional de Saúde (GRS) de Unaí conseguiu um contato em Paracatu, para avaliar a possibilidade de realizar a cirurgia no município vizinho. "Mas, ainda aguardamos a resposta", afirma Cardoso. 
 

Esperança

 
Após a repercussão do caso, também nesta terça (27/7), a Justiça concedeu uma liminar favorável à Cléia, obrigando a Secretaria Estadual de Saúde (SES-MG) a fornecer um leito e a cirurgia, no prazo de 72 horas. Determinou ainda que a prefeitura de Unaí faça o transporte e dê todo o suporte para o procedimento.
 
Na decisão, o juiz federal Emmanuel Mascena de Medeiros considera que há um grande risco de complicações ao paciente, inclusive a morte. "Constatada a demora na dispensação de vaga/leito para paciente que necessita de cirurgia urgente devidamente atestada, há ofensa ao direito ao tratamento de sua saúde", afirma no despacho, obtido pelo Estado de Minas.
 
Até o fechamento deste texto, a prefeitura de Unaí não havia sido notificada da decisão. A SES-MG foi procurada pela reportagem para comentar a situação e a liminar, não retornou. Tão logo a Pasta responda aos questionamentos, esta reportagem será atualizada.

O Ministério Público de Minas Gerais, por sua vez, informou que não houve nenhuma denúncia ao órgão sobre a situação.
 
Enquanto isso, o idoso segue na clínica de ortopedia do hospital. "Meu pai tem pressa. Ele precisa dessa cirurgia, é a saúde dele que está em jogo. Sei que muitos não podem recorrer ao judiciário, e morrem em um leito", desabafa Clélia. 


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