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Estado de Minas HISTÓRIAS DE SUPERAÇÃO

Crença na ciência e fé são a receita de quem venceu o coronavírus

Pacientes que se curaram da doença, depois de dias dramáticos de internação, alertam que é preciso respeitar as recomendações médicas e manter a crença


04/04/2021 04:00 - atualizado 04/04/2021 07:07

(foto: Gustavo Werneck/EM/D.A Press)
(foto: Gustavo Werneck/EM/D.A Press)

"Meus pais representam tudo para mim. É hora de valorizar esse amor sublime e as coisas simples da vida"

Patrícia da Conceição Moreira, assistente administrativa, ao lado pai, Fanuel Gomes

 

Os polegares levantados de Patrícia, a filha, e Fanuel, o pai, indicam que o pior já passou. Eles enfrentaram uma dolorosa via crucis provocada pelo novo coronavírus: internação, dias e noites no Centro de Terapia Intensiva (CTI), perda de parentes próximos e o sofrimento de ficar longe da família. Hoje, domingo de Páscoa, sinônimo de ressurreição, renascimento, vida nova, homens e mulheres vítimas da COVID-19 fortalecem sua , creem na ciência e falam da hospitalização recente.

 

São relatos que servem de alerta no momento em que o setor de saúde vive colapso em Minas Gerais, com a doença fora do controle das autoridades, e en- quanto a onda roxa cobre o estado impondo toque de recolher. A doença respiratória já matou mais de 330 mil brasileiros.

 

 

 

 

A assistente administrativa Patrícia da Conceição Moreira, de 31 anos, solteira, está em quarentena e vem cumprindo religiosamente todas as determinações dos médicos que a atenderam, no mês passado, no Hospital São Lucas, em Belo Horizonte. Ela ficou internada durante 18 dias, dos quais sete no CTI, sem necessidade de intubação.


“Minha ansiedade quase me levou a esse procedimento. De tão ansiosa que sou, meus batimentos cardíacos chegaram a 180. Então o médico disse que, se eu não me acalmasse, seria necessária a intubação”, conta Patrícia, formada em administração e agora cursando técnica de enfermagem e gestão hospitalar.

 

(foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)

"Minha mensagem é acreditar na ciência e ter fé em Deus. Tive COVID, perdi minha mãe, mas seguimos em frente"

Carla Avelar Lana Silva Pimenta, professora

 

As palavras do médico soaram com a precisão cirúrgica para que a “mineira de coração e criação”, natural de Taubaté (SP), reencontrasse o equilíbrio. “Não vou negar que passei por muito sofrimento, mas confesso não ter medo de nada. Sou filha única e só pensava nos meus pais, em como eles estariam. Meu medo nem era de morrer, mas de que eles sofressem demais.”

 

Os problemas de Patrícia Moreira aumentaram em 3 de março, quando, depois de muita tosse e falta de ar, foi levada de ambulância para a unidade de Pronto-Atendimento (PA) de Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde mora desde os 10 anos com os pais, Fanuel e Zilma. Com o quadro agravado, foi transferida para o Hospital da Unimed e depois para o São Lucas.

 

Patrícia estava com 50% dos pulmões comprometidos. “Sou grata a toda a equipe do PA, do São Lucas e aos que rezaram por mim, a exemplo dos amigos, colegas de trabalho e até desco- nhecidos. Mas quem me tirou do hospital foi Nossa Senhora do Rosário. Fui rainha na Festa do Rosário e uso essa coroa com devoção. Devo tudo à minha protetora e a Deus”.

 

Se a fé saiu fortalecida, a família se encontra, como sempre, em primeiro plano. “Meus pais representam tudo para mim. Está na hora de valorizar mais tanto esse amor sublime como as coisas simples da vida”, diz Patrícia, sem conter as lágrimas ao se lembrar das perdas em apenas uma semana. Vítimas da COVID, morreram dois primos e um tio, que moravam em imóvel de frente à casa dela. Também vizinho, outro tio morreu de câncer. “Minha prima ficou hospitalizada, e, graças a Deus, minha mãe, Zilma, não teve nada”.

 

Ao lado da filha, Fanuel Gomes Moreira, de 67, aposentado, lembra que outros parentes próximos morreram em São Paulo: “Está sendo um período difícil.” Fanuel foi o primeiro da família a contrair a doença, que, em Santa Luzia, gerou cerca de 200 mortos. Durante 10 dias, desde 5 de março, ele ficou internado no Hospital de São João de Deus, e precisou de ventilação mecânica.

Com o jeito mineiro, Fanuel se mostra bem tranquilo e, surpreendentemente, garante que só soube que estava com a doença ao deixar o hospital. “Agora estou muito bem. A máscara é indispensável”, avisa ao oferecer ao repórter uma esguichada de álcool em gel.

 

(foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)
(foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)

"Eu me lancei nas mãos de Deus, e só tenho a agradecer também às equipes de dois hospitais que foram guiadas por Ele"

Divar Paraguai de Aguiar, aposentado

 

Família contaminada Dois retratos separam momentos distintos na vida da professora Carla Avelar Lana Silva Pimenta, moradora de Carmo do Paranaíba, na Região do Alto Paranaíba. No primeiro retrato, feito no fim do ano passado, ela sorri ao lado da mãe, Marilane Avelar Lana da Silva.

No segundo, de quinta-feira passada, a saudade transparece no semblante. Naquele dia, fazia um mês que Marilane havia partido. Aos 76, ela morreu em decorrência da COVID-19 no Hospital Júlia Kubitschek, na capital, após 16 dias intubada. Entre os dois registros fotográficos, a dor se revelou nas cores mais fortes.

 

“Vim para Belo Horizonte com minha mãe e voltei sem ela para casa”, lamenta a professora, de 52, outra vítima da doença. Ela ficou oito dias no mesmo hospital, três deles no CTI, sem precisar ser intubada. O marido, Evando Pimenta de Faria, e a filha, Ana Clara Lana Pimenta, de 24, advogada, também foram contaminados pelo coronavírus, embora sem gravidade. Outros filhos, um médico e um advogado, residentes em BH, escaparam da doença e se mobilizaram para ajudar num momento de preocupação extrema.

 

Viagem Tão logo receberam o teste positivo para a COVID-19, Carla e a mãe viajaram para BH. “Gastamos cerca de quatro horas, foi um trajeto tranquilo”, recorda a professora. Com o passar dos dias, a chama da esperança empalideceu e a apreensão tomou conta da família. “Pensei que minha mãe fosse sair dessa.”

 

De volta para Carmo do Paranaíba, e ainda tentando recolocar o mundo em seu lugar, Carla sente imensa gratidão por estar viva. “Estou com a visão fraca, desenvolvi uma insônia que nunca tive, mas estou bem”, observa, com a certeza de que a ciência vai triunfar sobre a pandemia e todos seus efeitos colaterais. “Minha mensagem neste dia de Páscoa é acreditar na ciência e ter fé em Deus. Perdi minha mãe, as complicações vieram, mas seguimos em frente.”

 

Falta de consciência enfraquece a luta

 

Ao deixar o Hospital Paulo de Tarso, em Belo Horizonte, onde recebeu alta após período de reabilitação, o aposentado Divar Paraguai de Aguiar, de 74 anos, recebeu muitos aplausos e carregou, com a alegria de viver, um cartaz com os dizeres “Eu venci a COVID-19”.

Hoje, em casa, no Bairro Tirol, na Região do Barreiro, na capital, ele tem a resposta para os três meses internado (dois no hospital metropolitano Célio de Castro, incluindo CTI, e um no Paulo de Tarso) como refém da doença que aterroriza o mundo e não para de fazer baixas, tal qual uma guerra. “Me lancei nas mãos de Deus, e só tenho a agradecer também às equipes dos dois hospitais, que foram guiadas por Ele”.

 

Casado há 51 anos com Vicentina, com quem tem cinco filhos, Divar se alegra com os 13 netos e cinco bisnetos, infelizmente distantes dos abraços e afagos em tempos de pandemia. Com bom humor, surpreende o repórter ao dizer que só soube do diagnóstico ao sair do hospital. “Não sabia que estava com essa COVID”.

 

Durante o período de hospitalização, quando os indicadores da COVID-19 atingiram níveis que levaram ao recrudescimento dos protocolos sanitários e a medidas mais severas, Divar, segundo ele ressalta, “não sentia nada”, como se estivesse fora desse mundo. Depois, já sem a sedação e em reabilitação no Hospital Paulo de Tarso, voltou lentamente a tomar pé da situação, sem desespero.

 

“Sou diabético e cardíaco. Quando fui internado, parece que estava morto, todo entrevado”, conta o aposentado. Neste começo de abril, Divar, que é evangélico, só pensa positivo, e quer mesmo “que o povo acorde e redobre os cuidados para tanto sofrimento ter fim”. Com consciência e cuidados, avalia, será possível achar a saída.  


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