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Estado de Minas COVID-19

Desabastecimento? Veja como produtores da Ceasa estão lidando com a pandemia

Mito do desabastecimento não se comprovou, mas queda nas vendas e medo do coronavírus são problemas que atingem os feirantes


postado em 22/04/2020 13:25 / atualizado em 23/04/2020 13:42

Movimento intenso de pessoas e mercadorias (foto: Edésio Ferreira/EM/ D.A Press)
Movimento intenso de pessoas e mercadorias (foto: Edésio Ferreira/EM/ D.A Press)
Um mês depois do início do isolamento social, o fluxo de caminhões abarrotados com os mais diversos produtos de hortifrutigranjeiros na Central de Abastecimento de Minas Gerais (Ceasa Minas) não para. Entre os caixotes de madeira recheados de frutas, verduras e legumes, produtores de diversas cidades mineiras garantem que, no que depender do trabalho deles, os alimentos vão continuar chegando à mesa das famílias.

No começo deste mês,  o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) divulgou em sua conta no Twitter um vídeo em que um suposto produtor mostrava o galpão vazio e afirmava que havia desabastecimento de alimentos no local, responsabilizando a quarentena. No mesmo dia a reportagem do Estado de Minas foi à Ceasa e constatou que o fluxo estava normal. O presidente apagou o vídeo e se desculpou por ter compartilhado as imagens sem a devida checagem. Já o responsável pela gravação responde a inquérito policial. 
 
Nesta quarta-feira (22), o EM mais uma vez visitou a Ceasa e registrou o intenso trabalho dos feirantes no galpão. Segundo eles, alimentos não param de chegar. O difícil é conseguir clientela depois que as medidas de enfrentamento ao coronavírus fecharam escolas, bares e restaurantes. 

Alaerte Conceição, de 55 anos, é um dos produtores que têm tentado contornar os impactos da queda nas vendas.Trabalhando na Ceasa desde os 18 anos, ele conta que nunca viu nada comparado à situação atual. Para driblar os prejuízos a solução tem sido baixar o preço do milho, que antes era vendido a R$ 20 e passou a custar cerca de R$ 15. “As vendas caíram demais porque o povo está com muito medo e a maioria está ficando em casa. Para a gente tá sofrido. Hoje mesmo foi fraco. Mas o produtor não desanima, mesmo vendendo mais barato a gente vende”.

Ao contrário do que alguns mais pessimistas projetavam, o fantasma do desabastecimento não assombra os corredores do galpão. Porém, o temor à exposição ao vírus está presente em quem trabalha em um local com grande circulação de pessoas. “Eu falo que um dos lugares mais perigosos de Minas é aqui. Porque tem gente de todas as partes do Brasil. Se for pelo que passa na televisão, a expectativa da gente não é boa. Para você se defender de uma cascavel, de um leão ou de um boi bravo tem como, porque a gente vê eles. Agora, para se defender de um vírus que você não vê, aí fica difícil”, compara Alaerte.

A infraestrutura do lugar acaba dificultando a adoção de práticas que impeçam o contágio pela COVID-19. A reportagem não encontrou no local pias com água e sabão à disposição dos feirantes. Outro problema é que, apesar de obrigatório, ainda é grande a resistência por parte desses frequentadores em usar máscaras. Alaerte era um dos poucos produtores que aderiram ao ítem.

Ciente dos riscos, ele se apega à fé ao afirmar que desconhece casos da doença relatados na Ceasa Minas.  “Até hoje eu não ouvi falar que ninguém adoeceu aqui. Acho que Deus ajuda quem trabalha”. 
 
A produtora Maria do Socorro, 46 anos, que há 10 trabalha na Ceasa, também tem amargado prejuízos. Ela conta que, assim como Alaerte, optou por diminuir os preços para não perder a mercadoria, que é muito perecível. “A banana nanica a gente vendia por R$ 35 a R$ 40 e hoje ela está R$ 15 a R$ 20. A prata estava de R$ 40 a R$ 50 e hoje está de R$ 25 a R$ 30. E as despesas são as mesmas, não diminuíram em nada, o transporte, o combustível, tudo com o preço alto”. 

Ela conta que nem o preço mais baixo tem atraído a freguesia. “O abastecimento está ótimo. O que está faltando mesmo é comprador. Na verdade, enquanto estiver essa questão de estar todo mundo ficando em casa, nós vamos sofrer as consequências. Se está tudo fechado, restaurantes fechados, escolas fechadas, o nosso prejuízo vai ser grande, porque a gente não vai ter pra quem vender a mercadoria”. 

Gilmar Alves, 51, produtor de Barbacena, Região do Campo das Vertentes, acredita que a situação só deve estabilizar com a volta do comércio. “Tivemos uma queda de uns 35% em função dos bares e restaurantes fechados, mas ainda não tivemos perda de produtos. Estamos torcendo para a flexibilização à medida que o pessoal da saúde entender que pode liberar”. 

Em nota a assessoria da Ceasa explica que as pias com água e sabão ficam próximas ao plantão do MLP, local onde todos os produtores rurais precisam ir para marcarem suas áreas.

*Estagiária sob supervisão do subeditor Eduardo Murta


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