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Estado de Minas REVITALIZAÇÃO

Restaurado, painel do Cefet recupera cores e se destaca no tumulto da Avenida Amazonas

Obra de João Guimarães Vieira, o mural Oficina é reinaugurado no aniversário de 110 anos da instituição de ensino de Belo Horizonte


postado em 27/09/2019 06:00 / atualizado em 27/09/2019 07:38

Professor de artes, Bruno Lombardi foi o responsável por dar nova vida à obra no Cefet, que comemorou 110 anos nesta semana. Projeto começou em 2017(foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
Professor de artes, Bruno Lombardi foi o responsável por dar nova vida à obra no Cefet, que comemorou 110 anos nesta semana. Projeto começou em 2017 (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)


O olhar de motoristas, passageiros e pedestres encontra, na Avenida Amazonas, um ponto de beleza, em meio aos caos do trânsito, de arte, ao longo do concreto, e de contemplação, mesmo com os ruídos urbanos preenchendo cada segundo. Na fachada do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG), no Bairro Nova Suíça, na Região Oeste da capital, pode ser admirado, após minucioso restauro, o painel Oficina, de 1958, do artista plástico João Guimarães Vieira (1920-1996). “Não se trata apenas de um patrimônio da escola, mas de Belo Horizonte”, diz o professor aposentado Bruno Lombardi, há dois anos trabalhando para trazer de volta as formas e os tons originais da pintura sobre alvenaria em área de 79 metros quadrados.

Professor de artes durante mais de quatro décadas no Cefet-MG (Avenida Amazonas, 5.253), Lombardi, de 69 anos, deu início ao projeto em 2017, quando mapeou toda a superfície e a reproduziu em papel vegetal – antes do restauro, a alvenaria foi recuperada por especialistas da instituição de ensino. Com recursos da Fundação Cefet-MG e mãos à obra, o professor formado em Belas Artes pela Escola Guignard, “quando ainda era no Palácio das Artes”, retirou manchas e marcas de pichação, recompôs partes e preencheu aquelas que perderam o desenho. “É o painel mais colorido da cidade”, mostra o restaurador, que concluiu o serviço para as comemorações, na segunda-feira, dos 110 anos da instituição de ensino iniciada com o nome de Escola Técnica de Belo Horizonte.

Na manhã chuvosa de ontem, Lombardi mostrou detalhes do painel, que exigiu tempo e dedicação. Para evitar problemas, ele cadastrou cada centímetro do painel no computador. “Houve muitos estragos causados também pela exposição ao tempo”, revelou. Segundo a assessoria do Cefet-MG, está nos planos fazer uma cobertura de vidro para evitar os efeitos da chuva diretamente sobre a superfície. Em algumas áreas, como a base, foi necessário, devido à água, fazer uma intervenção drástica, pois houve apodrecimento da alvenaria. “São muitas as agressões, como a poluição e o pó do asfalto”.

Respeito


Durante o período de restauro da obra, Lombardi pôde perceber o respeito das pessoas que passam na Avenida Amazonas, pelo Oficina. “Trata-se de uma referência na região. Ouvia o povo conversando e combinando de se encontrar perto do painel do Cefet”. Como trabalhava na via pública, o artista foi assaltado quatro vezes, tendo os ladrões levado o material de trabalho. “Mas, em todas as ocasiões, respeitaram a obra”, conta satisfeito o homem também formado em direito e que, em 1982, trabalhou na restauração de painéis do Grande Hotel de Araxá, da década de 1940, na Região do Alto Paranaíba.

Exposto nas paredes da entrada do prédio do câmpus 1 do Cefet-MG, o painel reinaugurado retrata o trabalho dos profissionais técnicos e simboliza os cursos ofertados, na época, na Escola Técnica de Belo Horizonte. Produzido para a inauguração da sede da instituição, em 1958, o trabalho do artista plástico João Guimarães Vieira foi inspirada nos traços do pintor Cândido Portinari. Em 1974, o painel foi restaurado pela primeira vez por Maria Auxiliadora da Silva Almeida.

Autor de diversos trabalhos de pintura mural, ilustrações e capas de livros, inclusive tendo desenhado duas para o escritor e poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, João Guimarães Vieira, conhecido como Guima, foi professor no Centro de Artes da Universidade do Rio de Janeiro e trabalhou para o antigo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, atual Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Guima era natural de São Sebastião do Rio Bonito, hoje, Pentagna, no estado do Rio de Janeiro.

História


Em 23 de setembro de 1909, o presidente Nilo Peçanha, por meio do Decreto 7.566, criou 19 escolas de aprendizes artífices em todo o país, entre elas a de Minas Gerais, hoje Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG), em BH. Instalada inicialmente na Avenida Afonso Pena, onde funciona atualmente o Conservatório de Música da Universidade de Federal de Minas Gerais, a escola oferecia ensino primário profissionalizante para crianças carentes de 12 a 16 anos. Naquela época, a capital ainda não apresentava demanda para a área industrial e, por isso, a formação era para o artesanato manufatureiro. Havia cursos de serralheria, sapataria, ourivesaria, marcenaria e carpintaria.

Somente em 1942, com a industrialização, é que a escola se tornou técnica, primeiro com o nome de Escola Técnica de Belo Horizonte e, em 1969, com a denominação de Escola Técnica Federal de Minas Gerais. Em 30 de junho de 1978, a instituição se transformou em Cefet-MG, a partir da aprovação de uma lei pelo Congresso Nacional. A mudança representou grande avanço institucional, uma vez que ampliou as possibilidades de oferta de educação tecnológica em nível superior, incluindo graduação, pós-graduação, bem como cursos técnicos, de educação continuada e das atividades de pesquisa.


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