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Estado de Minas

Prefeitos de cidades históricas criticam nomeação de cinegrafista do PSL para o Iphan

Exoneração da superintendente do órgão no estado, líder em bens tombados, preocupa gestores. Indicado não tem qualificação técnica para o cargo, apontam especialistas


postado em 27/09/2019 06:00 / atualizado em 27/09/2019 09:06



O clima é de preocupação – e de muitas incertezas – entre gestores e defensores do patrimônio cultural de Minas, estado que detém o maior número (60%) de bens tombados pela União e também de sítios reconhecidos como patrimônio da humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). O ministro da Cidadania, Osmar Terra, exonerou, conforme portaria assinada na quarta-feira, a superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em Minas, Célia Corsino, que ocupava o cargo havia quatro anos. Para seu lugar foi nomeado Jeyson Dias Cabral da Silva, ex-assessor do deputado federal Charles Thomacelli Evangelista, do PSL (partido do presidente Jair Bolsonaro), quando esse era vereador em Juiz de Fora, na Zona da Mata.

Conforme o Estado de Minas apurou, Jeyson seria indicação de Charles Evangelista, embora sem qualificação técnica adequada, segundo especialistas, para assumir o cargo que envolve não apenas a proteção do patrimônio edificado e fiscalização de obras de restauração, como também busca de recursos, questões ligadas à mineração em municípios com monumentos tombados, licenciamentos e uma série de outras atribuições. Conforme o currículo, o substituto tem licenciatura plena em estudos sociais (geografia e história), experiência em área de venda, assessoria legislativa e telemarketing, além de conhecimento básico de inglês e na área de informática, tendo trancado o curso de direito no quarto período. Enquanto ele não toma posse, vai assumir interinamente a chefe da Divisão Técnica em Minas, Daniela Lorena.

A preocupação com a integridade e segurança do patrimônio cultural de Minas, e o temor de que o cargo fosse uma indicação política e não técnica, mobilizou prefeitos de três municípios mineiros com bens reconhecidos como patrimônio da humanidade tão logo Bolsonaro assumiu a presidência. Em carta dirigida ao ministro Osmar Terra (a autarquia federal está agora vinculada à pasta da Cidadania), os chefes do Executivo de Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, Juscelino Roque, de Ouro Preto, Júlio Pimenta, e Congonhas, José de Freitas (Zelinho) Cordeiro, na Região Central, pediram que Célia Corsino fosse mantida, principalmente pela competência e também em enfrentar momentos de crise econômica com a formação de parcerias e boa gestão.

Parceria e gestão


“Estamos perdendo uma grande gestora e uma parceira dedicada para resolver as urgências do patrimônio de Minas”, lamentou o prefeito de Congonhas, onde está o Santuário Basílica do Bom Jesus de Matosinhos, com destaque para os 12 profetas em pedra-sabão, no adro da igreja do século 18, e as peças da Paixão de Cristo esculpidos por Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1738-1814).

Igreja São Francisco de Assis, na Pampulha, e o Santuário da Basílica de Bom Jesus de Matosinhos: bens tombados e reconhecidos pela Unesco(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press - 12/7/19)
Igreja São Francisco de Assis, na Pampulha, e o Santuário da Basílica de Bom Jesus de Matosinhos: bens tombados e reconhecidos pela Unesco (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press - 12/7/19)


(foto: Beto Novaes/EM/D.A press - 23/11/17)
(foto: Beto Novaes/EM/D.A press - 23/11/17)


Para Zelinho Cordeiro, o fundamental na indicação está na qualificação do superintendente. “Trata-se de um cargo que exige competência técnica, o que foi demonstrado nesses quatro anos por Célia Corsino”, disse o prefeito. Funcionária de carreira do Iphan por 39 anos, dos quais quatro à frente da autarquia em Minas, a ex-superintendente é museóloga de formação, tendo trabalhado no Museu Nacional, do Rio de Janeiro (RJ), destruído por um incêndio há pouco mais de um ano.

Há um mês, diante da especulação de que o cargo seria ocupado mediante “indicação política”, os prefeitos voltaram a enviar cartas ao ministro – o que foi feito também pelo presidente da Associação das Cidades Históricas de Minas Gerais, que congrega 30 municípios, José Fernando de Oliveira, prefeito de Conceição do Mato Dentro, na Região Central. Ao saber da exoneração, José Fernando lembrou que é preciso “cuidado” ao nomear uma pessoa à superintendência em Minas. “Estamos falando do estado que detém o maior número de bens tombados do país. Célia Corsino tem uma história na instituição, por isso estou vendo com muita apreensão este momento”, disse o prefeito de Conceição do Mato Dentro, que tem dois bens tombados, entre eles a recém-restaurada Matriz de Nossa Senhora da Conceição.

Atualmente consultor na área cultural, o ex-secretário estadual de Cultura de Minas Angelo Oswaldo ficou igualmente preocupado, já que vê um cargo à frente do Iphan em Minas como “missão”. Ele lembra que a autarquia federal, com mais de 80 anos e que teve como primeiro superintendente um mineiro de Belo Horizonte, Rodrigo Melo Franco (1898-1969) tem importância por “fazer política de estado”, exigindo, assim, muita qualificação para o exercício da “missão” e o cumprimento da Constituição. “O que está havendo é um desmanche do Iphan”, disse Angelo Oswaldo, que foi prefeito de Ouro Preto e presidente de instituições federais, como o próprio Iphan (de 1985 a 1987).

Especializada


Célia Corsino é museóloga, com especialização em administração de projetos culturais pela Fundação Getúlio Vargas e metodologia do ensino superior pelas Faculdades Estácio de Sá. Desde 1973, trabalha na área de patrimônio e em museus, tendo sido chefe da Seção de Difusão Cultural do Museu Histórico Nacional e do Museu de Folclore Edison Carneiro da Funarte (1978-1982), assessora do Programa Nacional de Museus da Fundação Nacional Pró-Memória, onde coordenou o programa de revitalização de Pequenas Unidades Museológicas e do Sistema Nacional de Museus da Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (1986- 1989), além de coordenadora do Programa de Museus da Secretaria de Cultura do Governo do Distrito Federal (1989-1990) e desempenhar outras funções. De 2002 a 2011, coordenou os trabalhos de implantação da área de museologia do Museu de Artes e Ofício, em Belo Horizonte, trabalhou no acervo documental do Museu Casa de Cora Coralina, em Goiás, no Museu de Congonhas, entre outros. Desde 2015, Célia é a superintendente do Iphan em Minas.

Na área acadêmica foi professora titular da cadeira de Administração de Museus na Faculdade de Museologia e Arqueologia da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, e professora-assistente da cadeira de Ciências Auxiliares da História (Numismática, Sigilografia, Filatelia e Heráldica) da mesma instituição. Participou do planejamento e do corpo docente de cursos básicos e oficinas de museologia em diversos estados do país e coordenou, pela Unesco, cursos a distância de salvaguarda de patrimônio imaterial e gestão de museus patrimônio. Atualmente é professora convidada do MBA de Gestão de Museus da Universidade Cândido Mendes.

Reabertura


A exoneração de Célia Corsino ocorre a uma semana da reabertura da Igreja São Francisco de Assis, a conhecida Igrejinha da Pampulha, da Arquidiocese de BH, cuja obra de restauro teve recursos do PAC Cidades Históricos (R$ 1,1 milhão) do governo federal e fiscalização do corpo técnico do Iphan no estado. Admiradores do trabalho da superintendente lembram do seu empenho para contornar problemas durante as obras. Na semana passada, ao lado da presidente o Iphan, Kátia Bogéa, a museóloga participou da inauguração do Teatro de Sabará, na Grande BH, primeira obra do PAC concluída na cidade. Em Minas, são 93 obras (veja quadro), com recursos do PAC, com recursos de R$ 76 milhões contratados e R$ 52 milhões já investidos.

A reportagem do Estado de Minas entrou em contato com a o gabinete do deputado federal Charles Evangelista, em Brasília (DF), mas foi informada que o parlamentar se encontra em viagem ao exterior – o telefone celular também não atendeu. Da mesma forma, em dois telefones, igualmente sem sucesso, foi procurado o futuro superintendente do Iphan em Minas, Jeyson Dias Cabral da Silva. Em nota, o Ministério da Cidadania informou que não vai se pronunciar.


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