Conteúdo para Assinantes

Continue lendo ilimitado o conteúdo para assinantes do Estado de Minas Digital no seu computador e smartphone.

price

Estado de Minas Digital

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Utilizamos tecnologia e segurança do Google para fazer a assinatura.

Assine agora o Estado de Minas digital por R$ 9,90/mês. Experimente 15 dias grátis >>

Publicidade

Estado de Minas

Conheça a história por trás do surto de febre maculosa em Contagem

Doença que registra 21 casos em Contagem, entre suspeitos e confirmados, com quatro mortes, começou em terreno herdado por parentes próximo à Pampulha, por onde transitam capivaras e passam córregos que deságuam na lagoa. Após alerta, BH investiga quadros de 31 pacientes


postado em 05/06/2019 06:00 / atualizado em 05/06/2019 08:12

Terreno da Rua Primeiro de Maio é dividido por vários núcleos da mesma família, entre elas a de Antônio Santana. Além das capivaras, hospedeiras do carrapato que transmite a doença, área tem gado(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press )
Terreno da Rua Primeiro de Maio é dividido por vários núcleos da mesma família, entre elas a de Antônio Santana. Além das capivaras, hospedeiras do carrapato que transmite a doença, área tem gado (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press )


Pelo menos 120 mil metros quadrados são o cenário do novo foco de febre maculosa em Minas Gerais. O mais recente endereço do medo para a saúde pública fica na divisa de Contagem, na região metropolitana, e Belo Horizonte: a área conhecida como Vila Boa Vista, vizinha ao Bairro Nacional, bem atrás do zoológico da capital, na Pampulha. Tão perto que, nos fundos do terreno, passam dois córregos que deságuam na lagoa. Entre casos suspeitos e comprovados no município limítrofe já são 21, sendo quatro mortes, duas delas com resultado confirmado para a doença – transmitida pelo carrapato-estrela e que tem índice médio de letalidade superior a 40% em Minas nos últimos seis anos. Os casos na cidade vizinha levaram a capital mineira a emitir alerta, depois do qual entraram na lista de investigação os quadros de nada menos que 31 pacientes, elevando o total de diagnósticos notificados na Grande BH a pelo menos 52.

 

A origem do alerta vem de um terreno onde há um aglomerado de casas da Rua Primeiro de Maio, em Contagem, onde todos são parentes. E todos dividem a dor de enterrar seus entes queridos ao mesmo tempo em que sofrem com o medo de novas contaminações. Segundo os donos, o terreno, diferentemente do que informou a Prefeitura de Contagem, não é invadido – o que os leva a cobrar, além de providências, uma retratação da administração municipal.

 

O aposentado Antônio Eugênio Santana, de 67 anos, afirma que o terreno é herança da avó, Lúcia Rosa Muniz, e que as vítimas do novo foco estão longe de ser moradores recém-chegados à região. “Nasci aqui, numa casa de adobe”, diz. O grande terreno é subdividido em 10 lotes, e cada um deles tem pelo menos três casas, em uma vizinhança toda familiar. Na quarta-feira da semana passada, Antônio enterrou os irmãos Otacílio Muniz Santana, de 82, e José Muniz Santana, de 69.

Antônio Santana, que perdeu dois irmãos, uma sobrinha e o neto, queimou entulho para tentar conter a proliferação do carrapato-estrela, transmissor da doença(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press )
Antônio Santana, que perdeu dois irmãos, uma sobrinha e o neto, queimou entulho para tentar conter a proliferação do carrapato-estrela, transmissor da doença (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press )

 

Anteontem, foi a vez de ir ao funeral da sobrinha Vânia Muniz Santana, de 59, e do sobrinho-neto Caio Santana, de 19. “Foi preciso quatro pessoas morrerem para providências serem tomadas. Vimos pedindo solução para as capivaras que andam por aqui há anos, mas fizeram limpeza só na Pampulha”, denuncia. O terreno está a menos de 2,5 quilômetros em linha reta do Parque Ecológico Promotor Francisco José Lins do Rêgo Santos, na Pampulha, que se tornou conhecido como um dos principais pontos de concentração dos roedores na região.

 

Os córregos que passam na área são o Água Funda e o Gangorra, que se encontram para desaguar no Córrego Bom Jesus, que passa na Portaria 1 da Fundação Zoobotânica de BH. De lá, o curso se junta ao Sarandi, que chega à Lagoa da Pampulha. “Enquanto se achava que o foco das capivaras era o Parque Ecológico, elas estavam aqui”, sustenta Antônio Santana. Ele conta que é comum encontrar os animais nos fundos de casa.

 

BAIXAS NA FAMÍLIA Outros três homens da família, de 65, 44 e 38 anos, estão internados com suspeita de febre maculosa. Quem está em casa faz exames como prevenção. Caso do comerciante Ronaldo José Santana, de 50, sobrinho de Antônio. Embora não more no local, ele também precisou tomar cuidados médicos, pois está sempre no endereço, visitando o pai. “Fiz exame, já peguei o resultado de um e semana que vem tem mais”, conta.

 

A irmã dele, Vânia, uma das vítimas, também não morava no local. Vivia no bairro vizinho Xangrilá, na Pampulha, mas ia todo fim de semana ver a família. As outras três vítimas moravam no terreno e tiveram contato com a mata próximo aos córregos que chegam à Pampulha. Ronaldo relata que a versão da invasão do terreno tem corrido longe. “Até vizinhos meus comentaram. Se a prefeitura insistir nessa história, vai caber processo. Temos toda a documentação de posse da família”, afirma.

(foto: Arte EM)
(foto: Arte EM)


MANCHA DE CONTÁGIO
A Prefeitura de Contagem estima que 128 pessoas tenham entrado em contato com a área considerada foco da doença. Mas os moradores dizem que esse número é de pelo menos 200. E que cerca de 500 pessoas, dado o tamanho da família, frequentam o lugar. Ontem, uma das pontas da Rua 1º de Maio chegou a ser fechada pela Transcon, a empresa que gerencia o trânsito em Contagem, e a outra pela Defesa Civil. Isso porque foi instalado maquinário numa parte do terreno para começar, hoje, trabalhos de limpeza. Anteontem, agentes de Zoonoses aplicaram carrapaticida em animais domésticos e os imóveis foram borrifados por dentro e por fora. Cinco bois e 22 cavalos que estavam soltos pelo bairro foram capturados para o mesmo procedimento, feito no Curral Municipal de Contagem.

 

(foto: Arte EM)
(foto: Arte EM)
As 128 pessoas consideradas vulneráveis ao contato pela prefeitura foram inscritas em uma unidade básica de saúde do Bairro Nacional para receber atendimento e orientações sobre a doença. A prefeitura começou trabalho de campo e usa também drones para identificar o número de capivaras no local. Para isso, conta com parceria da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). No domingo foi instaurado comitê de crise para tratar do caso. Nos próximos meses haverá pesquisas, identificação e manejo das capivaras. O município contará com o apoio da Prefeitura de BH, para passar a experiência do que foi feito na Pampulha.

Por seu lado, logo após a confirmação dos casos de Contagem a prefeitura da capital emitiu alerta aos profissionais de saúde, para que estejam atentos a pacientes com sintomas da febre maculosa, até pela semelhança dos sintomas com os de doenças como a dengue. Depois do alerta, a Saúde da capital informou ontem que há 31 pacientes sob investigação na cidade para a doença.


Publicidade