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Febre maculosa de volta: foco em Contagem tem ligação com afluentes da Pampulha

Com confirmação de mortes e identificação de foco em Contagem, autoridades tentam conter doença transmitida pelo carrapato. Enfermidade se soma a outras que adoecem a Grande BH


postado em 04/06/2019 06:00 / atualizado em 04/06/2019 12:04

Animais capturados em área em que foi identificado foco receberam aplicação de carrapaticida em Contagem. Região tem capivaras e córrego que é afluente da Pampulha, em BH(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
Animais capturados em área em que foi identificado foco receberam aplicação de carrapaticida em Contagem. Região tem capivaras e córrego que é afluente da Pampulha, em BH (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)


Não bastasse o cenário de epidemia de dengue, retorno dos casos de sarampo e avanço do vírus da Influenza A H1N1, com a chegada do período mais frio do ano, outra doença começa a preocupar as duas maiores cidades da Região Metropolitana de Belo Horizonte. A confirmação de duas mortes por febre maculosa em Contagem, que tem outras duas em investigação, põe em alerta a cidade, que iniciou medidas de controle, e a capital, que divulgou alerta aos profissionais de saúde. Ao todo, 15 pessoas da mesma família, moradoras do Bairro Nacional, na cidade vizinha a BH, apresentaram sintomas da enfermidade transmitida pelo carrapato-estrela, que tem como hospedeiros animais domésticos e silvestres. Embora concentrado em local específico, o problema traz de volta à tona algo que estava adormecido na capital: a preocupação com as capivaras da Lagoa da Pampulha e a ameaça que se expande com a chegada do tempo seco. Outra preocupação é a semelhança de alguns dos sintomas com os das outras doenças que acometem a população nesta época do ano, o que dificulta o diagnóstico.


No Bairro Nacional, 128 pessoas tiveram contato com a área considerada foco da doença. De acordo com a prefeitura, o grupo invadiu, há cerca de 30 dias, um terreno particular que estava murado na Rua 1º de Maio. O local tem hoje 35 casas e nos fundos passa o Córrego Água Funda, um afluente do Córrego Gangorra, que por sua vez é ligado ao Sarandi, que deságua na Pampulha. Além dos animais domésticos, como porcos, bois, cavalos e aves, a mata onde está o curso d’água concentra ainda uma grande quantidade de capivaras, um dos hospedeiros do carrapato-estrela. A prefeitura não sabe quantos animais há no lugar.


Ontem, dezenas de pessoas foram atendidas em esquema de saúde especial montado pela Prefeitura de Contagem para acompanhar os casos. Animais passaram por aplicação de carrapaticida. O município iniciou ontem trabalho de campo e usa também drones para identificar o número de capivaras no local. Para isso, conta com a parceria da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ainda no domingo foi instalado um comitê de crise para tratar do caso. O prefeito Alex de Freitas autorizou ainda o uso imediato de medidas compensatórias que seriam executadas nos próximos meses para trabalho de pesquisa, identificação e manejo das capivaras. Ontem, Defesa Civil municipal e a Secretaria Municipal de Meio Ambiente trabalharam na descontaminação da área afetada.


“Nossa grande preocupação é dar assistência às pessoas que entraram nessa área e evitar que ocorram mais óbitos, além de isolar o lugar, para que o problema continue localizado e assim possamos para fazer o combate de forma específica”, afirma o secretário municipal de Meio Ambiente, Wagner Donato. “BH fez um trabalho que deu certo e vamos contar com a cooperação no sentido de nos passar essa experiência para o manejo das capivaras, por meio do rastreio, castração e acompanhamento”, acrescenta.


As 128 pessoas expostas ao foco foram inscritas numa unidade básica de saúde (UBS) do Bairro Nacional para receber atendimento e orientações sobre a doença. Ontem, das 80 que compareceram, 66 foram atendidas. “Essa ação é importante, pois o quanto antes tivermos o diagnóstico, mais cedo o município conseguirá intervir para evitar mais mortes”, afirmou a diretora do Distrito Nacional, Junia Carrieri. Dos 66 atendidos ontem na UBS, duas pessoas em fase inicial dos sintomas começaram a tomar medicação.


Animais também foram alvo de ação preventiva. Cinco bois e 22 cavalos que estavam soltos no entorno do córrego onde foi identificado o foco foram capturados para receber aplicação de carrapaticida, no Curral Municipal de Contagem. Além disso, houve panfletagem entre a população e borrifação dentro e fora das 35 casas do terreno. Dentro da propriedade há ainda 18 cavalos. “É uma região periurbana. Tem muito pasto e algumas pequenas fazendas, logo, há muitos animais soltos”, disse o médico veterinário José Renato de Resende Costa, da Diretoria de Vigilância Ambiental e Controle de Zoonoses. Estão previstas outras quatro borrifações, com intervalos de sete dias.

Médica Giuliana Cantoni alerta para a necessidade de cuidados especiais para identificar a doença(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
Médica Giuliana Cantoni alerta para a necessidade de cuidados especiais para identificar a doença (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)


SINTOMAS Depois da picada do transmissor, o período para manifestação dos sintomas da doença é de três a cinco dias. A orientação é de que, localizando o carrapato no corpo por mais de três horas, ir a uma unidade de saúde para receber informações sobre os sinais da doença – febre alta, dor no corpo e na cabeça e machas vermelhas. Sinais esses que se confundem com arboviroses (como dengue, zika e chikungunya) e o sarampo. “É preciso ficara tento a esses sintomas e só o médico pode fazer a diferenciação”, ressalta José Renato.


A médica gestora da clínica do Distrito Nacional, Giuliana Cantoni, conta que há todo um protocolo a seguir, que inclui a investigação sobre o possível contato que o paciente pode ter tido com carrapato, água contaminada ou se viajou a algum local que faça pensar em doença específica. Hemogramas podem sugerir alterações, mas é muito pouco para definir pelo diagnóstico de dengue, arboviroses ou doenças bacterianas. “Em um surto de dengue e pessoas com febre, dor de cabeça e no corpo, vamos primar pelo tratamento contra febre maculosa, pois não há nada específico contra a dengue. Para a maculosa, o medicamento é oral e bem tranquilo. Não vale a pena esperar resultado de exames em um caso desses”, afirma. Os resultados do exame feito para diagnóstico precoce demora de dois a três dias e da sorologia para febre maculosa, feita a partir do sétimo dia de início dos sintomas, leva de uma semana a 10 dias.


HISTÓRICO No ano passado, em todo o estado foram 58 casos de maculosa, com 22 mortes. Em Belo Horizonte não há casos de transmissão desde 2017, segundo a Secretaria Municipal de Saúde. Naquele ano, foram quatro casos confirmados em moradores da capital e três óbitos. Em todos os casos a transmissão ocorreu fora da capital. Em 2018 foram 11 casos confirmados da doença, com quatro óbitos, todos também com contágio externo. Neste ano, até ontem não havia casos de maculosa em residentes da capital.


Ainda assim, após a confirmação dos casos de Contagem, a Secretaria de Saúde de Belo Horizonte emitiu alerta aos profissionais de saúde para que fiquem de sobreaviso para atender pacientes com sintomas de febre maculosa. A pasta informou ainda, por meio de nota, que faz ações sistemáticas durante todo o ano de vigilância e controle dos carrapatos. Nos meses de abril, agosto e novembro, é feito monitoramento ambiental. “As ações são constantemente avaliadas, considerando questões entomológicas e epidemiológicas e, dependendo do resultado do levantamento da vigilância, a Secretaria Municipal de Saúde recomenda intensificação das ações de prevenção, como capina”, diz o texto.


Agentes de combate a endemias também mantêm ações educativas, por meio de distribuição de material informativo e preventivo, para a população. De abril a agosto, é aplicado carrapaticida em cavalos – média de oito aplicações por animal. A ação tem a parceria com Associação dos Condutores de Veículos de Tração Animal e será ampliada para todas as regionais.

 

Lista de ameaças


Confira as doenças que ameaçam a população em Minas e na capital

DENGUE
A doença transmitida pelo mosquito Aedes aegypti já provocou 67 mortes neste ano em Minas, 11 delas em Belo Horizonte, segundo o último boletim estadual. Outros 115 óbitos estão sendo investigados. Os casos prováveis, que envolvem confirmados e suspeitos, já chegam a 372.153. Em seis meses, já é a terceira pior epidemia dos últimos 10 anos em Minas. A situação crítica fez o governo decretar situação de emergência.

GRIPE
O vírus H1N1, subtipo do Influenza que provocou uma epidemia mundial em 2009, voltou a assombrar Minas. Desde o início deste ano, já provocou a morte de sete pessoas, cinco delas em BH. A capital já confirmou 40 casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) provocados por gripe, 37 delas pelo H1N1, uma por H3N2, uma sem subtipo especificado e outra por Influenza B.

SARAMPO
Depois de anos sem registrar casos, Minas voltou a ter infecção por sarampo. De janeiro até 13 de maio, data do último balanço estadual, foram registrados 109 casos suspeitos da doença registrados. Desses, três foram confirmados, um deles importado de outro país. A preocupação é com o alto potencial de contágio da doença.

FEBRE MACULOSA
A mais recente ameaça teve dois óbitos registrados em Contagem, na Grande BH, em área de afluentes da Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte, onde há populações de capivaras, um dos hospedeiros do carrapato transmissor. A doença causada pela bactéria Rickettsia rickettsii teve 58 casos confirmados no estado no ano passado, com 22 mortes.


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