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Estado de Minas

Voluntários que distribuem presentes no Natal têm dificuldades em arrecadar doações

Responsáveis por iniciativas tradicionais de distribuição de donativos a pessoas carentes no período natalino sofrem efeitos do arrocho financeiro e correm contra o tempo, clamando por mais doações


postado em 13/12/2017 06:00 / atualizado em 13/12/2017 10:39

Mário de Assis, que há anos incorpora o bom velhinho no Restaurante Popular de BH, faz apelo por mais colaborações: 'Entendo as dificuldades de todos, mas tem gente mais carente' (foto: Leandro Couri/EM/DA Press)
Mário de Assis, que há anos incorpora o bom velhinho no Restaurante Popular de BH, faz apelo por mais colaborações: 'Entendo as dificuldades de todos, mas tem gente mais carente' (foto: Leandro Couri/EM/DA Press)

A crise econômica embarcou no trenó do Papai Noel, e ameaça deixar um pouco mais triste o Natal de milhares de crianças que dependem da solidariedade para as festas de fim de ano. Em um 2017 marcado pelo arrocho, entidades e grupos que costumam promover festas e doações para comunidades carentes e pessoas em situação de vulnerabilidade social vêm enfrentando dificuldades para arrecadar produtos que serão distribuídos no período natalino, e clamam por ajuda para que o brilho da festa não diminua.

Em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, funcionários de uma fábrica de materiais em borracha estão preocupados com a tradicional festa que promovem para cerca de 2 mil crianças, com idades entre 4 e 10 anos, moradoras de bairros da região. A edição deste ano está marcada para o dia 17, mas até agora quase nenhum produto chegou à sede, que fica no Bairro São Benedito. No ano passado eles também tiveram dificuldades. “Em decorrência desta crise econômica, as doações estão baixíssimas. Todo ano contamos com a ajuda de empresas ou grupos de voluntários, mas neste ano, até agora, nada. Praticamente teremos que levantar recursos para realizar o evento”, explica um dos integrantes da comissão organizadora, o supervisor de suprimentos Andrei Dutra Bicalho.

"A pessoa doa um pouquinho porque gosta de ajudar, porque tem aquele sentimento de doação ao próximo, mas ela tem que guardar também para si, porque não sabe o dia de amanhã"

Ângela Proença, presidente da ONG O Proação



Segundo ele, o idealizador da festa é o diretor Ilacir Bicalho de Barros, que promove a iniciativa há 33 anos. Além de crianças cadastradas, a festa no pátio da empresa abre as portas para outras, desde que acompanhadas dos pais. Ele diz que até o momento uma empresa se comprometeu a fornecer pães para os lanches que serão distribuídos, além da prefeitura da cidade, que, segundo o supervisor, se propôs a ajudar. Mas eles precisam de brinquedos, alimentos, doces e refrigerantes para oferecer aos participantes.

Andrei Bicalho explica que a busca por ajuda começou ainda em agosto, mas não houve o retorno esperado. Normalmente, grupos de voluntários procuram a empresa com doações e a comissão organizadora também entra em contato com fornecedores. “Temos feito contato também com essa turma. Todos eles falam que neste ano não estão com muita atenção para as doações, porque estão procurando resolver questões financeiras. As doações ficaram em segundo plano”, explica.

‘Amor não pode ser parcelado’


Papai Noel do Restaurante Popular de Belo Horizonte há mais de 20 anos, Mário de Assis reclama que o coração das pessoas ainda não amoleceu neste ano. O pedido de donativos começou em novembro, mas, diante do que é preciso, pouca coisa foi arrecadada. “Estou chegando de Janaúba e vi crianças vindo para Belo Horizonte para tratamento de saúde, e elas precisam daquele nosso Papai Noel. Nesses casos, acaba que os pais vão ao restaurante, ganham um presentinho e o levam para os filhos. Entendo as dificuldades de todos, está todo mundo na linha da carência, mas tem gente mais carente que nós”, enfatiza.

Mário de Assis, também é presidente da Federação das Associações de Pais e Alunos das Escolas Municipais de Minas Gerais (Fapaemg). “Não é só a crise econômica que evidencia isso. Meu público geralmente é da educação, e o 13º vai ser parcelado. A gente entende a dificuldade, o salário é parcelado, mas o amor e a caridade não podem ser parcelados”, analisa. O almoço de Natal ocorrerá no Restaurante Popular II, que fica na Rua Ceará, no Bairro Santa Efigênia, Região Centro-Sul de Belo Horizonte. Os donativos podem ser entregues até o dia 22. Além de brinquedos, são aceitos materiais de higiene pessoal e guloseimas, como pipoca, pirulitos e balas.

Na outra ponta da cidade, mais um Papai Noel clama por contribuições. José Naide de Carvalho, o Jacaré, de 75 anos, é dono de um bar no Barreiro. Para tentar superar a dor da perda da filha, que morreu em um acidente de carro no Natal de 1986, ele passou a recolher presentes e a distribuí-los para famílias carentes no interior de Minas. Começou já na década de 1990, com uma Brasília. Hoje já aluga um caminhão, contando com o auxílio de outras 10 pessoas. Vestido como o bom velhinho, em sua missão ele percorre 120 quilômetros, de Ibirité a Crucilândia. “Acho que a crise mexeu muito com o povo”, avalia o comerciante, muito conhecido na região. “Tem pessoas para as quais normalmente nem preciso pedir, mas, mesmo assim, neste ano ficou complicado”, comentou.

José Naide disse que ainda tem esperança de receber mais brinquedos, bolas, cestas básicas e balas para distribuir. “Estou com 75 anos e vou continuar até quando Deus quiser. Até cogitei parar, mas aí pensei: O que vou fazer no dia 25? Não vou comemorar com ninguém, vou deixar as crianças na beirada da estrada me esperando? Então, vou continuar na luta”, contou, com otimismo.

CORTE NA LISTA Ainda na capital, Ângela Proença, presidente da ONG O Proação, também percebeu os efeitos da crise econômica sobre a solidariedade. A dificuldade fica evidente na hora de montar os kits com guloseimas que são distribuídos para crianças e cuidadores do Núcleo de Cultura Nova Vista e das casas de Acolhimento Filhos de Nazaré e Mães de Maria. As duas últimas atendem a crianças de até 6 anos em situação vulnerável. O evento será realizado nos dias 17 e 19. “Bombons e biscoitos já temos a quantidade esperada, e temos promessas de várias pessoas. Mas que neste ano está mais difícil do que nos anteriores, está. Pessoas que doavam 10 panetones estão doando cinco, às vezes”, explica Ângela, que diz compreender as dificuldades com o aperto financeiro.

Ela ressalta que, mesmo assim, os colaboradores não deixaram de contribuir e eles alcançaram a meta. “As pessoas estão muito inseguras, não sabem o dia de amanhã. A pessoa doa um pouquinho porque gosta de ajudar, porque tem aquele sentimento de doação ao próximo, mas ela tem que guardar também para si, porque não sabe o dia de amanhã”, comenta.

Maria Nascimento da Silva, da Guarda de Congo Feminina de Nossa Senhora do Rosário, também conta com o esforço próprio e de outras pessoas para fazer a festa de Natal que oferece para crianças e outros moradores do Bairro Aparecida, na Região Noroeste de Belo Horizonte. Nascida em 25 de dezembro, ela promove a celebração há 30 anos, no domingo que antecede a festa, com almoço e presentes. “A gente tem pessoas que tiram do próprio bolso ou da própria despesa para não acabar com a tradição, com esse trabalho bonito do congado”, diz. Mesmo assim, as doações ainda não chegaram perto do necessário. “Estamos tentando conseguir tudo: refrigerantes, descartáveis, precisamos de carne, de material de limpeza...”

Na manhã de segunda-feira, Maria começava a ligar para algumas pessoas para tentar pedir doações, mas ninguém havia ainda atendido as ligações. Porém, ela não desanima: “Tem que ser otimista. Se neste ano não posso dar uma salada de bacalhau, vou dar uma farofa, ou outra coisa. Não posso é desistir”.

 

 

Quer ajudar?

Confira iniciativas que precisam de brinquedos, alimentos e produtos de higiene para serem distribuídos no Natal

 

» Natal do Restaurante  Popular de BH
Precisa de brinquedos em bom estado, guloseimas, produtos de higiene pessoal, entre outros, até o dia 22

Restaurante Popular I
Avenida do Contorno, 11.484, Centro
Restaurante Popular II – Rua Ceará, 490, Santa Efigênia

Restaurante Popular III
Rua Padre Pedro Pinto, 2.277, Venda Nova

Restaurante Popular IV
Rua Afonso Vaz de Melo, 1.001, Barreiro

Ponto de coleta temporário – Rua Goitacazes,15, Centro

» Santa Luzia
Poliprene Artefatos de Borrachas
Precisam de brinquedos, refrigerantes, doces e lanches para a festa oferecida a crianças
Endereço: Avenida Brasília, 3.384, Bairro São Benedito, Santa Luzia, Grande BH
Telefone: (31) 3637-0865

» Belo Horizonte

ONG O Proação

Precisa de panetones e doces para crianças de três entidades
Endereço: Rua Cuiabá, 341, Bairro Prado
Telefone: (31) 3658-5798

» Guarda de Congo Feminina de Nossa Senhora do Rosário

Precisa de alimentos, refrigerantes, doces e brinquedos para o almoço de Natal em 17 de dezembro
Endereço: Capela Nossa Senhora do Rosário – Rua 1º de Julho, 194
Telefones: 3428-8549 ou 3374-1732

» José Naide de Carvalho (Barreiro)
Precisa de brinquedos, cestas básicas e doces
Endereço: Rua Barão de Coromandel, 475, Barreiro
Telefone: (31) 3336-4946


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