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Estado de Minas

Caso fatal de febre maculosa em Belo Horizonte alerta para perigo de antigas doenças

Males transmitidos por insetos e carrapatos evidenciam desafio representado por patologias que há décadas matam brasileiros e que continuam sem controle


postado em 18/09/2016 06:00 / atualizado em 18/09/2016 07:47

Capivaras da Pampulha são apenas a parte mais visível de um desafio que inclui controle de insetos e animais(foto: Beto Novaes/EM/D.A Press )
Capivaras da Pampulha são apenas a parte mais visível de um desafio que inclui controle de insetos e animais (foto: Beto Novaes/EM/D.A Press )
Elas ressurgem como fantasmas, tirando vidas e desafiando autoridades. Nem a evolução da medicina consegue espantar esse espectro antigo, que continua pondo em xeque a saúde pública. O reaparecimento da febre maculosa, que matou uma criança em Belo Horizonte, chama a atenção para o risco de doença seculares, como o mal de Chagas, a dengue, a leishmaniose, a malária e a febre amarela, que retornam para assombrar a população. São males classificados pela Organização Mundial de Saúde como “negligenciados”, por serem tratáveis e curáveis, afetando principalmente populações de baixa renda, e que, por isso, não despertam interesse da indústria farmacêutica.

A mais recente vítima em BH foi Thales Martins Cruz, de 10 anos, que morreu no início do mês contaminado por picada de carrapato, depois de visita ao Parque Ecológico da Pampulha. O diagnóstico de maculosa traz à tona a pergunta inevitável: sendo desafios tão antigos, por que persistem, e matam?

O infectologista Alexandre Moura, da Secretaria Municipal de Saúde, afirma que a maior parte dessas doenças tem reservatório em animais, o que dificulta o combate. Caso da febre maculosa, transmitida pelo chamado carrapato-estrela infectado pela bactéria Rickettsia rickettsii. O contágio ocorre se o carrapato contaminado ficar pelo menos quatro horas fixado na pele. “Para erradicar, é preciso uma vacina muito boa e uma doença circulando só em humanos, pois, quando contagia também animais, o combate é dificultado, pois a transmissão se sustenta na natureza”, diz. “Os próprios carrapatos infectam-se uns aos outros, e a capivara não é a única fonte deles.”

O especialista cita o exemplo da varíola, que, por atacar apenas humanos, pôde ser erradicada com vacina. Moura destaca que a dengue tem grandes chances de ser erradicada depois que a vacina entrar para o calendário oficial do governo e for oferecida a toda a população. Enquanto isso não ocorre, de acordo com o último boletim epidemiológico da Secretaria de Estado de Saúde, Minas registrou 525.452 casos prováveis da doença e 227 mortes só neste ano.

Mas nem mesmo a imunização dispensa o estado de atenção. “O sarampo, por exemplo, ocorre só em humanos, conta com vacina boa, mas não se conseguiu controlar o mal ainda. Ou seja, mesmo quando não há animais na cadeia, é essencial manter uma boa cobertura vacinal”, afirma. Segundo ele, quando uma doença está controlada e para de circular, é comum que surjam correntes contra a necessidade da imunização, criando bolsões de pessoas sem proteção e abrindo brecha para novos surtos.

Ciclo inquebrável de doenças


Não é possível erradicar doenças que têm reservatórios silvestres, como a febre amarela, a doença de Chagas e a febre maculosa, enfermidades que persistem ao longo de séculos. Isso porque os reservatórios mantêm um ciclo em animais que é impossível interromper. A afirmação é do médico Heitor Franco de Andrade Júnior, pesquisador do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (USP). Ele defende a tentativa de erradicação de vetores, como carrapatos e mosquitos, mas mediante medidas agressivas do sistema sanitário, como uso de inseticidas domésticos.

“A população considera uma invasão de domicílio e, ao mesmo tempo, é muito caro o combate com os inseticidas atuais. Quando da campanha que controlou a malária e a doença de Chagas, a população era mais receptiva e se podia usar inseticidas baratos, como o BHC e o DDT, que são relativamente tóxicos e considerados perigosos. Os inseticidas agrícolas atuais são muito eficientes, mas tóxicos demais para uso em cidades”, afirma. “A administração do controle de vetores também é muito complexa, porque cada estado ou município depende de uma infraestrutura cara e que inexiste nas pequenas cidades, fazendo com que a política atual seja transferir o controle para o dono do domicílio, com a aquisição de inseticidas muito menos eficientes e de alto custo individual.”

O infectologista Alexandre Moura, da Secretaria Municipal de Saúde, ressalta que, no caso de doenças transmitidas por vetor, são várias as razões para a impossibilidade de erradicação. No caso da leishmaniose, que tem reservatório animal (cão e animais silvestres) e é endêmica em Belo Horizonte, o combate à doença esbarra na relação afetiva que os donos têm com seus cachorros, fazendo com que se recusem a sacrificar animais infectados.

Já a doença de Chagas está praticamente controlada, de acordo com Alexandre Moura. “Os casos atualmente são de ingestão do barbeiro, amassado com produtos como o açaí ou a cana-de-açúcar. Por picada intradomiciliar, que era o grande problema de Minas Gerais, praticamente não existe mais”, diz o médico, esclarecendo que, no caso do açaí, é a fruta in natura que representa a ameaça, e não os produtos pasteurizados comercializados em lanchonetes.

A malária é outra enfermidade com reservatórios na natureza para a qual se tenta desenvolver vacina há anos. Apesar de ter cobertura vacinal, a febre amarela ainda registra microendemias. A rapidez do trânsito de pessoas pelo mundo é outro agravante apontado pelo infectologista, que exemplifica citando a velocidade com que o zika vírus se espalhou pelo mundo.

Mudança de comportamento e conscientização da população devem andar também lado a lado com os esforços científicos. A dengue ilustra bem essa situação. Controlada nas décadas de 1960/70, quando o Aedes aegypti circulava em locais mais restritos, sem contato com tantos reservatórios, a dengue foi reintroduzida na década de 1980. O mosquito ficou mais adaptado ao ambiente humano com o passar do tempo e, se antes havia matas e competição com o pernilongo Culex, hoje o transmissor encontra na selva de concreto um ambiente sem concorrência. “No início do século passado, o poder público entrava na casa das pessoas à força, borrifando. Hoje isso não é fácil. Há locais em que não conseguimos fazer a prevenção em 20% das casas, o que é uma taxa muito alta”, relata o infectologista da secretaria.

DIFICULDADES O médico Heitor Franco de Andrade Júnior, responsável pelo Laboratório de Protozoologia do Instituto de Medicina Tropical da USP, vai além e diz que as dificuldades do sistema de saúde nesse enfrentamento passam por recursos e por uma política de gestão de saúde pública “agradável”. Segundo ele, com a evolução do conhecimento da sociedade e o efeito eficiente das medidas impopulares antigas no controle dessas doenças, elas tiveram a prevalência reduzida, com queda de mais de 90% em morbidade e mortalidade. “Isso funcionou com inseticidas e intervenção feroz: o borrifador invadia as casas e deixava tudo branco de DDT. Hoje isso não é possível, a população é mais esclarecida e o sistema público é formado por pessoas menos afeitas à área, mais voltadas para as doenças crônico-degenerativas e ao tratamento individual”, relata.
“Nossos sanitaristas foram eficientes em afastar essas doenças da cidade, mas isso precisa de manutenção. Então, ocorre um círculo perverso: como certas doenças são menos frequentes, há poucos pacientes afetados e existe terapia eficiente, não se mantém tanta vigilância”, afirma. Ele ressalta que assim aparecem os casos esporádicos. “Os médicos demoram para diagnosticar e não têm meios para isso, porque a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) só permite que o SUS pague o diagnóstico de kits aferidos por ela. As universidades não podem cobrar pelos diagnósticos que elas fazem e os laboratórios não veem retorno comercial em testes raros ou remédios de baixa produção. Assim o problema se perpetua.”

O pesquisador avalia como grande desafio, entre os fatores que mais pesam para combater essas doenças, convencer cientistas a se dedicarem a um problema que os administradores não consideram importante, já que as pesquisas migram para áreas mais visíveis. “E não temos muitos pesquisadores, porque somos um país com baixa formação de doutores”, diz.


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