Publicidade

Estado de Minas

Missa no Santuário de Nossa Senhora da Piedade leva esperança aos sem-teto

Grupo de 120 pessoas que vivem nas ruas de BH se emociona ao acompanhar pela 1ª vez missa celebrada pelo arcebispo metropolitano no Santuário de Nossa Senhora da Piedade


postado em 09/09/2015 06:00 / atualizado em 09/09/2015 07:36

Dom Walmor Oliveira de Azevedo pronunciou palavras de esperança e pediu esforço de autoridades em benefício dos sem-teto(foto: Paulo Filgueiras/EM/DA Press)
Dom Walmor Oliveira de Azevedo pronunciou palavras de esperança e pediu esforço de autoridades em benefício dos sem-teto (foto: Paulo Filgueiras/EM/DA Press)

Jesus levantou a mão direita em direção à ermida do santuário de Nossa Senhora da Piedade, em Caeté, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, e clamou a Deus por uma vida melhor para a multidão de homens e mulheres que, sem a proteção de um lar, dormem ao relento em todo o país. O censo da chamada população em situação de rua, divulgado em abril de 2014, estimou que esse universo é de 1.827 pessoas apenas em Belo Horizonte. Receoso de que a recessão econômica engorde a estatística, Jesus ajeitou os chinelos e sentou-se num dos bancos da antiga capela, erguida em homenagem à padroeira de Minas Gerais.Emocionado, começou a orar em voz baixa.

Jesus, pai de um filho que não o vê há 10 anos, foi batizado como José Santiago de Jesus. Ele tem 62 anos e morou “por muito tempo” nas ruas de BH, onde garimpava materiais reciclados para sobreviver. “Agora, resido numa pensão”, conta o senhor, um dos 120 homens e mulheres que participaram ontem da primeira edição da peregrinação dos moradores de rua ao santuário de Nossa Senhora da Piedade.

O grupo foi levado em três ônibus pela Pastoral do Povo da Rua, da arquidiocese da capital. Lá, participaram de uma missa celebrada por dom Walmor Oliveira de Azevedo, arcebispo metropolitano. Diante de uma imagem da santa, que enfeita o altar e é atribuída a Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1738-1814), dom Walmor destacou palavras de esperança aos sem-teto.

O arcebispo também aproveitou a ocasião para cobrar da sociedade e dos governantes maior esforço em benefício da população de rua. Ele citou o apóstolo Paulo para lembrar aos fiéis o sacrifício de Jesus: “Deus, o pai de Jesus Cristo, nosso salvador, empenhou o que ele tinha de melhor. E o apóstolo Paulo, na carta aos romanos, a primeira leitura, nos ensina: o próprio filho”.

EMOÇÃO As palavras do arcebispo emocionaram Wendell Márcio Albino, de 39, que passa as noites debaixo das marquises da Avenida Olegário Maciel. “Moro na rua há quase dois anos. Saí de casa por problemas familiares. Perdi as contas de quantas vezes fui maltratado”, relatou o homem, que ontem foi ao santuário pela primeira vez.

O céu estava nublado, o que impediu Wendell de apreciar a vista oferecida no alto do santuário. Mas ele se encantou com a arquitetura da antiga capela, onde há dois pequenos corredores, no entorno da nave única, e que antigamente foram destinados à pousada de tropeiros. Hoje, esses espaços abrigam a capela do Sagrado Coração de Jesus e a capela do Santíssimo Sacramento ou de São José.

“É a primeira vez que venho ao santuário. Muito bonito”, elogiou Wendell. Para se proteger do frio, ele jogou um cobertor sobre as costas. Acompanhou toda a missa ao lado de outros amigos. Havia gente em cadeira de rodas, com bengalas e criança no colo. A distribuição da hóstia foi acompanhada por mais de uma canção.

Perigo João Carlos Gomes, de 46, aproveitou para pedir a Deus saúde a ele e aos colegas que moram nas ruas de BH. “Hoje, moro num albergue, mas já passei várias noites nas calçadas. Digo que, na rua, a pessoa dorme com um olho aberto e outro fechado. É perigoso”, afirma o homem, natural de Rubim, no Vale do Jequitinhonha.

Os fiéis deixaram a capela e fizeram um passeio pelo santuário, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1956. O passeio terminou com um almoço.

Migrantes em dificuldades

A procura por um emprego é a principal causa da migração para  Belo Horizonte entre os moradores em situação de rua que chegaram capital mineira: 47,2% dos homens e mulheres que passam noite debaixo de marquises ou em praças vieram à cidade atrás de um trabalho. A estatística foi levantada no censo da população de rua. Outros 17,8% se mudaram para BH em razão de conflitos familiares, enquanto 6,25% tinham algum problema de saúde. Também
há quem tenha sido ameaçado (3,15%), quem considere a capital uma cidade acolhedora (8,75%) e quem tenha se mudado para acompanhar familiares (18,4%).A


Publicidade