
O desabafo da funcionária pública federal Margarida Lages, de 46 anos, usuária de cadeira de rodas desde os 30, divulgado ontem pela internet via Facebook e e-mails, sensibilizou os internautas (veja texto ao lado). Conduzidos pelo raciocínio ágil de Margarida, eles puderam se imaginar sentados em uma cadeira de rodas motorizada e sentir na pele toda a aflição e desespero enfrentados no cotidiano pelos 165 mil cadeirantes de Belo Horizonte. Na véspera, ela e o filho, Raphael, de 10 anos, tentaram pegar um táxi na capital, serviço que é pago e custa caro, mas foram recusados diversas vezes como passageiros.
“É só ver a cadeira de rodas que o taxista passa batido. Nossos meninos do basquete vivem esse preconceito direto”, denuncia Paulo Silva, diretor da Associação Mineira de Paraplégicos (AMP), que enfrentou essa situação no ano passado ao tentar embarcar três atletas para a Seleção Brasileira de Basquete sobre Rodas. “Parei o carro na marra e expliquei que era corrida boa, até o aeroporto”, completa.
“Como vamos sediar uma Copa do Mundo se não conseguimos garantir o mínimo de acessibilidade às pessoas deficientes?”, questiona a funcionária pública, lembrando que idosos, convalescentes de cirurgia e grávidas também precisam usar eventualmente a cadeira de rodas. Para atender esse público, o serviço de táxi da capital conta com apenas um carro adaptado para deficientes físicos.
Licitação
Na semana passada, a BHTrans anunciou a licitação de 605 novas permissões, sendo 60 dirigidas a carros adaptados para deficientes físicos. Porém, o processo ainda deve levar três meses. Além disso, os próprios taxistas têm dúvidas se a ideia vai “pegar”, já que até agora uma única placa interessou-se em atender este público. Apesar de a compra do carro sair com isenção de até 35% na carga de impostos, somente a instalação de um elevador custaria o extra de R$ 10 mil. “Como abriram a licitação para empresas em lotes de 10 carros, o investimento inicial será em torno de R$ 1 milhão. O proprietário vai levar cinco anos para ter retorno”, compara.
Cadeirantes poderiam, na verdade, andar em qualquer táxi, adaptados ou não. A dificuldade maior é o transporte da cadeira de rodas, especialmente a motorizada, que para ser dobrada necessita que antes seja retirada uma bateria. Na prática, o que existe é uma “deficiência” na educação e na boa vontade de muitos taxistas, que não conseguem lidar com o equipamento novo nem se mostram dispostos a aprender. “A cadeira é pesada, mas achei rápido de desmontar”, afirma Wilson Cândido, 30 anos de praça, convidado pelo EM a testar o equipamento.
Por lei, os taxistas são proibidos de recusar passageiros, estejam eles com cadeiras de rodas, carrinhos de bebê ou malas de viagem. Caso seja feita a denúncia na BHTrans, com o número da placa, dia, local e horário aproximado, o motorista irá sofrer um processo interno, podendo até mesmo ser descredenciado do serviço.
Público cativo e atencioso
Ranulfo da Silva Lopes Júnior, de 57 anos, é o único taxista de Belo Horizonte que tem o carro adaptado para transportar cadeirantes e sua agenda é sempre lotada. “Comecei a trabalhar às 6h e não parei nem para almoçar. Só terminei de atender agora. É um público ótimo de lidar, que dá gorjeta e sempre elogia. Qualquer ser humano gosta de ser elogiado no trabalho”, afirma o taxista, que não é o permissionário da placa.
“Não entendo porque a BHTrans abriu licitação somente para empresas. Era a hora de realizar o meu sonho”, protesta ele que, em abril, completa dois anos no serviço e cerca de 500 clientes fixos.
O Estado de Minas fez um teste e tentou conseguir um táxi em três operadoras, fazendo a ressalva de que o carro precisaria ser de maior porte, sem adaptação para gás (que consome parte do porta-malas) e capaz de receber a cadeira motorizada. O atendimento não levou mais de 20 minutos nas três operadoras.
Só a Coopertáxi, porém, foi capaz de fornecer o carro adequado (Fiat Idea). A Coomotáxi e a Ligue-táxi ofereceram modelos como o Corsa e o Siena que não comportam receber a cadeira. “Até no Uno cabe, mas não dá para ajeitar a cadeira em carros com o porta-malas arredondado”, afirma Margarida Lages, que tirou a carteira de motorista e está organizando as finanças para comprar um carro. “Caso contrário, fica difícil sair de casa”, conclui. (SK)
Depoimento
Tenho de relatar-lhes o capítulo final da minha novela que foi o dia de hoje. Depois de ficar esperando um táxi que não veio, pedi por outra operadora e aí veio um que quase não coube a cadeira porque tinha gás, mas o motorista teve boa vontade, deu um jeitinho e fomos. Mas, na volta, quem disse que conseguia transporte? Liguei para todas as operadoras. Cansada, comecei a parar os que passavam na rua. Vários se recusaram, até que um resolveu subir no passeio para eu entrar. Por sorte era um carro enorme, cabia minha cadeira. Eu e meu filho Raphael nos sentamos e... adivinhe? Quando fui mostrar para o motorista como desmontá-la ele simplesmente disse que não sabia, que era pesado demais e que não ia nos levar! Desci do carro com muita raiva. Tentamos mais teletaxi e nada. Até que resolvemos dar sinal para outro cidadão que pilotava um Idea (que cabe perfeitamente a cadeira). Pois não é que, inacreditavelmente, a história se repetiu? Entramos no taxi e, mal nos acomodamos, o sujeito nos mandou sair porque não sabia mexer com a cadeira, tinha medo de quebrá-la. Tentei ensinar e ele se recusou. Desolados, entramos numa padaria e o Rapha ficou fazendo o dever de casa enquanto eu fazia novas tentativas pelo telefone. Até que parei um outro taxista e perguntei se tinha boa vontade para colocar a cadeira no carro. Ele me mandou subir, só que não teve paciência para desmontar a cadeira. Disse que não ia ficar a noite toda ali e mandou chamar o porteiro da clínica onde estávamos para colocar a cadeira montada no carro. Gente, era só puxar uma trava (que o Raphael mostrou pra ele) e puxar a bateria pela alça. Mas, enfim, conseguimos nos enfiar no carro (o Raphael todo enrolado no que restou do banco de trás) e chegamos em casa, duas horas depois, quase oito horas da noite.”
MARGARIDA LAGES, DE 46 ANOS,
FUNCIONÁRIA PÚBLICA FEDERAL E CADEIRANTE
