
Ganha força a hipótese de que o engenheiro mineiro e o geólogo paulista achados mortos no Norte do Peru em julho do ano passado, quando faziam estudos para instalação de uma hidrelétrica, foram vítimas de emboscada. Familiares de Mário Guedes, de 57 anos, tiveram acesso a contas do telefone celular corporativo do geólogo e constataram oito ligações feitas em 28 de julho, um dia depois de que Guedes e o engenheiro Mário Bittencourt, de 61, foram encontrados perto de um trilha em área de selva próxima à cidade de Jaén. Entre as ligações feitas no aparelho, segundo familiares, figuraria o número de Jesús Sánchez, dono da cabana na beira da estrada por onde os brasileiros passaram, e que, segundo investigações preliminares, teria oferecido água ao grupo no início da caminhada. Sánchez e Juan Zorrilla Bravo, líder comunitário que já participou de manifestações contra hidrelétricas na região, são investigados por assassinato pelo Ministério Público peruano. Segundo consta no inquérito, Zorrilla teria indicado caminhos errados a peruanos que faziam buscas na região.
“Desde o primeiro momento, digo que eles caíram em uma emboscada”, protesta Fátima Bittencourt, viúva de Mário Bittencourt. Ela denuncia que os celulares dos brasileiros haviam sumido misteriosamente no início das investigações, bem como a roupa que eles usavam e suas máquinas fotográficas, que inclusive teve uma das fotos apagadas. Por intervenção dos parentes, que estiveram em reunião no Peru apoiados pela Leme Engenharia, empresa mineira onde os dois trabalhavam, a discriminação dos telefonemas discados a partir do aparelho de Guedes passou a ser anexada como prova no inquérito policial.
Passados mais de seis meses de investigações, até hoje não há avanços nos trabalhos conduzidos pela Fiscalía de Cumba, misto de promotoria e delegacia de polícia, encarregada de investigar o caso no Peru. Insatisfeitos com o andamento das investigações, os familiares têm feito investigações paralelas para apurar o suposto assassinato por envenenamento. Desde que os brasileiros foram encontrados mortos, em 27 de julho, a Fiscalía ainda não prendeu os suspeitos, não quebrou sigilos fiscais e telefônicos nem concluiu o laudo do médico legista indicando a causa da morte. A data de encerramento do inquérito estava prevista para o dia 12 de janeiro e já foi prorrogada por três vezes a pedido da família, que pediu mais tempo para apurar as circunstâncias do crime.
Sem resultado
Segundo a diplomata Marise Nogueira, chefe do setor consular da Embaixada do Brasil no Peru, até que se esgote o prazo máximo da fase preliminar de inquérito, previsto para 18 de fevereiro, o delegado responsável pela investigação terá de se pronunciar pelo arquivamento provisório ou definitivo do processo. Outra opção é abrir processo penal contra os suspeitos que ele tenha encontrado de homicídio, já que houve morte em condições não esclarecidas. “Se ele se pronunciar pelo arquivamento , cabe recurso de parte da família, mas em nossa última conversa ele dizia que não havia indícios suficientes para provar que houve homicídio. Ele ainda tem um mês pela frente, mas o laudo foi inconclusivo”. compara
A Leme Engenharia, por meio de assessoria de imprensa, informa que contratou um advogado no Peru para acompanhar o caso e um perito daquele país para colher amostras extras que foram enviadas ao Brasil para análise suplementar. Acrescentou que pediu exames particulares nas roupas, máquinas fotográficas e celulares usados pelos profissionais durante a missão e forneceu os resultados ao Ministério Público peruano, de modo que fossem anexados ao processo de investigação.
Entenda o caso
23 de julho: O engenheiro mineiro Mário Augusto Soares Bittencourt, de 61 anos, e o geólogo paulista Mário Gramani Guedes, de 57 anos, desembarcaram em Lima e seguiram de avião para Chiclayo, no Norte do país, e de lá, de carro, para Jaén, a 600 quilômetros. Eles foram fazer estudos de viabilidade para construção de uma usina hidrelétrica na região da floresta amazônica peruana.
25 de julho: O trabalho de campo começou cedo. A dupla brasileira, um engenheiro e um geólogo peruanos caminharam por uma estrada por cerca de duas horas e meia. Segundo o depoimento dos peruanos, Bittencourt sentiu dor no joelho e se sentou à beira da estrada.
Guedes e os colegas seguiram por um trecho e quando voltaram, meia hora depois, o engenheiro mineiro já não estava mais lá. Guedes, então, decidiu esperar no local pelos peruanos, que tentaram acesso por outra trilha para chegar ao Rio Marañon.
Os peruanos contaram à polícia que retornaram uma hora depois e Guedes também não estava no local. Eles pensaram que os dois brasileiros haviam retornado para o carro, onde o motorista os aguardava.
De acordo com o inquérito peruano, os funcionários da SZ Engenharia só perceberam o desaparecimento quando um outro colega, responsável pela logística, levou água aos pesquisadores e comentou que não havia cruzado com os brasileiros na estrada.
27 de julho: Os dois corpos foram encontrados pela polícia peruana às 8h, a 100 metros da estrada principal, em área de cerrado. A distância entre os dois era de 200 metros. Nada foi roubado e não havia marcas de violência, segundo a polícia.
Segundo o engenheiro e o geólogo peruanos, dois camponeses são investigados pela morte de Bittencourt e Guedes. Um deles, Juan Zorrilla Bravo, é líder comunitário e participou de manifestações contra usinas hidrelétricas. Ele teria atrapalhado as equipes de busca, conforme depoimento dos peruanos. O outro, Jésus Sanchéz, teria oferecido água aos brasileiros no início da caminhada.
A pedido das famílias, amostras foram trazidas para serem analisadas no Brasil. Na semana passada, autoridades peruanas fizeram reconstituição, com a participação de Zorrilla. Os acusados negam envolvimento nas mortes.
31 de agosto: O Instituto Médico Legal (IML) de Brasília divulgou que as análises histopatológicas e do exame toxicológico, que não detectaram nenhum tipo de veneno para os padrões e dosagens pesquisados. Os testes foram feitos com pelo menos 10 tipos de veneno mais frequentes em casos de assassinato.
1º de setembro: O Instituto Médico-Legal (IML) de Belo Horizonte confirmou que o engenheiro mineiro não morreu de causas naturais. Exames minuciosos não são conclusivos para análises toxicológicas. Peritos analisara 816 substâncias e não encontraram elementos comuns em envenenamentos, como medicamentos, estricnina, cianureto ou arsênico.
Venenos de ervas, répteis e anfíbios também não foram detectados porque se desintegram com o corpo. Nenhuma mordida de cobra foi identificada.
Segundo o IML, duas hipóteses não puderam ser descartadas: a de envenenamento por substâncias orgânicas e de sufocamento.
16 de setembro: Os testes laboratoriais feitos em Lima tiveram resultado inconclusivo. Os exames de sangue tiveram resultados negativos para as substâncias investigadas, assim como das amostras de tecidos estudados porque as células já estavam em decomposição. Um advogado contratado pela Leme Engenharia enviou as roupas das vítimas para perícia particular, que apontou sangue e vômito, indícios de envenenamento.
4 de dezembro: Inquérito deveria ser concluído nesta data, mas ´e prorrogado para 12 de janeiro
12 de janeiro: Conclusão do inquérito é prorrogado mais uma vez, para 18 de fevereiro.
